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Correio Braziliense

Jovem morto ao tentar conter assaltante em Águas Claras será enterrado hoje

Estudante Rodrigo Souza Borges, 25 anos, foi assassinado ao tentar conter um criminoso, depois de presenciar um assalto em Águas Claras. Ele trabalhava como entregador de comida por aplicativos para ajudar a sustentar a filha


postado em 19/10/2019 07:00 / atualizado em 19/10/2019 10:44

Tia Carla Figueiredo e avó Waneide Maria Rodrigues com uma camisa do Flamengo, time de coração do rapaz(foto: Alan Rios/Esp. CB/D.A Press)
Tia Carla Figueiredo e avó Waneide Maria Rodrigues com uma camisa do Flamengo, time de coração do rapaz (foto: Alan Rios/Esp. CB/D.A Press)
“Não sei se é culpa do governo, devido ao desemprego, ou da sociedade, que está doente. Mas não dá para aceitar isso. Meu filho morreu por causa de um pouco mais de R$ 100, e eu nunca mais vou ser a mesma pessoa. Está doendo demais e nunca vai passar”, exclamou Waneide Maria de Souza, 46 anos, mãe do jovem assassinado em Águas Claras após tentar conter um assaltante. O filho, Rodrigo Souza Borges, 25, será lembrado por todos como uma pessoa trabalhadora, que sempre se dedicou a ajudar o próximo. Estudante de educação física, ele sonhava em dar aulas para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). A despedida ocorre neste sábado (19/10), às 12h, na Capela 6 do Cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul.


O crime chocou os moradores de Águas Claras na noite da última quinta-feira, quando um homem de 37 anos entrou em uma farmácia na Rua 19 Sul e anunciou o assalto com uma mão embaixo da camisa, simulando estar armado. Quem estava próximo do local tentou segurar o acusado e impedir a fuga, mas acabou sendo atingido por golpes de faca. Rodrigo e um conhecido foram vítimas. O jovem acabou esfaqueado no peito e o amigo no braço. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi acionado e prestou os primeiros socorros aos dois. Aline Felix, 39, é moradora da região e acompanhou tudo. “O Rodrigo repetia que não conseguia respirar, estava sangrando muito e todo mundo pedindo para ele ficar acordado”, disse. O criminoso foi alcançado por outros moradores, que o agrediram, e acabou detido.


A Polícia Militar impediu que o linchamento continuasse e solicitou atendimento do Corpo de Bombeiros para o acusado, que foi levado para o Hospital de Base e, posteriormente, à 21ª Delegacia de Polícia (Taguatinga Sul). As duas vítimas também receberam socorro e foram ao hospital, mas o estado de saúde de Rodrigo já era delicado. Ele morava com a avó em Águas Claras, que ficou sabendo do crime por amigos do neto. “O menino bateu na porta e disse que o Rodrigo tinha sofrido um acidente, mas não contou o que aconteceu de verdade, só chorou. Quando cheguei na emergência do hospital, o médico me disse que ia tentar salvá-lo, mas não deu”, lamentou Maria Vanda, 68 anos. A aposentada cuidava de Rodrigo desde que ele era bebê. “Ele dormia do meu ladinho, falava ‘vozinha, deixa eu deitar com a senhora’. E agora, sem meu neto, o que eu vou fazer? Não vou aceitar isso em nenhum segundo. Não aguento, minha vontade é sumir.”

Trabalho, filha e estudos

Rodrigo começou a trabalhar cedo. Ao sair do ensino médio, ele ingressou no Exército Brasileiro e se esforçou para ser um dos melhores da turma, como lembrou a avó. “Ele ia para a Rodoviária às 5h da manhã para pegar o ônibus e não chegar no quartel atrasado. Tanto que ganhou honra ao mérito como um dos soldados destaque”, disse dona Maria. No currículo, as experiências comprovam o esforço. O jovem chegou a trabalhar como vendedor de uma loja de brinquedos, foi atendente em supermercados e passou por lanchonetes para dar boas condições à família. “Eu não queria que ele trabalhasse como entregador, porque achava muito perigoso. Mas ele sempre se esforçou muito, me dava metade de todo salário para me ajudar e ainda tinha a filha, de dois anos. A única felicidade nossa vai ser ver essa criança e lembrar dele”, pontuou a avó. A bebê mora com a mãe, 17, e tinha um amor muito grande pelo pai, segundo Maria.

Cursando os últimos semestres de educação física, Rodrigo estava ansioso para se formar e poder seguir o sonho de dar aulas para crianças com deficiência intelectual. Para amigos, essa era uma característica marcante do garoto: cuidar de todos. “Ele era um jovem que gostava de viver, sorridente, tranquilo e que se preocupava muito com os outros”, lembrou Dayo Luli, 27. A tia também destacou a alegria dele. “Meu sobrinho deixa uma imagem de uma pessoa feliz que conquistava todo mundo com a bondade e o riso”, disse Carla Figueiredo, 41. Os familiares e amigos agora pedem justiça. O criminoso que vitimou Rodrigo está preso e vai responder pelo homicídio, pela tentativa de homicídio do outro esfaqueado e pelo roubo. “Hoje sou eu que sofro, mas vi sábado passado a mãe do motorista de aplicativo sofrendo. Quero justiça não só para mim, mas para todas as mães que têm essa cicatriz da insegurança, porque está doendo demais e nunca vai passar. Nunca mais minha vida vai ser a mesma coisa”, lamentou Waneide Maria.


Desemprego x homicídio

Um estudo publicado nesta sexta-feira (18/10) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revelou que o aumento de 1% na taxa de desemprego entre homens eleva a taxa de homicídios da população em 1,8%. A pesquisa analisa o grupo masculino por se tratar daquele com maior probabilidade de envolvimento com crimes, segundo diversos estudos. Dos 35,7 mil jovens assassinados no Brasil em 2017, 94,4% eram do sexo masculino. Para o pesquisador Daniel Cerqueira, um dos autores do levantamento, os resultados mostram que condições de acesso ao emprego devem ser levadas em conta nos diagnósticos e nas ações para a prevenção da criminalidade, principalmente para jovens. A pesquisa completa está disponível no site do Ipea.

 

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