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Correio Braziliense

Número de usuários de crack no DF levanta debate sobre prevenção

Usuários estão espalhados pelas regiões administrativas e no centro de Brasília, situação que levanta discussões sobre a importância da prevenção. Problema gera custos elevados ao Estado, com gastos em hospitais e delegacias, por exemplo


postado em 07/11/2019 06:00

Polícias do DF trabalham em conjunto para evitar crimes, mas baixo potencial das infrações cria ciclo vicioso: autuados voltam às ruas horas depois de serem levados às delegacias(foto: Paula Rafiza/Esp. CB/D.A Press)
Polícias do DF trabalham em conjunto para evitar crimes, mas baixo potencial das infrações cria ciclo vicioso: autuados voltam às ruas horas depois de serem levados às delegacias (foto: Paula Rafiza/Esp. CB/D.A Press)
Brasília convive com um problema social, de saúde e de segurança pública que atinge as regiões administrativas e é facilmente encontrado no centro da capital. De esfera individual e coletiva, o consumo de crack afeta cerca de 1,4 milhão de pessoas entre 12 e 65 anos no Brasil, segundo dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). A droga é conhecida pelo potencial para viciar no primeiro uso, o que gera destruição física e psicológica no dependente e nos familiares. Quem está inserido em sociedades com esse problema também fica sujeito a crimes como assaltos e furtos de pessoas viciadas em busca de mais droga. O Estado, por sua vez, acumula gastos em hospitais e delegacias, por exemplo, por causa da dependência. As soluções parecem distantes, mas a prevenção e o diálogo entre órgãos pode ser um caminho, de acordo com especialistas ouvidos pelo Correio.

Além das dificuldades governamentais, quem vive de perto a destruição provocada pelo crack enfrenta a barreira do preconceito. “Ninguém quer defender a causa dos usuários de droga, eles são tratados como se não fossem seres humanos. Os parlamentares gostam de falar de temas como a educação, as pessoas gostam de ouvir coisas bonitas, e todos acabam deixando uma discussão importante de lado. Eu tive um parente próximo que se viciou em crack, e a família ficou sozinha na luta”, relata Pedro Paulo Silva, 59 anos. O produtor de eventos conhece bem o caos de um lar que abriga alguém com dependência de uma substância tão pesada. “De repente, tive notícia de que um ente querido, jovem e que sempre estudou nos melhores colégios particulares de Brasília estava na rua. Vi quem eu amava largado, fedendo, em um estado que eu nunca pude imaginar”, lamenta.
 
Em praças, becos e vielas da capital federal, viciados têm a vida deteriorada e colocam em risco quem passa pelos locais. Droga é conhecida pelo potencial para criar dependência no primeiro uso(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Em praças, becos e vielas da capital federal, viciados têm a vida deteriorada e colocam em risco quem passa pelos locais. Droga é conhecida pelo potencial para criar dependência no primeiro uso (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
 

A família de Pedro viveu problemas diversos por conta desses vícios, algo semelhante ao cenário mais amplo, do combate à droga no DF. “Da mesma forma que o Estado passa a ter dificuldade de lidar com isso nas áreas de saúde, segurança e assistência social, por exemplo, quem acompanha um viciado tem problemas psicológicos, físicos e em tudo o você que pode imaginar. Mãe, pai, avós, tios e até cachorros adoecem juntos, porque isso é devastador, a pessoa entrega a alma pelo crack.” Hoje, Pedro comemora 11 anos de sobriedade do parente e organiza um evento de conscientização sobre o uso dessa droga na capital, mas não deixa de ressaltar que essa conquista é bem mais difícil para uma família com dificuldades financeiras. “Acompanho essa causa há mais de uma década e sei que o atendimento público quase não existe”, opina.

Saúde

Uma das pastas do Governo do Distrito Federal (GDF) que mais sentem os efeitos negativos do grande número de usuários de crack em Brasília é a Secretaria de Saúde. Além dos atendimentos em hospitais, unidades de pronto-atendimento (UPAs) e unidades básicas de saúde (UBS) em decorrência de doenças físicas causadas pela droga, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e o Corpo de Bombeiros fazem trabalhos diários com vítimas que se envolvem em acidentes e brigas durante surtos, por exemplo.

“Os transtornos mentais e o uso de drogas como um todo têm aumentado de forma muito vasta em todas as grandes capitais, mas estamos correndo contra o tempo para atender a nossa grande demanda. A Saúde faz um trabalho com as Secretarias de Segurança Pública e de Desenvolvimento Social, por exemplo, em que atuamos para reduzir o consumo das drogas em geral”, informa Elaine Bida, diretora do Serviço de Saúde Mental, responsável por casos de dependência química.

Ela considera que o melhor tratamento é multidisciplinar e que isso é feito nos centros de atenção psicossocial (CAPs). “Hoje, quem enfrenta um vício pode recorrer aos CAPs, onde será avaliado por uma equipe com médicos, psicólogos e assistentes. Mas também nos esforçamos na prevenção, com palestras e atividades de conscientização nas escolas, por exemplo”. A possibilidade de internações compulsórias — em que o tratamento é feito sem a necessidade de autorização do paciente ou da família — sempre vem à tona nas discussões. Para Newton Cézar Teixeira, titular da 5ª Promotoria de Justiça de Entorpecentes do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), esse cenário é controverso.

“A probabilidade de êxito está vinculada ao interesse do viciado em buscar o tratamento, então é complexo, o sucesso na reabilitação passa pela conscientização. Se fosse simples de resolver, a gente já tinha resolvido. Mas os melhores caminhos passam por educação, socialização, oportunização de trabalhos e estudos”, pontua. Newton lembra, ainda, que a segurança pública fica em risco com o aumento de usuários de crack. “O efeito da pedra é praticamente imediato, só que dura pouco tempo e surge necessidade de mais, então hoje em dia é quase uma epidemia. Por isso, uma pessoa com vício pratica vários delitos, como furto ou roubo. A pessoa tem a necessidade de ter a droga e faz qualquer coisa por isso. Se tiver que cometer um crime, ela comete.”

Segurança

As polícias do DF admitem dificuldade de lidar com usuários de crack, pois, quando eles passam a cometer crimes, geralmente as infrações são de menor potencial e acabam gerando um ciclo. Eles são levados às delegacias, assinam um termo circunstanciado de ocorrência (TCO) e voltam às ruas. “A posse de crack para uso ou as ameaças, que acontecem com mais frequência, não rendem prisão, a menos que o cidadão esteja traficando. Também temos o problema relacionado à droga ser pequena, o que facilita que a pessoa a dispense rapidamente ao ver o policial, então é complicado”, explica Rogério Henrique Rezende, coordenador de Repressão às Drogas da Polícia Civil.

Enquanto soluções são buscadas, ficam os gastos públicos, como detalha Ronalde Lins, membro do Conselho Regional de Economia. “Além do custo dos atendimentos dos hospitais, que precisam fornecer tratamentos mais fortes devido à potência da droga, se somam os esforços policiais no patrulhamento, por exemplo. Caso a pessoa seja presa, ela custará uma média de R$ 3 mil mensalmente ao Estado com gastos relativos aos funcionários, à alimentação, às compras em geral e mais”, exemplifica. Os números reforçam a importância do investimento preventivo, segundo o especialista. “A prevenção é essencial e gera economia. Programas de conscientização na infância e juventude são ótimos porque ajudam a evitar problemas futuros”, finaliza.

Imprecisão

Com critérios metodológicos semelhantes aos da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o levantamento da Fiocruz teve dificuldade para obter números precisos do consumo de crack, pois a maior parte dos usuários vive marginalizada, em situação de rua e em territórios de população esparsa, com dificuldade de acesso. Também por esse motivo, são escassas as pesquisas que analisam o território do DF em específico. Os últimos levantamentos, já antigos, levam em conta apenas as drogas apreendidas pela polícia.

Corrida

Corrida de rua Música e Diversão, Crack Não

» 14 de dezembro
» A partir das 10h
» Trajeto: do Serviço de Limpeza Urbana (Via L4) até o Restaurante Manzuá, no Pontão do Lago Sul

Onde buscar ajuda

Centros de Atenção Psicossocial Álcool e outras Drogas

» CAPS AD II Guará: QE 23, Área Especial S/N, Subsolo do Centro de Saúde 2 (2017- 1145)
» CAPS AD II Santa Maria: Quadra 312, Conj. H, Casa 12 (3394-8162)
» CAPS AD II Sobradinho: AR 17, Chácara 14 (antigo Centro de Saúde nº 3) (2117-2115)
» CAPS AD II Itapoã: Anexo II, Complexo Administrativo, Qd. 378, Conj. A, AE 4, Lago Oeste (99113-0736 / 2017-1677)
» CAPS AD III Ceilândia: QNN 01, Conj. A, Lote 45/47, Av. Leste (2017-2000)
» CAPS AD III Samambaia: QS 107, Conj. 8, Lotes 3, 4 e 5 (sem telefone)
» CAPS AD III Brasília: SCS, Quadra 5, Bloco C, Loja 73 (92001-0634)

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