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Correio Braziliense

Motoristas de transporte por aplicativo narram histórias de medo

Além da média de um assalto a cada dois dias e meio, dois condutores morreram assassinados no DF no último fim de semana: vulnerabilidade


postado em 16/10/2019 06:00 / atualizado em 21/10/2019 15:09

Motorista de aplicativo, Cláudio Araújo conta que foi agredido no carnaval(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Motorista de aplicativo, Cláudio Araújo conta que foi agredido no carnaval (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
“Ele sabia dos riscos, mas precisava trabalhar.” O que era preocupação virou o pesadelo de Ana Cléa Ferreira, mãe de Henrique Fabiano Dias, 25 anos, motorista de transporte por aplicativo assassinado no domingo. O medo é o mesmo para outros 50 mil trabalhadores que dependem da atividade no Distrito Federal. Segundo o Sindicato de Motoristas Autônomos (Sindmaap/DF), uma das principais reclamações da categoria é de que as reivindicações dos condutores não chegam às empresas. “Hoje, o motorista sai de casa e não sabe se volta. Mesmo com esses problemas de insegurança, não existe comunicação das corporações com quem presta serviço a elas. Temos muita dificuldade em abrir diálogo com os aplicativos e contar, a partir da nossa experiência, o que pode ser melhorado”, reclama Marcelo Rodrigues Chaves, presidente da entidade.

Como publicado nesta terça-feira (15/10) com exclusividade pelo Correio Braziliense, entre janeiro e junho deste ano, ocorreram 71 roubos com restrição à liberdade tendo como vítimas motoristas de transporte por aplicativo, 57 casos a mais do que o mesmo período do ano passado, de acordo com a Secretaria de Segurança Pública (SSP) — a média de um assalto a cada dois dias e meio. Samambaia, Ceilândia e Taguatinga lideram o ranking das cidades com mais ocorrências. Além de Henrique, o motorista Tiego Cavalcante, 28, foi morto por assaltantes na sexta-feira após aceitar uma corrida até Samambaia.

A motorista Josielly Priscila Ferreira, 24 anos, passou por uma situação assustadora na semana passada. No último sábado, por volta das 4h, ela recebeu uma chamada de um passageiro que faria o trajeto entre Guará e Ceilândia. “Entrou um casal no carro e, a princípio, estava tudo bem. Eles riam e brincavam. Quando chegou à descida da Avenida Elmo Serejo, a mulher apontou o revólver para a minha cabeça”, relatou.

Os bandidos mandaram a condutora entregar todo o dinheiro e sair do carro. “Não reagiria nunca. Naquela hora, pensei que eu morreria. Passa um filme na cabeça da gente”, contou. O casal, então, fugiu com o veículo, e a jovem se dirigiu até a delegacia mais próxima para denunciar o roubo. Quatro horas depois, ela estava no portão de casa, pois também ficou sem a chave da residência, quando percebeu o próprio veículo passando em frente à residência. “Apenas o homem estava no veículo. Na hora, não pensei duas vezes em ir para a frente do carro e tentar recuperá-lo. Tinha uma viatura próxima; então, o bandido saiu correndo”, disse.

Desde que entrou na profissão de motorista, há um ano, Josielly costumava trabalhar de madrugada, mas mudou de horário. “Gostava de dirigir à noite para evitar engarrafamentos, mas, agora, é só de dia. Também evito ir para lugares que considero mais perigosos, como Samambaia, Sol Nascente e Guará”, destacou.

Prejuízo

Daniel Silva, 31, também enfrentou situação semelhante à de Josielly. Enquanto dirigia, três jovens o renderam na QR 204 de Samambaia Norte. O motorista recebeu o chamado de uma corrida para Taguatinga. “Eles entraram no carro anunciando o assalto. Levaram tudo, menos o carro. Eles também chegaram a me espancar. Na hora, só pensei no meu filho, de 11 anos”, detalhou.

Além da insegurança, os motoristas de transporte por aplicativo ficam expostos a agressões e xingamentos. Sem emprego, Cláudio Araújo, 43, cadastrou-se em uma empresa de aplicativo há um ano. Durante o carnaval na Esplanada dos Ministérios, em março, o motorista recebeu um chamado de três mulheres com destino à Asa Norte. “Chovia no dia, e elas estavam molhadas e com cerveja na mão. Na hora, informei-as de que cancelaria a viagem pelo fato de o banco do meu veículo não ser de couro”, contou.

Segundo ele, as jovens se revoltaram e começaram a xingá-lo e a riscar o carro. “Elas arranharam todo o veículo com as latinhas e começaram a jogar vinho e cerveja em mim”, lamentou. O condutor teve prejuízo de R$ 2,7 mil. “O que me revoltou foi que a empresa não me ressarciu em nada. Tive de pagar a pintura e a limpeza”, queixou-se. Desde então, Cláudio toma algumas medidas de prevenção. Evita trabalhar em Ceilândia, no Guará e em Taguatinga e cancela viagens em locais sem iluminação.

Prevenção

Os condutores de aplicativos são alvo fácil para os criminosos, como ressalta o especialista em segurança pública Leonardo Sant’Anna. “A partir do momento em que os condutores passam a aceitar o pagamento em dinheiro, isso aumenta o risco de criminalidade contra ele. Isso porque facilita a ação dos bandidos na hora de assaltar. Essa opção é boa para os proprietários das empresas, mas, nas atuais condições de segurança, é um problema”, alertou.

Usar câmeras no interior do veículo pode ser uma boa medida de segurança, segundo o especialista formado em ciências policiais pela Academia de Polícia Militar do DF. “O custo operacional não é tão caro e é uma forma de prevenção tanto para o condutor quanto para o passageiro a partir do momento em que ambos são monitorados em tempo real”, avaliou. Permitir que motoristas de transporte por aplicativo se neguem a fazer viagens sem que sejam penalizados e aumentar o nível de exigência para quem baixar o app (cópia de documento, por exemplo), também são alternativas citadas por ele.

O pesquisador criminal e especialista em segurança pública e privada Jorge Lordello aponta algumas situações que podem revelar perigo ao motorista de transporte por aplicativo. “Os autores dos crimes, normalmente, são jovens. Muitas vezes, eles fazem o cadastro com dados pessoais falsos. Os bandidos também costumam ter mulheres aliadas para praticar o crime. No caso, elas pedem o carro, e o condutor não desconfia. Depois, o assaltante entra em cena”, disse.

*Estagiária sob supervisão de Guilherme Goulart

Três perguntas para André Luíz Leite, responsável pela Coordenação de Repressão aos Crimes Patrimoniais (Corpatri):

 

Como os criminosos costumam agir para assaltar um motorista de transporte por aplicativo?
Os bandidos, normalmente, se cadastram nas plataformas utilizando dados pessoais falsos. Outra forma que vemos é que eles se aproveitam de indivíduos desconhecidos para pedir o carro e praticar o crime. Por exemplo, na saída de uma festa, costumam pedir o celular emprestado e solicitar o aplicativo dando a opção de pagar em dinheiro.

Como a Polícia Civil trabalha na apuração de crimes desse tipo?
Nós temos uma dificuldade enorme para investigar delitos dessa natureza, especialmente porque há uma demora por parte das empresas de aplicativos em nos responder. A nossa equipe solicita um ofício com dados cadastrais do passageiro, mas eles nos correspondem depois de 40 dias a dois meses. Consequentemente, as provas vão se esvaindo.

Qual orientação de segurança você deixa para os motoristas de aplicativo?
Não há uma fórmula secreta, mas o condutor deve avaliar, por exemplo, horários e locais em que ele fará a corrida.

Presos por roubos a motoristas de app

Dois homens foram presos pela Polícia Civil acusados de roubo com restrição à liberdade da vítima praticado contra um taxista em julho deste ano. Um deles havia cometido outros três roubos contra taxistas e motoristas de aplicativos. As detenções foram realizadas pela Divisão de Repressão a Sequestros (DRS). O caso ocorreu em 1° de julho, quando um jovem de 18 anos, ao lado de outros dois, iniciou uma corrida do ponto de táxi da plataforma superior da Rodoviária do Plano Piloto até a Escola de Administração Fazendária (Esaf), próximo ao Jardim Botânico. No caminho, eles pediram que o condutor fosse para o Condomínio Jardins Mangueiral e, em seguida, anunciaram o assalto com uma arma. O taxista foi obrigado a dirigir por uma estrada de terra e a fornecer a senha do cartão bancário. Ele foi deixado na BR-080, próximo a Brazlândia.

 

Empresas

Correio tentou contato com as duas principais empresas de transporte por aplicativo no Distrito Federal para entrevistas sobre insegurança de motoristas e passageiros. A Uber atendeu as ligações, mas informou que não tem um representante que pudesse dar entrevista à reportagem. Apenas disponibilizou uma nota oficial, publicada na edição desta terça-feira (15/10) do jornal. Não foi possível obter nenhum contato inicial com a 99 Pop. Após a matéria, a assessoria de comunicação enviou uma nota. Confira na íntegra:

 

A 99 tem a segurança como prioridade em sua estratégia, com foco em três pilares: prevenção das ocorrências, proteção a passageiros e motoristas durante a corrida e atendimento humanizado, sempre que necessário. Ou seja, o aplicativo atua pela segurança antes, durante e depois das corridas. Antes das chamadas, os motoristas recebem informações sobre o destino, a nota do passageiro e se ele é frequente, além de o app pedir ao passageiro que inclua CPF ou cartão de crédito antes da primeira corrida.

 

Os condutores podem escolher não receber pagamento em dinheiro e a empresa realiza cursos presenciais com orientações sobre segurança, indicando tipos de corridas suspeitas, zonas de risco e explicando como funciona a central de atendimento. Outros recursos focados em prevenção são o uso de inteligência artificial que pode evitar ocorrências ao vasculhar padrões de comportamento de pessoas mal-intencionadas e bloquear as chamadas de risco, além do mapeamento de zonas perigosas com o envio de notificações ao condutor para que ele possa decidir aceitar ou não a viagem. Esse levantamento utiliza estatísticas internas do app e dados externos das Secretarias de Segurança Pública.


Durante as corridas existem câmeras conectadas à central de segurança do app. A 99 está testando a viabilidade da instalação das câmeras integradas ao botão de emergência e, no momento, o estudo está sendo realizado nas cidades de São Paulo, Porto Alegre, Goiânia, Belo Horizonte, Manaus e Salvador. Esses testes são necessários para comprovar a eficácia do modelo em diferentes locais e com diferentes perfis de motoristas.


Para depois das viagens, a empresa possui uma central telefônica de emergência 24h, 7 dias por semana, pelo 0800-888-8999, que responde prontamente em caso de necessidade de segurança. Os condutores estão protegidos em suas corridas realizadas pela 99. Desde o aceite até a finalização das corridas, eles são cobertos por um seguro contra acidentes pessoais.


Informações adicionais importantes: A 99 diminuiu em 53% o índice de ocorrências, por milhão de corridas, na comparação de agosto de 2019 com o mesmo mês do ano anterior. Essa é uma tendência de longo prazo, pois em 2018 o índice de casos caiu 82% por milhão de corridas de janeiro a dezembro. A 99 investiu em um grande plano de expansão de negócios, aumentando o volume de corridas em 48% em um ano, com a segurança sempre guiando o crescimento no país. 

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