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Correio Braziliense

Palácio do Buriti completa 50 anos neste domingo

Inaugurado em 1969, complexo abriga o poder Executivo do DF. À época da fundação, famílias aproveitavam o dia sob mangueiras próximas aos espelhos d'água. Hoje, apesar de menos frequentada, a praça ainda é um dos símbolos da beleza brasiliense


postado em 25/08/2019 06:00 / atualizado em 24/08/2019 22:11

(foto: Wallace Martins/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Wallace Martins/Esp. CB/D.A Press)

Um dos conjuntos arquitetônicos mais importantes da capital federal faz aniversário neste domingo. Em 25 de agosto de 1969, inauguraram-se tanto a Praça do Buriti — batizada como Praça da Municipalidade no projeto original de Lucio Costa —, quanto o Palácio do Buriti. Fundados durante o período da ditadura, não por acaso, a abertura oficial do prédio e da área em frente a ele ocorreram no Dia do Soldado. Com o passar dos anos, o complexo virou espaço para o exercício da cidadania: é cenário de atividades que vão desde protestos e reivindicações a palco para anúncios de governantes.

Naquele ano, Brasília ainda guardava traços de uma cidade recém-inaugurada, com áreas ainda cobertas pelo barro. No local que se tornaria a Praça do Buriti, não era diferente. No entanto, o concreto cobriu a terra para criar um espaço com ar interiorano em meio à modernidade da capital federal. As obras seguiram o mesmo ritmo adotado durante a construção de Brasília, e a praça ficou pronta em um mês, tornando-se mais uma peça da alma da cidade.

Localizada entre as duas pistas do Eixo Monumental, o conjunto abriga a sede do Governo do Distrito Federal. Com área de mais de 47 mil metros quadrados, dois espelhos d’água com capacidade para 2 milhões de litros, 12 bancos de concreto, mais de 100 mangueiras e 14 mil metros quadrados de área para jardins, a Praça do Buriti contava até com parquinhos infantis nas laterais.

Imagem da Praça da Municipalidade, um dia antes de sua inauguração: projeto original assinado por Lucio Costa(foto: Arquivo CB/CB/D.A Press)
Imagem da Praça da Municipalidade, um dia antes de sua inauguração: projeto original assinado por Lucio Costa (foto: Arquivo CB/CB/D.A Press)

Em meio a tudo isso, figurava uma solitária palmeira de buriti. A árvore típica do cerrado parecia fazer alusão a um sentimento que predominava desde então nas ruas de Brasília: a falta de calor humano. A ideia de plantar uma muda de árvore em frente à futura sede do Executivo local foi um pedido do engenheiro Israel Pinheiro, presidente da Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) à época. Ele teria se inspirado no poema Buriti perdido, de Afonso Arinos.

Simplicidade

Na mesma data, e sob a bênção do então arcebispo de Brasília, Dom José Newton de Almeida, abriram-se as portas do palácio que abrigaria a sede do Executivo do Distrito Federal. Projetado pelo arquiteto Nauro Jorge Esteves, o prédio de colunas, pisos e paredes de mármore branco e bege agrega características únicas e se assemelha aos demais palácios de Brasília: um retângulo envidraçado, com laje que se expande além dos limites do edifício.

Uma palmeira foi plantada em frente à sede do Executivo local(foto: Arquivo CB/CB/D.A Press)
Uma palmeira foi plantada em frente à sede do Executivo local (foto: Arquivo CB/CB/D.A Press)

À frente, há uma réplica da escultura da Loba Romana amamentando os irmãos Rômulo e Remo. A obra foi doada pelo governo da Itália, em 21 de abril de 1960, como um presente à inauguração da capital. O aniversário de Roma é comemorado na mesma data.

No gramado, em frente ao prédio, também está a escultura Forma espacial do Plano, de Ênio Liamini, doada pelo então presidente da Argentina, Jorge Rafael Videla. “O prédio tem todos os detalhes do modernismo brasileiro. Mesmo em sua simplicidade, o Palácio é capaz de transparecer a dignidade do poder Executivo”, explica José Carlos Córdova, professor de arquitetura e urbanismo da Universidade de Brasília (UnB).

(foto: Paulo de Araujo/CB/D.A Press - 14/7/98)
(foto: Paulo de Araujo/CB/D.A Press - 14/7/98)

Privilégio

No dia seguinte à inauguração, surgiram os primeiros ambulantes, que lucravam com a venda de itens como amendoins e sorvetes. Também apareceram funcionários da limpeza urbana para organizar o que restou da festa do dia anterior e adubar plantas. Enquanto isso, mães liam livros e acompanhavam os filhos brincando. Perto dali, casais de namorados observavam o próprio reflexo sobre a superfície da água. Ao mesmo tempo, o branco e amarelo das margaridas contrastava com o cinza do concreto. À noite, as fontes luminosas formavam um espetáculo à parte.

A expectativa era de que a praça seria um sucesso. E, por muito tempo, ela foi. A construção que foi resultado do esforço de operários e técnicos de Brasília recebeu muitos pedestres ao longo do tempo. Nem mesmo a morte do buriti algum tempo depois da inauguração impediu que ele continuasse como símbolo desse espaço. A árvore foi substituída e está lá até hoje. No início da década de 1990, um homem tentou derrubar a árvore a machadadas, mas ela resistiu.

Apenas uma mistura de argila com estrume de gado permitiu que a área afetada fosse tapada. Mesmo assim, o dano atingiu dois terços do caule. Uma braçadeira metálica, trocada a cada dois anos, mantém a árvore de pé. Para o professor de arquitetura e paisagismo do Centro Universitário de Brasília (UniCeub) Alexandre Sampaio, a Praça do Buriti mantém uma individualidade: a modernidade. “Ela é a maior representação de uma cidade. Aqui em Brasília, temos o privilégio de ter um patrimônio como o Buriti. É um local de paz, que deveria ser mais frequentado pelos brasilienses”, defende.

Quem acompanhou o período de construção da capital entende a importância arquitetônica do conjunto que compõe a área destinada ao Executivo local. Pioneiro na capital federal, o empresário aposentado Claudionor Pedro dos Santos, 80 anos, chegou a Brasília em 1957. Apesar do tempo, ele não se esqueceu do que viu nascer. “Aquilo era um canteiro de obras. Só tinha poeira e mais nada. Havia uma estrutura razoável, o asfalto do Eixo Monumental dos dois lados (da Praça). O Buriti é um empreendimento histórico, e a estrutura continua intacta desde a edificação inicial”, afirma Claudionor.
 
*Estagiária sob supervisão de Renato Alves 

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