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Correio Braziliense

Apreensão de ecstasy aumenta 320% em seis meses no DF

O percentual é relativo ao primeiro semestre de 2019. A polícia confiscou mais de 600 comprimidos por mês. Em geral, a substância é usada em festas frequentadas por jovens de classes média e alta. Droga passou a ser fabricada no Brasil há cinco anos


postado em 25/08/2019 06:00 / atualizado em 24/08/2019 22:11

Substâncias encontradas pela PCDF em fábrica improvisada(foto: PCDF/Divulgação)
Substâncias encontradas pela PCDF em fábrica improvisada (foto: PCDF/Divulgação)

A apreensão de ecstasy no Distrito Federal aumentou quase 320% nos seis primeiros meses de 2019 em comparação com o mesmo período do ano passado. Investigações da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) concluíram que, nos últimos cinco anos, variações do narcótico passaram a ser produzidas no Brasil — antes, a substância psicotrópica era apenas trazida da Europa. Apuração da PCDF mostra que, para evitar o enquadramento por tráfico de drogas, criminosos vêm mudando os princípios ativos dos entorpecentes para substâncias não listadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Por mês, foram apreendidos mais de 600 comprimidos, totalizando quase 4 mil pílulas no primeiro semestre do ano, contra 906 na mesma temporada de 2018. O aumento da produção do narcótico e o trabalho das forças de segurança resultaram no salto das apreensões. O principal nicho de venda são festas de todos os estilos na capital federal. Conforme avaliação da PCDF, criminosos têm escolhido comercializar a droga pela facilidade do transporte da carga, assim como pela alta rentabilidade financeira.

De acordo com o delegado-chefe da Coordenação de Repressão às Drogas (Cord), Rogério Rezende, a coordenação mantém intenso trabalho de monitoramento do tráfico nas redes sociais, onde há “comércio indiscriminado” de ecstasy. “Como nos últimos anos houve crescimento considerável no consumo e no comércio dessas drogas, é natural que voltemos a nossa atenção para a repressão a esse crime. Realizamos monitoramento contínuo e, em certas investigações, também há policiais em eventos”, explica.

Na primeira metade do ano, a Polícia Civil coordenou cerca de 10 operações contra a venda de drogas sintéticas no DF, conforme apurado pelo Correio. Um levantamento mais recente da corporação revela que, de janeiro até 12 de agosto, foram encontrados 453 comprimidos de ecstasy com traficantes. Em investigações deflagradas pela Cord em 2019, foram fechados cinco laboratórios caseiros do sintético: um em Ceilândia; dois no Entorno, em Valparaíso e em Abadiânia; e outros dois em Palhoça e em Joinville, em Santa Catarina. 

As descobertas dos laboratórios caseiros pelo país indicam aumento da produção da droga. “Os criminosos trocam o lugar das produções de sintéticos constantemente, com o objetivo de dificultar o trabalho da Polícia”, diz Rezende. “Pode-se fazer o narcótico em um quarto simples, não é algo que toma um grande espaço”, expõe. “O que percebemos com as apreensões nessas pequenas fábricas caseiras são grandes quantidades de insumos. Parte deles não são de psicoativos comuns de acordo com análises periciais”, conta o diretor da Cord.

Risco de overdose

Segundo Andrea Gallassi, professora da Faculdade de Ceilândia da Universidade de Brasília (UnB) e Coordenadora geral do Centro de Referência Sobre Drogas e Vulnerabilidade Associadas, o principal público de sintéticas são jovens de alto poder aquisitivo. “Esses entorpecentes estão presentes em festas, como as de música eletrônica. Os efeitos combinam com esse tipo de ambiente. As pessoas adquirem o comprimido ou selo no local, sem saber o que realmente estão comprando e, assim, expõe-se a um risco”, observa. 

(foto: Minervino Junior/CB/D.A. Press)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A. Press)
“Há quem utilize as anfetaminas com o MDMA, por exemplo. Mas, dependendo da quantidade adicionada, há complicações sérias, até parada cardíaca”, frisa. O delegado Rogério Rezende explica que, segundo depoimento de suspeitos presos e interrogados pela Cord, não é feito qualquer controle da quantidade das drogas colocadas nos comprimidos de ecstasy. “Não há padronização. Portanto há comprimidos que podem ter uma dose fatal de psicoativos”, destaca. 

“Vale salientar as mudanças nos princípios ativos. Há uma investigação em curso na qual o acusado conseguiu sintetizar uma substância utilizada na fabricação de shampoo, que está à venda sem restrições da Anvisa, que foi usada para imitar o efeito do MDMA. Os impactos são imprevisíveis”, observa. Em setembro passado, peritos da Polícia Civil identificaram que a morte da estudante de enfermagem de 19 anos Ana Carolina Lessa ocorreu em decorrência da substância N-Etilpentilona. A jovem tomou a droga durante festa rave no Recanto das Emas. Conforme o Relatório de Atividades da Anvisa, o psicotrópico foi o mais detectado nos entorpecentes encontrados no Brasil em 2017. 

O que diz a lei

Nas disposições finais da Lei de Tráfico de Drogas (Lei nº 11.343), no artigo 1, denominam-se drogas as substâncias entorpecentes, psicotrópicas, precursoras e outras sob controle especial, da Portaria nº 344, da Anvisa. O documento da agência determina o controle especial de substâncias e medicamentos.

Memória

(foto: Sarah Peres/Esp. CB//D.A Press)
(foto: Sarah Peres/Esp. CB//D.A Press)
Relembre apreensões nos últimos meses

2018

>> 26 dezembro
Policiais da Cord prenderam um jovem que mantinha uma fábrica de ecstasy capaz de produzir 1 mil comprimidos da droga por hora, em Joinville (SC). O traficante de 29 anos mantinha o laboratório em um sítio alugado, utilizado apenas no momento de produzir o narcótico, que era distribuído para o DF e estados. A venda ocorria pelo WhatsApp, e o envio era postal. Com o suspeito, agentes apreenderam dois carros de luxo, ketamina (usada como anestésico), remédios abortivos, anabolizantes, mais de 1 mil comprimidos de ecstasy e 1kg de MDMA puro. O material disponível era suficiente para produzir 50 mil comprimidos de ecstasy.

2019
 
>> 1º de março
Ação integrada da Polícia Civil do Distrito Federal terminou com a apreensão de mais de 3 mil comprimidos de ecstasy, 70 selos de LSD, além de 6kg de haxixe e 1kg de skunk (variedade de cannabis). Agentes da Coordenação de Repressão às Drogas também fecharam duas fábricas de produção de sintéticos nos municípios goianos de Valparaíso e Abadiânia, e de uma em Joinville (SC). Cinco traficantes acabaram presos em Santa Catarina. Eles eram responsáveis por repassar os narcóticos para serem comercializados no Distrito Federal. Policiais da 16ª e da 31ª Delegacias de Polícia (Planaltina-DF) detiveram outras quatro pessoas em Planaltina. Três delas integravam uma quadrilha que comandava o tráfico na região administrativa e em Formosa, no Entorno do DF.

>> 27 de maio
Investigação de sete meses acabou com um esquema de abastecimento de drogas sintéticas do DF, realizado por suspeitos de Goiás e Minas Gerais. Para despistar a polícia, o grupo utilizava empresas de fachada para lavarem o dinheiro obtido com a comercialização dos entorpecentes. A Operação Tridente — em referência aos três estados alvos — terminou com um saldo de 17 presos, entre eles, empresários e DJs de música eletrônica de Brasília. A ação foi executada pela Coordenação Especial de Combate à Corrupção, ao Crime Organizado, aos Crimes contra a Administração Pública e aos Crimes contra a Ordem Tributária (Cecor), com apoio da Cord, da Divisão de Operações Especiais (DOE), além de policiais das delegacias de Sobradinho (13ª DP), do Paranoá (6ª DP), além de agentes de Goiás e Minas Gerais.

>> 22 de julho
Agentes da Cecor prenderam um homem de 29 anos que se inspirava em Pablo Escobar — narcotraficante colombiano que conquistou fama mundial e se tornou um dos homens mais ricos do mundo. O acusado foi indicado como integrante de uma quadrilha de Santa Catarina que confeccionava ecstasy e enviava para São Paulo e Bahia. Desses estados, a droga era mandada para traficantes de outros locais, incluindo do Distrito Federal. Policiais fecharam uma fábrica em Palhoça (SC), onde foram encontrados outros três criminosos, que produziam o narcótico. A ação acabou com a apreensão de 2 mil comprimidos de ecstasy e 5kg de MDMA (princípio ativo do sintético), e um livro de contabilidade indicando a produção mensal de 200 pílulas.

>> 5 de agosto
Quatro pessoas foram presas em flagrante por tráfico interestadual de drogas em um hotel do Plano Piloto, após dois meses de investigação de agentes da 2ª Delegacia de Polícia (Asa Norte). Um dos suspeitos tinha um mandado de prisão em aberto pelo mesmo crime, mas pela Justiça de São Paulo. Policiais apreenderam 886 comprimidos de ecstasy, 17 porções de cocaína, anabolizantes e mais de R$ 7 mil. Os três homens e a mulher tinham vindo do Rio de Janeiro para vender os narcóticos em uma festa de Brasília.

>> 8 de agosto
A Polícia Civil cumpriu 20 mandados de busca e apreensão e oito de prisões temporárias contra um grupo suspeito de traficar entorpecentes sintéticos no Distrito Federal. A operação foi nas Asas Sul e Norte e em Guará, Jardim Botânico, Sobradinho 1 e 2, Águas Claras e Formosa (GO). Os policiais encontraram substâncias, como LSD, maconha gourmet, ecstasy, cocaína, skank e anabolizantes. Além disso apreenderam mais de R$ 100 mil e celulares. Entre os investigados estão servidores públicos do Tribunal de Justiça, advogados, empresários e nutricionistas, membros de uma associação criminosa que distribuía drogas sintéticas em festas de luxo do DF e de Goiânia.

>> 24 de agosto
Um homem saiu de Brasília com 500 comprimidos de ecstasy e foi preso pela Polícia Civil do Ceará ao desembarcar de um ônibus, na rodoviária de Juazeiro do Norte (CE). Ele foi preso em flagrante após uma denúncia. O homem, de 26 anos, é natural do Rio de Janeiro e não tinha antecedentes criminais.

Três perguntas para / Cejana Passos

Gerente geral substituta de monitoramento e integrante do Grupo de Trabalho para Classificação de Substâncias Controladas da Anvisa

O que os estudos indicam sobre as Novas Substâncias Psicoativas?
O surgimento de novas substâncias substitutivas das drogas sintéticas são analisadas no Brasil e em mais de 110 países e territórios ao redor do mundo. Desde 2015, passamos a examinar o fenômeno aqui e percebemos que há grande variação das substâncias usadas pelos produtores de narcóticos, como é premissa mundial. Conforme as alterações são catalogadas e classificadas, há novas mudanças. Então, é um trabalho constante para identificar cada variedade a partir das drogas que são apreendidas pelas Polícias Federal e Civil.

Como são feitas as modificações?
Cada substância tem a estrutura base dela. O que os traficantes fazem são pequenas variações nos compostos químicos, que não são classificados como substâncias controladas pela Anvisa. Podemos tomar como exemplo uma massa de bolo, que tem como base farinha, leite e ovos. Digamos que é proibido o bolo de baunilha e, para fugir da legislação, o produtor altera o sabor para chocolate. Assim, ele foge da proibição e, desse modo, do enquadramento daquela substância como uma droga ilícita. Por isso, atualmente, fazemos a classificação nominal. Ou seja, descrevemos por completo a estrutura identificada até a base final. Assim, se for usada aquela substância, independentemente da variação, ela se enquadra na estrutura básica já classificada.

Como a classificação auxilia no combate das novas substâncias?
Quando a substância é incluída na portaria, a Anvisa passa a controlar a utilização em cadeia. Muitas dessas estruturas são utilizadas na produção farmacêutica. Todo o processo, desde importação ou exportação da substância, até a última fase, que é o cliente adquirindo o remédio, é controlado pela agência. Por exemplo, as indústrias precisam de licenças para atuação, assim como as distribuidoras de medicação. Por último, o paciente deixa a receita na farmácia. Tudo isso é incluído em um sistema para que qualquer movimentação fora disso seja investigada.

Conheça algumas das principais substâncias sintéticas

• Piperazinas: são estimulantes do sistema nervoso central, mas desenvolvidas inicialmente com objetivo terapêutico, no entanto, nunca estiveram disponíveis no mercado. Essa substância é frequentemente vendida como MDMA — base para a produção de ecstasy. Em geral, é traficada em forma de comprimidos, cápsulas, pó ou líquida.

• Feniletilaminas: a maior parte age tanto como estimulante do sistema nervoso central quanto como alucinógeno. A ação é produzida pela mediação de receptores de serotonina, imitando os efeitos de drogas tradicionais como LSD, DMT, cocaína, anfetamina, metanfetamina e MDMA.

• Triptaminas: agem predominantemente como alucinógenas, usadas para reproduzir efeitos de drogas, como LSD e DMT. São encontradas naturalmente em plantas, fungos e animais ou podem ser sintéticas, como as derivadas do DMT.


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