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Correio Braziliense

Livro de Hitler em escola reabre discussão sobre nazismo

Publicação escrita por Hitler encontrada na biblioteca de escola de ensino médio provoca discussão sobre a proliferação de ideias nazistas. Secretaria de Educação destaca que o caso é pontual. Comunidade israelita reage e cobra providências


postado em 22/08/2019 06:00

Baruch: ''(É preciso) Conscientizar, principalmente os jovens. Falar sobre o que foi (o nazismo), sobre o que o ódio faz''(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
Baruch: ''(É preciso) Conscientizar, principalmente os jovens. Falar sobre o que foi (o nazismo), sobre o que o ódio faz'' (foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
Uma foto publicada, por um equívoco de edição, na capa de terça-feira do Correio, reacendeu o debate sobre uma questão delicada: divulgação de símbolos e de ideias nazistas na sociedade contemporânea. A imagem trazia quatro estudantes segurando livros de uma jornada literária, objeto da reportagem. Um deles, no entanto, estava com um exemplar do polêmico Minha luta, livro escrito por Adolf Hitler para disseminar a doutrina historicamente condenável e responsável por milhões de mortes dos anos 1930 até o fim da Segunda Guerra Mundial.

O livro de Hitler, porém, não constava dos selecionados da Jornada Literária. Mas, conforme mostrou apuração posterior, fazia parte do acervo da biblioteca do colégio. A foto provocou reação, principalmente, da comunidade israelita, representada por Mourad Ibrahim Belaciano e Humberto Baruch, integrantes da Confederação Israelita do Brasil (Conib); e críticas sobre a presença do exemplar em uma escola pública de ensino médio. “Eles (o governo) têm que fazer um levantamento sobre quais livros estão nesta biblioteca, como este livro foi parar lá, qual a extensão disso nesta e nas bibliotecas da rede inteira”, destaca Baruch.

A Secretaria de Educação assegurou que o caso é pontual e que a obra não está presente no acervo de outras escolas. “A obra foi comprada pela escola com a proposta de discutir o nazismo do ponto de vista crítico. As escolas públicas do Distrito Federal têm autonomia para desenvolver projetos pedagógicos próprios e comprar livros com recursos do PDAF (Programa de Descentralização Administrativa e Financeira)”, diz nota oficial.

A pasta destaca que condena o nazismo, mas não proíbe o debate sobre o tema, “que causou tanto mal à humanidade”. “É preciso conhecer para melhor prosseguir. A SEEDF jamais recomendou a compra de obras como esta e nunca as distribuiu às escolas. A escola em momento algum se propôs a defender o nazismo. Pelo contrário”, esclarece.

O professor Aninho Irachande, do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, defende o acesso de estudantes à informação e a livros de qualquer natureza. Ele ressalta, porém, a necessidade de que um conteúdo como esse seja trabalhado com responsabilidade e postura crítica pelos profissionais de qualquer instituição de ensino. “Todos os alunos têm o direito — e nós, como professores, temos o dever de permitir — de ter conhecimento sobre todas as ideologias que a humanidade construiu ao longo tempo. Não é prudente cercear isso sob pena de limitar o conhecimento sobre o que elas causaram”, explica.
 
Belaciano: ''Nos preocupa analisar exatamente a fonte desse livro, como ele foi parar numa biblioteca pública''(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
Belaciano: ''Nos preocupa analisar exatamente a fonte desse livro, como ele foi parar numa biblioteca pública'' (foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
 

Preocupação

Irachande ressalta que o receio com o tema extrapola a foto publicada pelo Correio. “Há uma preocupação muito grande com qualquer tipo de aproximação e de manifestação que possa remeter a essa ideologia, que sempre foi condenável, e a tudo que ela envolveu. Nesse sentido, há uma preocupação de que, eventualmente, a exibição desses símbolos não seja tão casual assim”, argumenta.

Na visão do professor, houve no Brasil uma relativização do que representou a ideologia nazista e dos males causados por ela. “Por isso, qualquer descuido ou qualquer manifestação proposital nos remete a um estado de alerta e a uma preocupação muito grande, já que estamos numa sociedade em que parece termos perdido um pouco o senso crítico do que representou o nazismo e o Hitler”, avalia.

Precisar o crescimento, como sugere o professor, e a quantidade de simpatizantes de Hitler e da ideologia nazista no Brasil é tarefa complexa. Não existem números oficiais, e os únicos dados disponíveis são levantados por pesquisadores que se aprofundaram no tema nos últimos anos. Levantamento de 2013 da antropóloga da Universidade de Campinas Adriana Dias, porém, apontava que o Brasil tinha cerca de 150 mil simpatizantes do neonazismo, muitos monitorados pelos serviços de inteligência brasileiros.

À época, a pesquisadora destacou os estados em que havia maior número de ocorrências. O DF ocupava a quinta posição na lista, com 8 mil pessoas identificadas com ideias desse tipo. Santa Catarina (45 mil), Rio Grande do Sul (42 mil), São Paulo (29 mil) e Paraná (18 mil) eram os quatro estados com números mais preocupantes do que a capital federal.

Entrevista Mourad Ibrahim Belaciano e Humberto Baruch

Integrantes da Confederação Israelita do Brasil (Conib) e da Associação Cultural Israelita de Brasília (Acib) cobram do governo local e da polícia explicações sobre o episódio do livro escrito por Hitler que estava em um colégio da rede pública da cidade. Confira:

Qual foi a reação dos senhores ao tomarem conhecimento da existência de um livro como este em uma escola pública do DF?

Mourad Ibrahim Belaciano — Tentamos avaliar a extensão do dano. Um assunto desse demonstra que pode estar acontecendo algum fenômeno de crescimento do ódio dentro das escolas. Nos preocupa analisar exatamente a fonte desse livro, como ele foi parar numa biblioteca pública, e agir junto às autoridades governamentais. Nos dirigimos ao governador pedindo para ele tomar providências e vamos entrar em contato com autoridades policiais, para pedir que se faça uma investigação sobre a origem deste livro. Porque não é um livro qualquer. Não só incita o ódio, como é o livro corresponsável pela estruturação do nazifascismo na década de 1930 em vários países europeus, até hoje é divulgado em alguns países. E é um livro, nós sabemos, que em cima dessas ideias ali contidas foi estruturado um partido, com políticas nazistas e com os efeitos que isso deu para o mundo. A Segunda Guerra Mundial custou 55 milhões de vidas. Não é uma coisa pequena. E o Brasil tem que se resguardar desse tipo de literatura, especialmente resguardar a sua juventude, as suas crianças.

Humberto Baruch — E, para complementar, a preocupação com as ideias que estão neste livro não é só dos judeus. É dos homossexuais, negros, ciganos, comunistas, deficientes físicos e mentais, os testemunhas de jeová, que também foram mortos. Todas as minorias estão afetadas. Tivemos um evento em 2013, em memória às vítimas do Holocausto. Nós trouxemos aqui a Brasília e falamos sobre os negros mortos no Holocausto e que ele continuava com a queima de templos religiosos das religiões afro e, inclusive, trouxemos uma menina negra, do Rio de Janeiro que, por usar a vestimenta de sua religião, foi discriminada na escola.

Além de acionar o GDF e pedir que a polícia investigue, há algum outro segmento que vocês pretendem mobilizar?

Belaciano — Inicialmente, vamos procurar deputados distritais que possam ter interesse em elaborar uma lei que torne mais restritiva a circulação desse tipo de material, como o estado do Rio de Janeiro já tem. E depois podemos pensar em âmbito nacional também, por meio da Conib (Confederação Israelita do Brasil).

Os senhores consideram que uma publicação como esta poderia ser usada de alguma forma nas instituições, com um estudo dirigido e crítico, ou é um livro que nem assim seria benéfico pelo que ele propaga?

Belaciano — Achamos que essa publicação tem que ser restrita aos investigadores, aos pesquisadores, historiadores, ao pessoal da ciência social, política, antropologia e não ser de divulgação ampla, tão maléfico ele se tornou. Porque na circulação ampla você perde o controle. Essa é a questão.

Agora, como fazer isso para um livro que já foi liberado e está à venda, inclusive na Amazon?

Belaciano — É difícil. Não sei como resolver uma situação como esta. É novo demais para nós, temos que estudar um pouco mais, inclusive com juristas. Estamos acionando um grupo de juristas.

Os senhores têm notícias de movimentação de grupos nazistas nas cidades? 

Baruch — Nós tivemos, na Rodoviária do Plano Piloto, cartazes neonazistas colados, também em vários pontos da Esplanada e em paradas de ônibus da Asa Norte.

Há no mundo uma glamorização do ódio, o que fazer para combater isso?

Baruch — Conscientizar, principalmente os jovens. Falar sobre o que foi (o nazismo), sobre o que o ódio faz. Sobre as consequências disso. Além da conscientização, tem que ter também algumas medidas legais, para, ocorrendo caso comprovado, ter ação firme da Justiça. Não deixar correr solto. O Estado tem que agir para defender a população, não deixar só a nível individual. Quando o GDF responde que a secretaria não compra aquilo, para mim, eles estão tirando o corpo fora. Tem que ir muito além disso. Não foi você, mas foi na sua escola. Então explique, aja. Isso é gestão.

O que seria uma ação eficaz do governo para este caso?

Baruch — Eles têm que fazer um levantamento sobre quais livros estão nesta biblioteca, como este livro foi parar lá, qual a extensão disso nesta e nas bibliotecas da rede inteira. Ele tem 500 mil alunos. São 670 escolas. É muita coisa. E pode não estar acontecendo só nas escolas públicas. Mas sinaliza, não é? 

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