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Correio Braziliense

Estudo mostra que desigualdade entre Entorno e DF ainda é grande

Apesar de próximos, o Distrito Federal e as cidades vizinhas diferem em quase todos os aspectos. Enquanto moradores de Brasília têm renda média acima de seis salários mínimos, em 12 localidades goianas, a média é de três salários


postado em 20/10/2019 06:00

A precária infraestrutura é um dos problemas de Águas Lindas, onde 58,6% dos moradores trabalham no Distrito Federal(foto: Minervino Junior/CB/D.A. Press)
A precária infraestrutura é um dos problemas de Águas Lindas, onde 58,6% dos moradores trabalham no Distrito Federal (foto: Minervino Junior/CB/D.A. Press)
A falta de emprego em Valparaíso, cidade goiana a 35km de Brasília, obriga Marilu Soares, 57 anos, a madrugar e enfrentar o trânsito rumo ao Distrito Federal, todos os dias, para trabalhar. De segunda a sábado, ela sai de Céu Azul, bairro da cidade onde mora, e chega ao Guará 1, onde é gerente de uma loja de sapatos. “Gosto de morar lá. É tranquilo, e o custo de vida é mais barato, mas há muito tempo mando currículo para o comércio da cidade e não tem nada”, lamenta. Para alcançar o DF, ela vai de mototáxi até uma parada de ônibus, onde pega carona com um amigo, que também presta serviço no Guará.


Marilu faz parte do mais recente estudo da Companhia de Planejamento do DF (Codeplan) sobre o perfil socioeconômico dos municípios limítrofes ao Distrito Federal. Segundo o levantamento, mais da metade dos moradores de Águas Lindas (58,6%); Novo Gama (56,6%); Valparaíso de Goiás (55,0%); Cidade Ocidental, (52,3%); e Santo Antônio do Descoberto (50,7%) trabalham em alguma região administrativa da capital do país. Os dados integram a Pesquisa Metropolitana por Amostra de Domicílios (PMAD) 2017/2018, que detalha as características gerais de 12 municípios goianos que compõem a área metropolitana de Brasília.

De acordo com o estudo, em todas essas cidades, a renda média está abaixo de três salários mínimos; portanto, a população é classificada como de baixa renda. Enquanto isso, na capital federal, os moradores têm renda média domiciliar de R$ 6.159,40 — em Cocalzinho de Goiás, por exemplo, ela fica em R$ 1.720,85. O economista Ciro Almeida, da G2W Investimentos, explica que, pelo fato de o DF concentrar renda elevada, as pessoas de fora fazem essa migração em busca de oportunidades de emprego.

Ele ressalta ainda que a quantidade de servidores públicos na capital contribui para o aumento da desigualdade. “A elevação salarial desses funcionários causa recessão econômica, que afeta diretamente a classe de baixa renda. Os moradores do Entorno têm de pagar os mesmos impostos que os mais ricos, mas o impacto na renda familiar é maior”, afirma.


De segunda a sábado, Marilu sai cedo de Valparaíso para trabalhar em loja do Guará: dificuldade(foto: Mariana Machado/CB/D.A Press)
De segunda a sábado, Marilu sai cedo de Valparaíso para trabalhar em loja do Guará: dificuldade (foto: Mariana Machado/CB/D.A Press)


Luís Flávio mora em Valparaíso e recorre a um grupo de carona para ir à UnB: horas no trânsito(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Luís Flávio mora em Valparaíso e recorre a um grupo de carona para ir à UnB: horas no trânsito (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)


Com renda de menos de dois salários mínimos por mês, a empregada doméstica Nilva Mara dos Santos, 39, desembolsa R$ 24,50 para ir e voltar do trabalho diariamente. O deslocamento entre Jardim Ingá, distrito do município de Luziânia, a cerca de 46km do centro de Brasília, e Octogonal, ocorre com dois ônibus e uma van. Seis horas são gastas no percurso cumprido pela BR-040 há quase 10 anos. “É muito caro, e os patrões só pagam o valor de uma passagem. O restante vem do próprio bolso”, lamenta.

Além disso, Nilva Mara critica o saneamento e a segurança da cidade. “O Entorno não tem acessibilidade para nada. É muito perigoso. Eu fui assaltada diversas vezes no Jardim Ingá, inclusive à mão armada em uma parada de ônibus”, reclama. “Se eu pudesse, mudaria, com certeza, mas a moradia é o maior problema, porque, no DF, é muito caro.” Além disso, falta oportunidade perto de casa. “Não tem emprego. Lá, só trabalha quem tem a própria empresa. Esses aí ainda conseguem contratar uma ou duas pessoas, mas não compensa, porque não chega a um salário mínimo”, conta.

Sonho

Não é só o emprego que faz os moradores do Entorno recorrerem ao Distrito Federal, como destaca Marília Luiza Peluso, professora de geografia urbana da Universidade de Brasília (UnB). “Os próprios municípios têm dificuldade em ofertar alguns serviços, porque o DF atende a essas pessoas em diversas áreas, como saúde, lazer, e compras. A consequência disso é que boa parte da população mais pobre paga mais caro”, explica.

O analista de sistemas Alexandre Medeiros, 27, cruza a divisa de Goiás na hora de se divertir. Morador de Águas Lindas, a 50km de Brasília, ele se queixa das limitações na cidade dele. “Tem um shopping e o boliche, mas, normalmente, eu prefiro ir a Ceilândia, por exemplo, que é mais perto.” Apesar do sonho de morar em Taguatinga ou em Águas Claras, o maior impeditivo hoje é financeiro. “Tenho de juntar grana. Em termos de custo de vida, morar em Águas Lindas é melhor”, pondera.

Um novo endereço também é a meta do servidor público Luís Flávio Nogueira, 32. Morador de Valparaíso há mais de duas décadas, ele espera se mudar para o DF. “Como moro com meus dois irmãos, dou força para eles e seguro a onda, pagando as contas. Mas a vontade é morar em Brasília. Guará e Grande Colorado também são regiões que eu gosto”, diz. Para isso, Luís Flávio luta para aumentar a renda. “O aluguel de um apartamento de três quartos na Asa Norte, onde eu trabalho, é quase a minha remuneração toda”, lamenta.

Para Luís Flávio, o tempo de deslocamento é a pior parte da vida no Entorno. Para aliviar o estresse da direção, ele participa de um grupo de carona solidária com estudantes e servidores da Universidade de Brasília (UnB), onde trabalha. Mesmo assim, a cada dia, precisa acordar mais cedo. “Já fiquei três horas no engarrafamento. O congestionamento começa às 5h15 e fica absurdo. Em 2015, nesse horário, não tinha trânsito”, compara. “É desencorajador. Vi muitos colegas que deixam os apartamentos daqui para alugar e se mudam para o Plano Piloto para ficar mais perto do trabalho.”

*Estagiária sob a supervisão de Guilherme Goulart


Contraste


Cidade Renda domiciliar média


» Cocalzinho de Goiás  - R$ 1.720,85
» Padre Bernardo - R$ 1.729
» Santo Antônio do Descoberto - R$ 1.842
» Novo Gama - R$ 1.871
» Luziânia - R$ 1.941
» Alexânia - R$ 2.020
» Águas Lindas - R$ 2.034
» Planaltina de Goiás - R$ 2.068
» Cidade Ocidental - R$ 2.315
» Formosa - R$ 2.414
» Cristalina - R$ 2.441
» Valparaíso de Goiás - R$ 2.508

Três perguntas para


Marco Aurélio Costa,
coordenador de Estudos em Desenvolvimento Urbano do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)

Por que ainda enfrentamos o problema da desigualdade 
socioeconômica entre o Entorno e o Distrito Federal?
Brasília é uma metrópole que oferece os melhores empregos e remunerações, diferentemente das regiões do Entorno, onde a maioria das pessoas são de baixa renda e têm menos oportunidades para o mercado de trabalho e para uma educação de qualidade. Então, muitos desses moradores optam po btrabalhar na capital, mas, em consequência disso, gastam mais 
com transporte e alimentação.

Quais medidas podem ser tomadas para diminuir a desigualdade?
Todo o esforço que a sociedade pode fazer para conter esse problema é implementar políticas públicas em vários setores econômicos no próprio Entorno, como ações voltadas para educação e saúde.

A partir do momento em que há um alto fluxo de moradores do 
Entorno se deslocando para o DF, de que forma isso pode impactar a economia?

Na região que tem uma estrutura econômica de comércio mais estabilizada, como Brasília, a tendência é de que as famílias que moram em Goiás comecem a frequentar e a consumir mais na capital. Isso reforça a desigualdade e desestabiliza a economia. 

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