Publicidade

Correio Braziliense

Sol Nascente e Arniqueira: novas RAs do DF carecem de investimentos

Moradores das duas mais recentes regiões administrativas do DF aguardam construção das administrações, ainda sem prazo. População reclama que novas RAs precisam de infraestrutura e mais investimentos


postado em 14/10/2019 06:00

Sol Nascente(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Sol Nascente (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
A espera pela inauguração das administrações regionais de Arniqueira e Sol Nascente e Pôr do Sol leva esperança às pessoas que vivem nesses locais. O anseio por políticas públicas imediatas tomou conta dos moradores após o governo do Distrito Federal (GDF) transformar os setores habitacionais em regiões administrativas (RAs). Infraestrutura, saúde e segurança são as principais exigências da comunidade. Muitos acreditam que a des-fragmentação da gestão das cidades pode propiciar cobranças centralizadas e de ágil resposta.

 

Em abril, o Executivo enviou à Câmara Legislativa o projeto de lei para criar a região administrativa do Sol Nascente e Pôr do Sol. Em agosto, 21 distritais assinaram a proposta, e a cidade deixou de fazer parte da jurisdição de Ceilândia. No mesmo mês, os parlamentares deram sinal verde para que a Arniqueira fosse desmembrada de Águas Claras. A medida foi sancionada no início de outubro, e o lugar se tornou a 33ª região administrativa da capital.

 

Arniqueira(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Arniqueira (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
 

 

Apesar da criação das RAs, o governo não apresentou cronograma para inauguração das administrações. Tampouco foram divulgados valores a serem investidos, quantidade de efetivos e custos mensais para manter as entidades. Além disso, não há dados sobre os terrenos onde as estruturas serão erguidas ou de onde virá o orçamento. Na sexta-feira, o Correio entrou em contato com a Subsecretaria de Divulgação do Palácio do Buriti e solicitou essas informações. Entretanto, até o fechamento desta edição, o órgão não emitiu resposta.

Vulnerabilidade

Com 85 mil moradores, a região administrativa Sol Nascente e Pôr do Sol é uma das localidades mais carentes do Distrito Federal. Apesar de a cidade ter ganhado algumas obras de infraestrutura no ano passado, a maioria das ruas não tem asfalto ou tratamento de esgoto. À sombra da violência, os comércios são gradeados, e poucos moradores se arriscam nas ruas durante a noite. Não há transporte público, unidades de saúde e escolas.

 

Muitas pessoas encontraram no Sol Nascente e no Pôr do Sol uma oportunidade para comprar lotes baratos e deixar o aluguel. A cabeleireira Nalva Azevedo, 41 anos, morou em Ceilândia por 20 anos e há 7 comprou um terreno na região administrativa. Ali ela decidiu abrir o próprio salão de beleza, mas ele funciona com as grades fechadas. “Aqui, é perigoso e tem muitos assaltos. Acontece a qualquer hora do dia, pode ser às 12h, às 15h ou à noite, sempre tem relatos sobre isso”, lamenta.

 

No Sol Nascente, Nalva mantém o salão de beleza com as grades fechadas mesmo durante o horário de atendimento (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
No Sol Nascente, Nalva mantém o salão de beleza com as grades fechadas mesmo durante o horário de atendimento (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
 

 

De acordo com a cabeleireira, além da violência, a falta de infraestrutura dificulta a vida dos moradores. “Quando o tempo está seco, vivemos na poeira. Se começa a chover, a lama toma conta. Os garis passam aqui para limpar, porém, a água traz o lixo todo de volta para nossa porta”, conta. Apesar das reclamações, a mulher ressalta que a criação da administração traz expectativa de melhoras para a cidade. “Gostaria de me tornar administradora. Com isso, poderia colocar a mão na massa para resolver os nossos problemas”, frisou.

 

Desempregada, Luziane Pereira da Luz, 32, chegou do Amapá há quatro meses para morar com a mãe na região administrativa do Sol Nascente e Pôr do Sol. “Morava em um bairro parecido com esse, cheio de violência. Acho que toda favela é assim”, comentou. Para ela, a cidade está desorganizada e falta investimento. “Tenho que subir uma ladeira para pegar o ônibus e levar minhas filhas para a escola. Tem lugares que a condução não entra por medo de assalto”, relata. Mesmo nova na cidade, Luziane se animou com a notícia da criação da RA. “A tendência é melhorar. Nós que vivemos aqui temos o papel de cobrar, é a nossa casa.”

 

Gilvan e Marineise perderam duas casas em Arniqueira por falta de regularização(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Gilvan e Marineise perderam duas casas em Arniqueira por falta de regularização (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)

 

Parcelamento irregular

Arniqueira apresenta melhor estrutura que Sol Nascente e Pôr do Sol. As ruas são pavimentadas, e há intensa atividade comercial. A cidade tem 45 mil habitantes, mas muitos ainda precisam contar com serviços públicos disponibilizados em Águas Claras e Taguatinga. Um dos maiores problemas é o parcelamento irregular de terra. Pesquisa da Companhia de Planejamento do DF (Codeplan) mostra que 83% das residências estão em situação irregular.

 

O mecânico Gilvan Pereira da Silva, 60, e a esposa Marineise da Conceição Santos, 52, perderam duas casas por falta de regularização. Agora, o casal vive de aluguel e montou uma loja. “Com a administração regional, espero que as coisas melhorem. Acredito que o governador vá disponibilizar lotes para a gente e acertar a situação das residências sem documentação”, espera Gilvan.

 

Marineise prevê a valorização dos imóveis e do comércio. “Temos muitas áreas baldias, onde as pessoas despejam lixo. Isso precariza nossa cidade”, diz. A mulher ressalta que outra demanda urgente é segurança pública. “Tenho um ateliê de roupas, e ele foi roubado há um mês. Precisamos de uma delegacia próxima, para não precisarmos ir a Taguatinga procurar apoio.”

 

O repositor Francisco das Chagas, 55 anos, mora em Arniqueira há uma década. De acordo com ele, a cidade cresceu muito, e o governo fez certo em torná-la uma região administrativa, entretanto, agora precisará investir. “O trânsito daqui fica completamente congestionado nos horários de pico. Não temos ciclovias, e, a cada ano que passa, mais pessoas vêm morar aqui. Espero que, com a administração, possamos cobrar mais e ter respostas”, afirma.

Prioridades

 

Especialista em administração pública e governo da Universidade de Brasília (UnB), Caio César Medeiros Costa ressalta que a criação das regiões administrativas é importante para aproximar o cidadão do poder público. Essas novas entidades, entretanto, não podem ser apenas figurativas. “A medida permite levar políticas públicas específicas para aquelas cidades. Porém, os administradores não podem se tornar alguém que leva e traz recados. O governo precisa demonstrar prioridades para esses locais e fazer investimentos”, salienta.

 

Para o estudioso, os administradores devem ter um perfil que consiga manter o debate com o governador. “Cada região tem a própria especificidade e, com as administrações, a comunidade ganha voz e se torna presente na alocação de recursos e investimentos do governo”, explica.

Memória

Arniqueira

Em 2002, foi reconhecida como setor habitacional. Inicialmente, era uma região de chácaras que se expandiu. A maior parte dela estava situada em Taguatinga. Mais de 80% das residências da localidade foram construídas de forma irregular. A história da cidade é marcada por operações policiais de combate à grilagem de terras, que perderam força ao longo do tempo.

 

Sol Nascente e Pôr do Sol

Em 1990, a procura por moradia barata fez com que essas invasões se formassem próximo à Ceilândia. Grileiros se aproveitaram da situação, e, aliado à falta de fiscalização, as localidades passaram a ser ocupadas. Em 2008, as ocupações foram reconhecidas como setores habitacionais.

 

 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade