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Correio Braziliense

Morto estrangulado, padre Casemiro falou sobre violência em última missa

Fiéis se emocionaram a falar do sacerdote. Pároco foi homenageado com duas missas e sepultado no Campo da Esperança nessa segunda-feira (23/9)


postado em 24/09/2019 06:00 / atualizado em 23/09/2019 22:17

Uma das missas em homenagem a Casemiro reuniu cerca de 1,2 mil pessoas(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
Uma das missas em homenagem a Casemiro reuniu cerca de 1,2 mil pessoas (foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
 
Fiéis se despediram, durante todo o dia de ontem, do padre polonês Kazimierz Wojno, 71 anos, morto estrangulado após um assalto à Paróquia Nossa Senhora da Saúde, na 702 Norte. O assassinato aconteceu na noite de sábado e chocou os brasilienses. O sacerdote foi velado ao longo do dia, em duas missas na igreja e, no fim da tarde, foi enterrado no Cemitério Campo da Esperança.
 
Quem participou das cerimônias pedia segurança e justiça. Frequentadora da paróquia há 12 anos, a psicóloga e catequista Morgana Bornes, 56, ajudava o padre nos eventos e nas obras da igreja e lembrou que em sua última missa o pároco falou sobre a criminalidade. “Na última palavra dele, falou muito sobre violência. E olha como tudo aconteceu”, lamentou. “Ele era uma pessoa maravilhosa, sempre disposto, preocupado. Uma pessoa santa mesmo. Não merecia passar pelo que passou. Hoje, só nos resta rezar e refletir sobre a fragilidade da vida”, completou Morgana. 
 
Irmã de um padre, a aposentada Ana Maria de Matos, 62, temeu pela vida do irmão quando soube do assassinato. Ele atua em uma paróquia assaltada há um mês. “Fiquei com medo, porque parece que os criminosos estão mais de olho nas igrejas. O que aconteceu é um desrespeito com o corpo de Cristo. Uma situação de extrema violência”, disse. Do sacerdote polonês, ela só tem boas lembranças. “Ele celebrava Corpus Christi como ninguém. A presença dele alegrava o ambiente. Era um padre a serviço do mundo”, afirmou Ana Maria.
 
Moradora de Sobradinho, a atendente Soraia Medeiros, 58, saiu mais cedo de casa para acompanhar a missa. Há alguns meses, ela trabalhava na clínica médica onde o padre se consultava, na Asa Norte. Soraia lembra que Casemiro conversava com pacientes e funcionários “sempre com muito carinho”. “Quando soube que ele tinha morrido, pensei logo que era um infarto, morte natural mesmo. Fiquei chocada quando soube do crime. Agiram com muita violência. Logo com ele, um ser humano bom, que transmitia paz e fé só no olhar”, disse.
  
O caseiro da igreja José Gonzaga da Costa, 39, também esteve na paróquia e se aproximou do caixão. Emocionado, ficou por poucos segundos e, em seguida, saiu do templo sem falar com a imprensa. No dia do crime, ele foi encontrado amarrado, mas conseguiu pedir socorro. As investigações para elucidar o crime estão sob o comando do delegado-chefe da 2ª Delegacia de Polícia (Asa Norte), Laércio Rosseto. 
  
O corpo do padre Casemiro, como era conhecido, chegou à paróquia pouco antes das 8h. Frequentadores e amigos do sacerdote estavam à espera para participar da primeira missa, às 10h. A todo momento, chegavam mais pessoas, que se aproximavam do caixão para dar adeus ao pároco.
 
Ver galeria . 26 Fotos Ana Rayssa/CB/D.A Press
(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press )
 
 
O governador Ibaneis Rocha (MDB) foi à igreja pela manhã para acompanhar a cerimônia. De acordo com ele, a morte do padre foi uma tragédia, não só para a comunidade religiosa, mas para todo o Distrito Federal. O chefe do Executivo local afirmou que o governo tem se esforçado, junto à Polícia Civil, para chegar aos autores do crime. “Infelizmente, a insegurança está muito grande. Conversei com o secretário (de Segurança Pública) para reforçarmos a segurança, não só nas igrejas, mas em todas as áreas do DF”, declarou.
 
Ibaneis ressaltou que o governo adotará medidas para que casos como o do padre Casemiro não voltem a se repetir: “Vamos colocar mais viaturas para acompanhar os horários de entrada e saída das missas. Temos de aumentar o efetivo da polícia no DF. Estou com a academia (de polícia) lotada, com 750 policiais em treinamento. Eles saem para as ruas a partir de janeiro e, depois, colocamos outra turma com mais 750. Quero manter esse ritmo até a gente recompor o efetivo da Polícia Militar e da Civil, também. Só aí as pessoas vão ter uma sensação de segurança maior”, destacou.
 
Após o fim da primeira missa, o ex-governador Rodrigo Rollemberg chegou à paróquia. Emocionado, limitou-se a dizer que o momento é de tristeza. “Uma violência contra uma pessoa que só fez o bem, dedicou a vida a acolher os mais pobres, reduzir o sofrimento das pessoas. Tive um pouco de contato com ele. Uma filha minha casou nesta igreja”, contou.

“Pesar e gratidão imensa”

Durante a tarde, religiosos celebraram outra cerimônia de despedida do padre Kazimierz Wojno. Por volta das 14h, mais de 1,2 mil pessoas se aglomeraram na Paróquia Nossa Senhora da Saúde. A solenidade, presidida pelo arcebispo de Brasília, Dom Sérgio da Rocha, começou com louvores entoados por frequentadores da igreja e durou duas horas e meia. “Estamos reunidos com muito pesar e dor, mas com gratidão imensa ao padre pelo dom da vida que ele ofereceu a Brasília. Trazemos no coração a tristeza e um pedido de misericórdia a Deus por aqueles que praticam a violência e um desejo sincero de justiça e paz”, enfatizou Dom Sérgio da Rocha.
 
Servidora pública, Lijerka Leite, 35 anos, frequenta a Paróquia São Francisco de Assis, na 915 Norte, mas esteve na igreja Nossa Senhora da Saúde para prestar homenagens a Casemiro. “Ele era um verdadeiro pai. Uma vez, passamos a tarde inteira conversando e ele me relatou sua história de vida, de quando veio para o Brasil e as dificuldades que enfrentou no período pós-Segunda Guerra Mundial, na Polônia. Toda a trajetória dele é comovente. O que mais me impressiona é ver a pessoa boa que ele se tornou”, recorda-se Lijerka.
 
À segunda cerimônia, estiveram presentes o representante do papa no Brasil, Dom Giovanni D’Aniello, e seis diplomatas da Embaixada da Polônia. Marta Olkowska, encarregada do setor de finanças da sede de representação do país, lamentou o ocorrido e comentou que a instituição mediou o contato com dois irmãos e um sobrinho de Casemiro, na Polônia. Segundo ela, a família não pôde comparecer ao velório por causa da distância. “Os parentes dele vivem em uma área rural do país, a mais de 14 mil quilômetros (do Brasil). Mas eles nos solicitaram, por e-mail, fotos do funeral como forma de recordação”, afirmou Marta.

O adeus

Orações, canções religiosas e tristeza marcaram o momento do sepultamento do padre Casemiro. Por volta das 17h, mais de 300 pessoas se reuniram no cemitério Campo da Esperança para se despedir do sacerdote. O vigário episcopal do Vicariato Norte Cristiano Sanches dirigiu a cerimônia de despedida e fez menção a todos que sofrem e morrem por causa da violência. Ao final, todos ficaram em silêncio por um minuto, como forma de homenagear Casemiro.
 
Ver galeria . 16 Fotos Carlos Vieira/CB/D.A Press
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press )
 
 
A empresária Thalita Swietochowska, 20 anos, acompanhou todo o velório. Ela e o marido, Jack Swietochowska, 32, conheceram o padre há dois meses para pedir permissão de gravar um curta-metragem dentro da paróquia. “Gravaríamos uma cena dentro da igreja e, quando fomos pedir a ele, fomos bem recepcionados, com simpatia, e ele sempre muito sorridente”, recordou-se. Com a morte do padre, a jovem decidiu elaborar um documentário contando a história de vida de Casemiro.
 
A servidora pública Maria Reis, 52, também lamentou a morte do pároco. Ela conta que era tradição sair do trabalho, na Asa Norte, e ir direto para a paróquia assistir à missa dele. “O padre Casemiro era uma pessoa doce. Ele era um homem de fé e paz. Sempre brincalhão, fazia todos rirem. O que fizeram com ele é inacreditável, ainda mais um homem indefeso e tão bom”, ressaltou.
 
*Estagiária sob supervisão de José Carlos Vieira 

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