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Correio Braziliense

Brasilienses sobrevivem vendendo panos de chão e sacos de lixo nos sinais

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de trabalhadores sem carteira assinada saltou de 10,4 milhões em 2017 para 11,2 milhões em 2018, ou seja, uma alta de 7,8%


postado em 18/08/2019 07:00

Carlindo Nunes: ''Meu sonho é conseguir terminar de juntar o dinheiro para construir minha casa''(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Carlindo Nunes: ''Meu sonho é conseguir terminar de juntar o dinheiro para construir minha casa'' (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Às 5h, seu Carlindo Nunes de Araújo, 55 anos, sai do barraco onde mora, no Jardim Ingá, perto de Luziânia, para trabalhar todos os dias da semana, exceto domingo. São 88km percorridos (ida e volta) dentro de um ônibus lotado. Na sacola, o ganha-pão: sacos de algodão e de lixo para vender numa via do Setor Hospitalar Local Sul, perto do Cemitério Campo da Esperança. “Minha mulher não trabalha e todos da família dependem de mim. O que recebo, só dá para a alimentação e para o gás. Mas vou fazer o quê? Tenho que agradecer a Deus por meus filhos não estarem pedindo comida na rua”, desabafa Carlindo, que sustenta dois filhos, 13 e 14 anos, e dois sobrinhos 16 e 21 anos.

Cinco panos de chão são vendidos a R$ 10 e o pacote de sacos de lixo com 30 unidades, custa o mesmo preço. Por dia, ele consegue faturar entre R$ 30 e R$ 40, uma média de R$ 800 por mês. O ganho não chega a um salário mínimo (R$ 998) e é insuficiente para manter a família. Com base na tabela de julho deste ano da Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a remuneração necessária para a manutenção de uma família de quatro pessoas equivale a R$ 4.143,55. Mas, a realidade é outra.

“A necessidade de pagar contas, faz com que o indivíduo se submeta a fazer qualquer coisa. Ninguém escolhe trabalhar como ambulante, mas recorrem a esse meio por uma necessidade de sobrevivência”, analisa o professor de administração da Universidade de Brasília (UnB) Francisco Antônio Coelho.

Carlindo conta que não teve outra escolha. Ele já trabalhou como vigilante, servente de pedreiro e jardineiro, mas na maioria foi demitido por não ter concluído o ensino médio. “Parei na 4° série do fundamental. Eu não tinha tempo para estudar, porque meus pais precisavam da minha ajuda na lavoura, plantando milho”, conta.

Baiano de Santa Rita de Cássia, Carlindo alimenta o sonho de conseguir terminar a construção da casa. “Faltam o telhado, o reboco e o piso todo. Estou tentando juntar esse dinheiro há cinco anos, mas nunca sobra”. Para alcançar o objetivo, ele enfrenta uma rotina árdua, que começa às 5h. São duas horas de viagem no ônibus para chegar ao ponto de vendas. Lá, posiciona uma faixa com os dizeres: “Não está fácil conseguir emprego. Me ajude comprando cinco panos por R$ 10” .

Salário


O trabalho informal é o caminho de muitos brasileiros que enfrentam uma crise econômica que insiste em não terminar. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de trabalhadores sem carteira assinada saltou de 10,4 milhões em 2017 para 11,2 milhões em 2018, ou seja, uma alta de 7,8%.

“O modelo de trabalho irregular, embora seja ilegal por conta das leis trabalhistas e tributárias, desempenha um papel importante na sociedade, pois permite que boa parte das pessoas tenham condições de sobreviver diante a crise”, argumenta Lauro Ramos, economista e pesquisador do Instituto de Pesquisa e Econômica Aplicada (Ipea).

No Distrito Federal, não é difícil encontrar ambulantes pelas ruas ou nos semáforos. As mercadorias oferecidas variam: pipocas, eletrônicos, doces, entre outros. Para muitos, a venda de sacos plásticos e panos de chão é o que garante a renda do mês.
 
A vida de Francisco de Assis, 50, deu uma reviravolta nos últimos três anos. Com lágrimas nos olhos, o ex-empresário relembra da época que possuía uma distribuidora de bebidas em Taguatinga, quando viu tudo ir por água abaixo após decretar falência. Para sanar as dívidas, ele teve de abrir mão do negócio e do próprio carro. “Não foi fácil. Se te contar que eu só tinha arroz branco para comer, você não acredita”, relata.
 
Francisco de Assis virou ambulante depois de perder uma distribuidora de bebidas(foto: Darcianne Diogo/CB/D.A Press)
Francisco de Assis virou ambulante depois de perder uma distribuidora de bebidas (foto: Darcianne Diogo/CB/D.A Press)
 

Para sustentar a esposa e os três filhos, de 20, 8 e 2 anos, Francisco decidiu vender panos e sacolas nos sinais na L2 Sul. “Aqui eu ganho por dia, então nem faço as contas do quanto recebo por mês, porque é incerto. Eu ganho 40% de comissão dos produtos vendidos. O resto eu dou para a pessoa que me revende os panos. Se eu vender R$ 100, eu sei que vou receber R$ 40. Às vezes, quero almoçar, mas, se eu tirar R$ 12 todos os dias, me faz falta no fim do mês. Então, espero dar 19h para chegar em casa e comer alguma coisa”, conta.

O ambulante também é morador do Jardim Ingá. A rotina começa cedo. Às 7h30 ele está posto na L2 Sul. Os carros param no sinal vermelho e é a chance de fechar mais uma venda. “Tenho alguns clientes que fidelizei e eles me reconhecem e perguntam: ‘É tu que está aqui mesmo? Você vai vencer!’. Tenho muita fé de que eu vou me reer
guer e, quem sabe, conseguir montar minha empresa de novo”, destaca.

Sem opção


“Estou levando a vida. Estar aqui é a minha única opção”, responde secamente seu João Pereira Neto, 65. Aos 50 anos, João foi demitido do emprego, onde trabalhava como porteiro. “Eles falaram que eu não tinha estudo suficiente para estar ali nem mais idade. Parei na 1° série do fundamental.” Sem saída, ele recorreu às vendas de panos e sacolas.

Posicionado no sinal da 412 Sul, o morador de Santa Maria ganha, por dia, R$ 50, o que gera uma renda mensal de R$ 1.200. O dinheiro só dá para comprar o básico e pagar as contas de água e de luz. “É muito duro ver os filhos pedindo um biscoito ou um leite para tomar, e você ter que dizer que não vai dar”. Desencantado, João não cria expectativas para o futuro. “Sei que vou ficar aqui até morrer. Quem vai dar emprego para um velho sem estudo?”, lamenta.

Há dois anos, Aldemário Bispo dos Santos, 31, tem seu ponto na 508 Sul. Nascido em Dianópolis (TO), ele veio para a capital em busca de emprego, mas se deparou com portas fechadas. Na cidade natal, Aldemário trabalhou durante 11 anos como coletor de lixo. “Quando cheguei aqui (Brasília), comecei vendendo frutas, mas, mesmo assim, continuei enviando meu currículo para várias empresas na esperança de ser contratado, mas nunca deu certo”, relata.
 
Aldemário Bispo segue confiante na busca de uma contratação(foto: Darcianne Diogo/CB/D.A Press)
Aldemário Bispo segue confiante na busca de uma contratação (foto: Darcianne Diogo/CB/D.A Press)
 

O ambulante mora com a mulher e dois filhos, de 10 anos e um bebê de um mês, em Santa Maria. A mulher não trabalha, o que faz a situação financeira apertar mais. “Tiro em média R$ 1.200 por mês, que serve para pagar o aluguel, de R$ 350, água, luz e cartão. Agora, para comprar roupas, sapatos, ou coisas assim, não dá”, afirma. Mesmo passando por um momento difícil, ele segue confiante, entregando currículos, na busca de uma contratação. Tem fé...

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