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Correio Braziliense

Opinião: Torpedos vindos do Canadá


postado em 18/08/2019 13:46

(foto: CB/D.A Press)
(foto: CB/D.A Press)
Bem cedinho já começam a chegar os avisos de mensagem. O pombo-correio dos novos tempos é um bip, um toque que tenta ser música, mas não é. A tecnologia dita o ritmo da comunicação. É rápida, dinâmica, pontual, certeira, cortante. Sem o romantismo das cartas de outrora. Mas segue viva e, acreditem, pode ser profunda, intimista, aconchegante e reflexiva.

Tenho um grande amigo que se mudou para o Canadá. Inteligente, lúcido, preparado, consistente, troca comigo torpedos toda semana. Quer notícias mais próximas do Brasil. Contamos nossas impressões sobre o país. De lá, ele me diz como observa o cenário. Meio atônito, avalia comigo as notícias que chegam por aquelas bandas. “Como estão nos vendo por aí?”, eu quero saber. “Não tá bonito”, ele me confirma.

Leitor atento dos assuntos da cidade, ele anda com a sensação de estar lendo notícias do passado. “Tirar pardais? Parece coisa da década de 1990”. Essa discussão já foi feita e superada, concordamos. Brasília poupou uma enormidade de vidas desde a Campanha pela Paz no Trânsito, uma iniciativa desse jornal, encampada pela sociedade como um todo. Código de Trânsito, redutores de velocidade, cinto de segurança, cadeirinha para as crianças, Lei Seca... E a cidade no caminho de alcançar a meta da ONU e reduzir em 50% as mortes no trânsito em uma década... Vamos andar para trás? Nenhum de nós duvida que há uma opção pelo descaminho aí.

Meu amigo sabe dos assuntos de economia e política. Acha um avanço a reforma da Previdência virar assunto nacional e ser apropriada pelo Congresso. E ri do meu espanto com o repertório de piadas nacionais. Ele diz que não se surpreende com a veia humorística das excelências. “Nunca a política produziu tanto humor no Brasil. Companhia Brasileira de Comédia... Ops! De tragédia”, concluímos. Nunca o riso esteve tão próximo das lágrimas.

No fundo, sabemos, não está engraçado, não. A preocupação dele, lá de longe, chegou a níveis alarmantes por causa da questão do desmatamento. “Agora, vai pegar”, ele me diz. Não se brinca com o meio ambiente — e não se rasga dinheiro. O Brasil perdeu R$ 287,6 milhões de investimentos estrangeiros em dois dias. Mais de 2 mil Km² desmatados em um mês.

Se o mundo vai ficar de braços cruzados vendo o Brasil destruir tanto verde? Eu e meu amigo lá do Canadá compartilhamos a mesma certeza: “Não”. Os ciclos da economia, o PIB oscilante, o crescimento pífio, o conservadorismo que vai e vem, as voltas e revoltas dos políticos... tudo isso tem conserto. Mas a sobrevivência do planeta não aceita bravatas. Meu amigo nem sabe se volta para o Brasil, mas sente saudades. Me diz que é difícil viver longe. Eu digo a ele que viver perto pode ser mais dolorido.

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