Publicidade

Correio Braziliense

Comunicação com surdos esbarra no desinteresse de instituições

Comunicação com surdos esbarra no desinteresse de instituições e da sociedade civil em aprender a Língua Brasileira de Sinais e na falta de intérpretes


postado em 22/09/2019 08:00 / atualizado em 22/09/2019 16:39

(foto: Rayssa Brito/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Rayssa Brito/Esp. CB/D.A Press)
A rotina do brasiliense é corrida, e, em locais como bancos, escolas e hospitais, o atendimento, muitas vezes, deixa a desejar. Agora, imagine alguém tentando se comunicar num balcão e, do outro lado, a pessoa não entender nada. Essa é a realidade de quem é surdo em Brasília. O Correio presenciou o esforço da fotógrafa Flávia Pompeu, 29 anos, surda profunda de nascença. Ela se comunicou em Língua Brasileira de Sinais (Libras) com um atendente do Hospital Regional da Asa Norte (Hran). Em geral, hospitais reúnem, de acordo com os surdos entrevistados pela reportagem, os funcionários mais despreparados para atendê-los.

“A experiência é frustrante. Se você fosse surdo, entenderia minha situação”, diz Flávia, em sinais, a um servidor. Constrangido, o rapaz, que prefere não se identificar, informa ser raro receber pessoas surdas no hospital. “Aqui não tem intérprete (de Libras). Se ela não soubesse escrever, o caso poderia ser pior”, reconhece.

Em nota ao Correio, a Secretaria de Saúde destacou que “os servidores da pasta estão sendo qualificados neste ano em cursos de interpretação de Libras para atuar nas áreas destacadas na Lei nº 6.300, de maio de 2019 — que exige a disponibilização de profissional apto a se comunicar em Libras nas unidades públicas de saúde do DF. 

O curso é uma parceria com a Escola de Governo (Egov) e o Instituto Federal de Brasília (IFB). A previsão é que, até o fim deste mês, seis turmas, com 30 alunos cada uma, sejam formadas. Além disso, 38 servidores estão sendo treinados no Hospital Regional do Gama (HRG) por voluntários do Núcleo de Educação Permanente em Saúde.

Segundo a fonoaudióloga Fabiane Pagy, professora de Libras da Universidade de Brasília (UnB), o DF não é referencial de inclusão para pessoas surdas e ainda não há um estado brasileiro que seja. “As pessoas não sabem conceituar a inclusão de verdade. Por Brasília ser a capital, tem tentado demonstrar isso de uma maneira um pouco melhor, mas não é do jeito que a gente precisa”, explica. 

Mais acessibilidade

A fonoaudióloga acrescenta que a sociedade pensa na inclusão como algo paliativo e que o surdo não precisa somente do intérprete da língua, e, sim, de uma informação clara. Além da Libras, é preciso tornar a informação acessível, com estratégias visuais segundo a necessidade de cada pessoa surda. “O Rio +20 (Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável) é um exemplo. O evento teve acessibilidade desde o início, tanto que a ONU (Organização das Nações Unidas) adotou o modelo para todos os trabalhos que faz”, exemplifica. 

De acordo com o último levantamento da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan) feito em 2018, existiam 4.069 pessoas surdas na capital. Mas o número é muito maior quando se trata de cidadãos com algum tipo de comprometimento na audição: 92.587.

Rotina difícil

A dificuldade de comunicação é o que mais causa empecilhos no dia a dia dos surdos. Isso acontece devido à ausência de intérpretes que atuem como intermediadores com o mundo ouvinte. “Várias vezes, já aconteceu comigo de ir comprar lanche e ter que mostrar as imagens do cardápio, mas, quando chega o pedido, o prato está errado”, conta a estudante Karen Elysee, 21, que ficou surda com 1 ano e cinco meses de idade, após complicações na artéria do rim direito. Ter intérpretes nos lugares, segundo ela, é uma raridade. “Geralmente, tenho que levar alguém que conhece um pouco de Libras. Mas é muito difícil ter pessoas qualificadas nas empresas. Na maioria das vezes, eu tenho que pagar, e, ainda assim, as pessoas podem não estar disponíveis para fazer a intermediação.”

Remédio inacessível

O despreparo de grande parte da sociedade ouvinte afeta diretamente a vida da estudante Ana Lúcia Alves, 37, que nasceu com surdez profunda. Ela mora sozinha e faz uso de medicamentos para tratar da depressão, mas, mesmo com a receita em mãos, muitas vezes não conseguiu efetivar a compra na farmácia: “Não quiseram me vender o remédio porque era muito forte e queriam uma pessoa que se responsabilizasse por mim, mas eu moro sozinha”, desabafa. Ana Lúcia conta que funcionários costumam se recusar a vender e cobram a presença de um intérprete. “Eu preciso esperar alguém ir comigo nos lugares. Eu me sinto triste por passar por essas situações”, lamenta.

Sonho abandonado

Para a estudante de letras - Libras da UnB Agnes Naomi, 23, que nasceu com surdez moderada e leve em cada um dos ouvidos, também não foi fácil. Ela abandonou o sonho de ser professora de dança devido à carência de profissionais capacitados. “Tive que deixar o curso por faltar intérpretes e porque os materiais não eram adaptados.” A jovem procurou a escola várias vezes, mas nada foi resolvido. “Entrei no Ministério Público, os processei e, assim que saí, eles conseguiram intérpretes na instituição, mas já era tarde.”

Transtorno no dentista

Já pensou fazer um tratamento dentário, não entender o que o dentista diz e precisar retornar para fazer outro tratamento? O estudante Luis Gustavo Almeida, 26, nasceu com surdez profunda e passou por essa situação. O dentista tentou explicar que ele não poderia comer coisas duras, mas o jovem comeu um pedaço de coco e quebrou o dente. Ainda na clínica, Luis pegou um formulário para preencher, porém ficou angustiado, pois não sabia ler. “Eu não conheço o português e achei as perguntas difíceis. Tentei conversar e explicar, mas a comunicação não rendeu.” Ele diz ter ido embora frustrado e com vergonha. “É complicado, porque eu quero atendimento, mas não tem ninguém para ajudar”, conclui.

Presidente da Associação de Pais e Amigos dos Deficientes Auditivos (Apada), Luciana Marques avalia a acessibilidade para surdos como muito falha. “Eles não têm acessibilidade nos locais públicos, nas delegacias, nos hospitais e no sistema judiciário”, lamenta.
 
Segundo a Secretaria de Justiça e Cidadania do DF, o atendimento à comunidade surda se dá por meio da central de intérpretes de libras (CIL). Tal serviço é prestado de acordo com a necessidade do solicitante. A demanda é feita por meio de aplicativo de mensagens, pessoalmente ou por telefone (uma terceira pessoa faz o agendamento).

Mas Luciana Marques reclama que a CIL está praticamente inoperante. “Um local em que seria possível resolver os problemas com a possibilidade de agendar serviços diversos atualmente se encontra precarizado”, critica. A Secretaria de Justiça reconhece que a central precisa de melhorias e que a equipe é reduzida: apenas dois profissionais — uma gerente/intérprete e um assessor técnico/intérprete.

Para a presidente da Apada, o reconhecimento da Libras como língua de comunicação da pessoa surda foi um avanço muito importante e permitiu uma série de outras conquistas. A mais recente foi o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em Libras por vídeo-prova, ou seja, a aplicação da prova em língua de sinais.

Setembro Azul

Pensando nos desafios diários que os surdos enfrentam e enfrentaram ao longo dos anos, 26 de setembro foi instituído como o Dia Nacional do Surdo. O dia foi escolhido em homenagem à primeira escola de Libras no Brasil, a Imperial Instituto de Surdos Mudos, trazida pelo professor francês Eduard Huet. A instituição é hoje o Instituto Nacional de Educação para Surdos, no Rio de Janeiro.

Em 30 de setembro é comemorado o Dia Internacional do Surdo. A data foi escolhida pois, em 1880, ocorreu o Congresso de Milão, que proibiu o uso internacional da Língua de Sinais com a justificativa de que prejudicaria o processo de oralização dos surdos e a clareza dos conceitos.
 
A cor azul faz alusão ao período da Segunda Guerra Mundial, quando os surdos usavam uma faixa dessa cor por serem considerados inferiores. Com o fim da guerra e o entendimento da importância da identidade surda, a atitude de opressão foi ressignificada. Em 1999, foi realizada a Cerimônia da Fita Azul, nos Estados Unidos. Na oportunidade, o doutor surdo 
Patty Ladd usou uma fita azul no braço como a marca do movimento.

Quatro perguntas para

Fabiane Pagy, fonoaudióloga e professora de libras da unb

O que falta para a inclusão dos surdos na sociedade?
Que as pessoas quebrem esse tabu ou mudem a concepção de que o surdo tem uma capacidade menor, ou que, por usar uma língua diferente, a comunicação será difícil. O desenvolvimento intelectual é normal. Não tem motivo para pensar que o surdo é inferior ou faz um trabalho inferior ao de um ouvinte.

Ainda há preconceito?
Ainda tem muito preconceito na sociedade, exatamente pelas pessoas terem a visão de que o surdo não pode fazer uma coisa ou outra. Recebo diversas perguntas do tipo: “o surdo pode dirigir?”, “como ele faz?”. É uma mudança de paradigmas que precisa acontecer.

Como é nos países desenvolvidos?
Sabemos que, em alguns países que têm a política bilíngue, há uma visão bem diferente. Isso acontece, pois as pessoas incluídas desde o nascimento, desde que se descobre, têm acesso à sua língua, a família é orientada.

Por que escolas públicas não ensinam a Libras para todos os alunos?
Isso é uma pergunta que todo mundo se faz; afinal, é uma língua que conta com reconhecimento legislativo, uma grande população que faz uso. Isso é uma luta. As pessoas ainda têm a visão de que é uma língua minoritária, falada por poucas pessoas e que o surdo tem de se adequar à língua majoritária, o português. Enquanto não mudarmos essa visão, não conseguiremos incluir a Libras como disciplina.

Para saber mais
Idioma oficial dos surdos

A Língua Brasileira de Sinais é o idioma oficial dos surdos no Brasil. A convite de dom Pedro II, que tinha um neto surdo e desejava se comunicar com ele, o professor Eduard Huet, do Instituto Nacional de Surdos de Paris, veio ao país para fundar a primeira escola para surdos, a Imperial Instituto de Surdos Mudos. Com o passar dos anos, mais estudos foram feitos na área, e o termo “surdo-mudo” se tornou ultrapassado e incorreto, pois foi comprovado que a mudez é dissociada da surdez. Hoje, a instituição funciona como o Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines) e dedica esforços para produzir pesquisas nas áreas políticas dessa comunidade.

Você sabia?

» Nem todo surdo é mudo, logo o termo “surdo-mudo” está incorreto.
» Libras não é uma linguagem, é uma língua.
» Libras é a Língua Brasileira de Sinais, não é universal, pois cada país tem a sua.
» Nem todo surdo utiliza a Língua de Sinais para se comunicar. Alguns são oralizados.
» A leitura labial exige treinamento e não é natural para a pessoa surda; então, nem todo surdo sabe fazer leitura labial.
» O surdo não está exposto à língua portuguesa; então, mesmo que esteja cercado de falantes do português, ele não a adquire de forma natural.

Fonte:  Fabiane Pagy, professora de libras da Universidade de Brasília e fonoaudióloga

Artigo


A importância da Língua de Sinais Brasileira

De acordo com dados recolhidos do Censo de 2010 do IBGE, no Brasil, 9,7 milhões de pessoas têm deficiência auditiva. Nesse grupo, encontram-se os surdos sinalizados, os surdos bilíngues, os surdos índios, os surdos cegos, os surdos implantados, os surdos oralizados e os surdos bimodais, uma diversidade que convive com os pares não surdos em nossa sociedade.

A Língua Brasileira de Sinais (Libras) é a língua natural dos surdos brasileiros. A Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002, reconheceu e oficializou a Libras, quando, no art. 1º, declara: “É reconhecida como meio legal de comunicação e expressão à Língua Brasileira de Sinais (Libras) e outros recursos de expressão a ela associados.” E, no parágrafo único, dispõe: “Entende-se como Língua Brasileira de Sinais — Libras a forma de comunicação e expressão, em que o sistema linguístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria, constituem um sistema linguístico de transmissão de ideias e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil.”

Três anos depois, o Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005, regulamentou a lei e decretou a inclusão da Libras como disciplina curricular. Assim, a Libras adquire estatuto oficial de primeira língua dos surdos, e a língua portuguesa, na modalidade escrita, de segunda língua. Disso decorre que, do ponto de vista social e linguístico, é preciso respeitar a língua de sinais como a primeira língua (L1) e o português escrito, como segunda língua (L2), porque é por meio dessas duas línguas que os surdos brasileiros desenvolvem o processo de escolarização.

Há pessoas que, até o momento, acreditam que a Libras é uma representação da língua portuguesa por meio de gestos, por causa da modalidade sinalizada. Mas não é verdade; não é uma língua derivada do português, nem é uma língua simplificada, pois contém estruturas, processos e habilidades que não se encontram no português. É uma língua completa que possui gramática própria e única.

A Língua Brasileira de Sinais, também conhecida como Libras, é igualmente denominada Língua de Sinais Brasileira, sendo esta última denominação a que está mais adequada à internacionalização, visto que está no paralelo com línguas de sinais estrangeiras, tais como a língua de sinais francesa, a língua de sinais americana, a língua de sinais japonesa, entre outras.

A Língua de Sinais Brasileira se fixou no Brasil porque destacou a garantia, o reconhecimento e a legitimação dos direitos linguísticos dos surdos, não só pela obediência às leis, mas pela disseminação da língua no território brasileiro. É preciso, então, que as escolas ensinem a Língua de Sinais Brasileira para que surdos e não surdos partilhem suas experiências ao viver conjuntamente. No processo histórico da vida dos surdos, as línguas de sinais foram interditadas, e os surdos impedidos de usá-las; na atualidade, essa língua dá acesso à comunicação plena, uma vez que é um meio de interação linguística, social, cultural e, principalmente, educacional.

Quando surdos e não surdos interagem, dá-se a harmonização entre línguas, visto que as adequações gramaticais e de vocabulário se fazem no contexto da aquisição de linguagens e nas trocas conversacionais. Assim sendo, o ensino escolar de línguas de modalidades diferentes, uma visual (L1) e outra oral com registro pela escrita (L2), exige professores e intérpretes especializados para que a formação intelectual bilíngue se dê de modo profundo. As sociedades brasileiras e estrangeiras precisam conhecer melhor os vários aspectos relacionados às línguas de sinais, tanto a do Brasil quanto as do exterior, para entender claramente que os direitos humanos universais são legítimos para todos e, por esse meio, os surdos poderão caminhar para a internacionalização.

Os primeiros passos já foram dados na UnB, mas é preciso ir adiante. Ao falar da importância da Língua Brasileira de Sinais, não podemos deixar de tornar público que o Dia do Surdo (26 de setembro) que é comemorado em todo o território nacional. Representatividade, conquistas, anseios pela fixação de direitos e formação de cidadãos produtivos devem se dar de forma legal numa sociedade produtiva. Os sujeitos surdos falam com as mãos e é por meio delas que o mundo se apresenta a eles com as possibilidades de uma sociedade justa.

» Daniela Prometi Ribeiro,  doutoranda em linguística e professora surda de Libras da UnB

» Messias Ramos Costa, doutorando em linguística e professor surdo de Libras da UnB

» Enilde Faulstich, doutora em letras/linguística, professora de português como L2 para surdos e professora doutora honoris causa da UnB

*Estagiárias sob supervisão de Marina Mercante.



Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade