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Correio Braziliense

Área queimada no DF aumenta 37% em 2019; incêndios também sobem

Com 5.110 chamados atendidos até esta sexta-feira (23/8), 19% a mais do que o anotado nos oito primeiros meses do ano passado, o Corpo de Bombeiros combateu incêndios que consumiram o equivalente a mais de 5 mil campos de futebol na capital


postado em 24/08/2019 07:00 / atualizado em 24/08/2019 01:06

Militares do Corpo de Bombeiros combatem incêndio em reserva ambiental do Paranoá: o fogo atingiu 5.408 hectares de matas no Distrito Federal neste ano(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Militares do Corpo de Bombeiros combatem incêndio em reserva ambiental do Paranoá: o fogo atingiu 5.408 hectares de matas no Distrito Federal neste ano (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Faltando sete dias para terminar agosto, historicamente o mês mais crítico da seca, a área queimada no Distrito Federal em 2019 é 37,92% maior do que a atingida nos oito primeiros meses inteiros de 2018. Até esta sexta-feira (23/8), o fogo consumiu 5.408 hectares neste ano, o equivalente a mais de 5 mil campos de futebol, enquanto, de janeiro a agosto do ano passado, ele queimou 3.921 hectares.

Os números constam no mais recente balanço do Corpo de Bombeiros, que também registrou 19,47% mais ocorrências de incêndios florestais no DF neste ano, em relação aos oito primeiros meses de 2018. De 1º de janeiro até esta sexta-feira (23/8), a corporação recebeu 5.110 chamados, 833 a mais do que de 1º de janeiro a 31 de agosto de 2018, quando houve 4.277 atuações.

Apenas nesta semana, uma parte do Parque Burle Marx, entre a Asa Norte e o Setor Noroeste, queimou três vezes. Moradora de um dos prédios mais próximo aos focos dos últimos incêndios, a musicista Cláudia Feitoza, 57 anos, sofre com os efeitos da fumaça e da fuligem. “Minhas vias aéreas estão extremamente atacadas. A fumaça é muito forte e densa, o cheiro impregna na casa, nas roupas, na garganta. Até o gosto fica na boca”, reclamou.

As netas delas, de 1 e 3 anos, que normalmente passam a tarde na casa de Cláudia, são as que mais sofrem com as queimadas no cerrado vizinho. “Tive de pedir para que elas não passassem essa semana comigo, porque a situação está insalubre”, contou Cláudia. “É muito triste presenciar nossa natureza em chamas. As árvores estalam quando atingidas pelo fogo. É um barulho que dói na alma”, lamentou.

Prevenção

Além do Parque Burle Marx, as áreas que mais preocupam o Corpo de Bombeiros são a Floresta Nacional de Brasília (Flona), a reserva ecológica do Jardim Botânico, o Parque Nacional de Brasília e a Área Alfa da Marinha, na região da Área de Preservação Ambiental (APA) Gama-Cabeça de Veado. No atual clima, jogar bitucas de cigarro e acender fogueiras em locais inapropriados e queimar lixo pode causar grandes incêndios, de acordo com a corporação. Na área rural, a queimada para replantação também é uma das principais de alastramento das chamas.

Coordenadora do Plano de Prevenção e Combate a Incêndio Florestal da Secretaria de Meio Ambiente, Carolina Schubart demonstra preocupação com a quantidade de hectares queimados nesses primeiros oito meses do ano. “Em 2018, foi um período atípico, porque choveu bastante e aguardávamos agosto e setembro de 2019 serem os piores meses em relação à queimada, mas não era esperado esse aumento todo. Por essa razão, estamos atuando em ações de prevenção”, destacou.

A Flona recebeu um reservatório de água com capacidade para armazenar 80 mil litros. A caixa d’água vai possibilitar abastecer com mais rapidez os aviões do Corpo de Bombeiros para combate de incêndios florestais. Até o fim do mês, será instalada mais uma, na Área Alfa da Marinha.

Carolina ponderou, no entanto, que as ocorrências não ultrapassaram o quantitativo de 2016 e 2017, considerados piores anos de incêndios florestais no DF. Mas há uma preocupação no combate intensivo ao fogo até o fim da seca. “Vamos contratar voluntariamente 100 brigadistas florestais no início de setembro. Eles serão distribuídos em unidades de conservação e parques de competência do Ibram para auxiliar no combate direto. Será uma força a mais nesse momento crítico”, afirmou a bióloga.

Aulas suspensas

Um incêndio na mata de uma subestação de tratamento de esgoto da Caesb, em Planaltina, deixou 629 crianças sem aula, segunda e terça-feira. Muitos estudantes da Escola Classe 7 e da Creche Jatobá, vizinhas à subestação, passaram mal com a fumaça e as cinzas.

Para saber mais

Para atender com mais agilidade aos chamados de incêndio florestal, o Corpo de Bombeiros montou uma base de operações avançadas na Flona, mesmo local que recebeu uma caixa d’água com capacidade para 80 mil litros.

O objetivo é prestar apoio às aeronaves que atuam no combate ao fogo em vegetação. A nova estrutura consiste em um aeródromo para reabastecimento de água dos aviões (foto) e abrigo para os militares.

Cada aeronave chega a transportar 3 mil litros de água e faz o lançamento em incêndios em frações ou de uma única vez, de acordo com os critérios técnicos analisados pelo piloto e pela equipe de combate às chamas que estão em solo.

Além do reservatório da Flona, outras duas caixas d’água foram instaladas: uma de 40 mil litros, na APA Gama-Cabeça de Veado, e a outra, com a mesma capacidade, na Estação Ecológica do Jardim Botânico/IBGE

Palavra de especialista

Doutor Sérgio Prado (médico pneumologista)

A fumaça, de maneira geral, principalmente a derivada da queima de madeira e pastos, lança no ambiente substâncias tóxicas que provocam uma irritação das vias aéreas. Como são irritativas, provocam inflamação, tosse, falta de ar, chiado no peito. Esse somatório aumenta o risco de desenvolvimento de doenças respiratórias como sinusite, bronquite, rinite, enfisema pulmonar e até pneumonia.

Para quem já possui enfermidades pregressas como asma e doença pulmonar obstrutiva crônica, a fumaça é um veneno e chega a provocar 40% de exacerbação, fazendo-se necessário o uso das bombinhas, nebulizações. As idades extremas, ou seja, crianças até 5 anos e idosos acima dos 65, também são mais diretamente afetados, já que possuem imunidade mais baixa e, por isso, são mais suscetíveis a desenvolver doenças ou piorar as mazelas-base.

A dica é se hidratar e se alimentar bem, deixar os ambientes o mais higiênico possível, sem varrer a área, mas passando panos úmidos. É interessante usar umidificadores durante três ou quatro horas ou colocar uma toalha molhada sobre a cabeceira da cama. Além disso, não é recomendável ficar exposto ao ar livre e, principalmente, fazer atividades físicas entre 10h e 17h. Estar com a vacinação em dia também é imprescindível para evitar contrair vírus, mais facilmente proliferados nesta época do ano.

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