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Correio Braziliense

Homem que matou ex com facada no coração diz que foi ''tomado pelo ódio''

Lilian Cristina, 25 anos, assassinada pelo ex-namorado, é a 20ª vítima de feminicídio do DF em 2019


postado em 13/09/2019 06:00

Lilian Cristina, 25 anos(foto: Facebook/Reprodução)
Lilian Cristina, 25 anos (foto: Facebook/Reprodução)
O machismo e o sentimento de posse sobre a mulher motivaram nesta quinta-feira (12/9) o 20º feminicídio neste ano no Distrito Federal. Jhonnatan Neto, 36 anos, assassinou Lilian Cristina da Silva Nunes, 25, com uma facada no coração por ciúmes. Os dois tiveram um relacionamento conturbado, em que terminaram e reataram duas vezes. Estavam morando no mesmo lote, em uma área no Paranoá, onde ambos trabalhavam com serviços gerais. Porém, desde o começo do mês estavam separados, quando ela decidiu pôr fim de vez no namoro. Na noite de quarta para quinta-feira, a jovem dormiu com o novo namorado e Jhonnatan se irritou. Em depoimento, ele disse que foi ofendido por ela e acabou sendo “tomado pelo ódio”, quando pegou uma faca de cozinha e a matou. Lilian deixa quatro filhos.

“Infelizmente, é mais um caso de feminicídio que chega à nossa delegacia em que um homem, tomado por ciúmes, acaba matando uma mulher covardemente”, lamenta a delegada responsável pelo caso, Jane Klébia, titular da 6ª Delegacia de Polícia (Paranoá). Mas por que o assassinato de mulheres está virando uma rotina na vida dos brasilienses? Para Valeska Zanello, professora do Departamento de Psicologia Clínica da Universidade de Brasília (UnB), o aumento de casos se deve ao comportamento sexista da população brasileira, que ainda não perdeu força. “Na nossa cultura, as mulheres são ensinadas que se deve arrumar um homem e manter a relação, por isso insistem em namoros e casamentos abusivos. No caso deles, a ideia de controle e misoginia são passados”, explica.
 
Jhonnatan Neto, assassino confesso, ficou preso anteriormente durante cerca de sete anos por uma condenação por roubo. Em uma saída temporária da penitenciária, o “saidão”, ele conheceu a vítima e os dois começaram a se relacionar. O namoro terminou pela primeira vez quando ele voltou à prisão, mas, há quatro meses, eles se reencontraram e reataram. No mesmo período, o casal começou a trabalhar junto em uma chácara no Núcleo Rural Boqueirão, do Paranoá. Na última briga, no começo de setembro, ela não aceitou mais o comportamento dele e se separou de vez.

Possessivo

Eles continuaram morando na chácara, mas em casas diferentes, em que prestavam serviços e Jhonnatan passou a fazer ameaças à ex-namorada. “Ele ficava falando para que ela não provocasse ciúmes nele, levando ninguém para casa. Mas ela era livre, não tinha mais um relacionamento e a casa também era dela”, ressaltou a delegada. Lilian tentou seguir sua vida por meio dos estudos. Matriculada na educação de jovens e adultos (EJA) do Centro de Ensino Fundamental I do Paranoá, ela trabalhava o dia inteiro e estudava no período noturno. No colégio, conheceu um jovem de 17 anos que estudava na mesma sala de aula e os dois “começaram a ficar”, segundo o jovem. Na noite anterior ao crime, o rapaz visitou Lilian e dormiu na casa dela.

O dono da chácara, que pediu para não ser identificado, previu a reação de Jhonnatan e solicitou para que um vizinho, que é agente penitenciário, retirasse o jovem do local. Quando o policial chegou, o ex-namorado da mulher estava discutindo com o atual, o ameaçando de morte, dizendo que iria esfaqueá-lo. “O agente não sabia da história dos dois e tentou esclarecer a situação, mas, antes que ele conseguisse, Jhonnatan já estava agredindo a Lilian”, detalhou a delegada. O vizinho deu dois tiros de alerta para o chão, depois tirou a faca da mão dele e socorreu a vítima, a conduzindo para o hospital, enquanto o dono da chácara mantinha o acusado no local para evitar a fuga. O próprio policial voltou e conduziu o assassino à 6ª DP. Momentos depois, ele soube que Lilian não havia resistido aos ferimentos e morreu.

Vida interrompida

“Uma pessoa guerreira, que trabalhava, estudava e era muito inteligente”, assim Maria das Dores, 47, dona da chácara, descreve a vítima do feminicídio. Maria considerava Lilian como uma filha, tanto que cuidava do bebê da mulher, de 1 ano, enquanto ela ia para a escola. “Nos conhecemos há uns três anos, quando ela começou a trabalhar para mim, entregando as marmitas que eu fazia. Desde então, fomos criando um apego muito grande”, conta Maria. Além dos serviços gerais na chácara, Lilian ainda fazia bicos como cabeleireira e manicure. Dos quatro filhos, dois ficavam com a mãe da jovem, um com o pai de uma das crianças e outro com a própria Lilian. Desolada, a avó dos garotos não conseguiu falar sobre o crime. “Ficamos muito chocados com tudo, porque ele fazia o que ela queria, parecia ter amor. Mas lembro que uma vez o Jhonnatan chegou a dizer que ‘em mulher não se bate, só mata’”, relatou Maria.

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