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Correio Braziliense

Projeto Absorva Carinho leva produtos de higiene básica a detentas do DF

A ação, idealizado por três jovens brasilienses, leva produtos de higiene básica às detentas da penitenciária feminina do Distrito Federal


postado em 08/10/2019 06:00

Em 2016, a estudante Ana Beatriz Horta e três colegas de ensino médio criaram o projeto a partir de trabalho escolar: três anos de doações(foto: Mariana Machado/CB/D.A Press)
Em 2016, a estudante Ana Beatriz Horta e três colegas de ensino médio criaram o projeto a partir de trabalho escolar: três anos de doações (foto: Mariana Machado/CB/D.A Press)
Usar sabonete perfumado, ter um absorvente à mão quando necessário ou mesmo uma fralda descartável para trocar o bebê é algo básico para a maioria das mulheres, mas, para quem cometeu um crime e paga a pena, nem sempre esses objetos estão disponíveis. Pensando nisso, nasceu o projeto Absorva Carinho, que arrecada doações de itens de higiene para as detentas da Penitenciária Feminina do Distrito Federal, a Comeia.


O que começou como um trabalho escolar de três alunas do 2º ano do ensino médio da Escola das Nações conseguiu, na primeira edição, em 2016, arrecadar 6,7 mil absorventes, como conta uma das idealizadoras, Ana Beatriz Horta, 18 anos. Segundo ela, uma professora pediu aos alunos que pensassem em iniciativas que fizessem o bem para a sociedade. Ela e as amigas, inspiradas pelo livro Presos que Menstruam, da jornalista Nana Queiroz, decidiram focar nas presidiárias.

Após três meses de coleta, o grupo fez a entrega. “Foi chocante. É um lugar em que você entra e sente a energia pesada; é algo precário”, recorda Ana Beatriz, com 15 anos à época. Conversando com presas grávidas, as jovens identificaram a necessidade de outros itens de higiene e deram início à segunda fase. “Elas nos falaram que havia um surto de sarna nas celas; então, começamos a pedir hidratantes que ajudam a combater a doença”, detalha.

No segundo semestre de 2017, as meninas estiveram na capela do presídio. “Elas nos agradeceram muito e disseram que precisavam de produtos para as crianças, já que muitas têm os filhos lá mesmo”, lembra Ana Beatriz. A partir daí, a campanha passou a pedir também fraldas, e a próxima doação está prevista para até dezembro.

A jovem explica que em 2018, como as três amigas estavam se formando no colégio, não foi possível fazer a terceira visita. Agora, a estudante de arquitetura deu início à montagem de kits, que incluem pacotes de absorventes, fraldas descartáveis, sabonete e algum item de enxoval para recém-nascidos, como mantas ou lenços. Ela comemora a aceitação que o trabalho tem tido. “No começo, houve preconceito. Falavam que, já que elas cometeram crimes, não mereciam ser ajudadas. Mas a gente não está aqui para olhar o que a pessoa fez no passado, e sim para estender a mão”, ressalta.

Mudança 

Para as demais idealizadoras do Absorva Carinho, as estudantes Gabriele Lassance, 19, e Victoria Dors, 20, o trabalho promoveu novas reflexões. Gabriele hoje mora em Pelotas (RS), onde estuda química forense. “Mudou totalmente as nossas perspectivas sobre a vida e como tratar os outros”, declara a jovem que, mesmo de longe, não abre mão de ajudar. “Vou continuar fazendo tudo o que a Bia precisar, com o que eu puder fazer sem estar lá, seja com cartazes, seja divulgando, seja idealizando”, garante. Ela e Ana Beatriz programam a terceira entrega para quando as duas estiverem na cidade.

Victoria também não mora mais em Brasília. Ela mudou-se para os Estados Unidos, onde estuda cinema. De lá, monitora o projeto. “É o meu bebê. Tenho um carinho enorme por ele, porque sei que tem um impacto muito forte na Comeia”, conta. “O sonho é expandir e atingir penitenciárias que necessitam desse tipo de ajuda.”

A Secretaria de Segurança Pública informou que 691 mulheres ocupam a penitenciária. Todas recebem semanalmente até 22 itens de higiene, que incluem sabonete, papel higiênico, absorvente, sabão em pó e em pedra, água sanitária, xampu, condicionador, desodorante e creme dental. Segundo a pasta, não há surto de doença infecciosa, como a sarna, atualmente e que casos pontuais são tratados de imediato

Em nota oficial, o órgão destacou, ainda, que os kits fornecidos são suficientes para toda a massa carcerária do DF. “Doações são aceitas para utilização de internas da Penitenciária Feminina do DF, desde que atendam aos padrões de segurança”, informa o texto. Os interessados devem ligar para a direção da unidade prisional no telefone: 3384-5220.

Engajamento

Como precisaram de ajuda para conseguir as doações, elas procuraram Luana Ponto, 33, sócia proprietária da Endossa, que, de pronto, abraçou a causa. “Elas me ligaram e, na hora, achei genial. Está superalinhado ao DNA da marca e falei que seria um prazer”, revela a empresária. Bastou uma caixa e um cartaz na entrada das lojas para atiçar a curiosidade dos clientes e iniciar a arrecadação. “Eles vêm, veem o anúncio e perguntam do que se trata. A gente fica muito feliz. Não digo nem que é ajudar, mas fazer a minha parte enquanto cidadã. Não dá trabalho nenhum, muito pelo contrário: traz muita alegria.”

Onde doar


Quem quiser contribuir com o Absorva Carinho, pode fazer a doação nas lojas Endossa:

Asa Sul
SCLS 306, Bloco A, Loja 30
De segunda a sábado, das 10h às 20h

Asa Norte
SCLN 310, Bloco C, lojas 14 a 20
De segunda a sábado, das 10h às 20h

Águas Claras
Rua 28 Norte, Lote 7, Avenida Castanheiras
De segunda a domingo, das 11h às 23h

Guará
Shopping CasaPark (SGCV Sul, Lote 22)
De segunda a sábado, das 10h às 20h
Domingo, das 14h às 20h

A inspiração

Presos que menstruam — A brutal vida das mulheres tratadas como homens nas prisões brasileiras, livro-reportagem da jornalista Nana Queiroz, trata do cotidiano nos presídios femininos brasileiros. Em um dos capítulos, é descrito como mulheres sem acesso a itens básicos de higiene usam miolo de pão para conter o fluxo menstrual. O livro virou filme, e Nana foi a roteirista. A autora é engajada nas causas femininas e criou a campanha “Eu não mereço ser estuprada”. 

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