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Correio Braziliense

Cantora Ellen Oléria fala da luta por igualdade e visibilidade social

A artista busca no passado e nas ações coletivas o motor para a luta pela igualdade e visibilidade social


postado em 09/11/2019 07:00

"O fato de eu ser negra é o que me possibilita cantar o que eu canto, experienciar a arte da forma que eu experiencio", Ellen Oléria, cantora (foto: DiegoBresani/Divulgacao)
“É muito importante a gente cantar a nossa gente, cantar o nosso lugar, o nosso cerrado que luta bravamente para se manter vivo, como nós”. O paralelo entre a luta do movimento negro e o bioma é da cantora e atriz Ellen Oléria,  que despontou de Ceilândia para todo o país ao vencer a primeira temporada do reality show The Voice Brasil.

Ela não dissocia a luta contra o racismo do reconhecimento de nossas origens, enquanto brasileiros e cidadãos. “O novembro negro nos chama para isso. É tempo de revisar, pensar, construir novas estratégias se forem necessárias”, afirma. “A gente não é só a cor da pele, temos memória celular de coisas muito mais complexas. O modo com que lidamos com o mundo está presente na forma como o meu corpo reage aos estímulos que recebe. Artistas brancas, pessoas brancas também vivenciam essa memória. É muito complexo num país que tem uma herança patriarcal e racista a gente saber que nosso corpo carrega também essa dimensão ancestral”, completa.

Ellen aponta que, mesmo que abolida há mais de um século, a escravidão brasileira ainda traz ecos na sociedade atual. “É muito importante a gente saber de onde a gente veio: um país escravocrata que ainda traz em suas instituições marcas dessa história, dessa prática em que o corpo negro ainda vale menos em relação a posses, serviços, empregos. O Brasil tem uma discrepância (social) muito grande. Não dá para dizer que a gente é um país igualitário, nem um continente e nem um mundo”, reflete a cantora.

A necessária reparação social é, para Ellen, um processo contínuo, cujo resultado “a gente vê a longo e médio prazos. As cotas sociais são um exemplo: a ideia é que elas não existam para sempre, é que as cotas minimizem e façam uma reparação imediata de uma história longa e brutal. É, por exemplo, você chegar a um hospital, ser atendido por uma médica negra e isso não ser uma grande surpresa para você, mas ser algo comum.”
 
No comando do programa Estação plural(foto: TV Brasil/Divulgação)
No comando do programa Estação plural (foto: TV Brasil/Divulgação)
 

É essa visão de que falta à sociedade brasileira a inserção do negro. E ela (a inserção) vem com trabalho de formiguinha, com passos para frente e para trás, mas sempre apoiado na coletividade. “Exatamente quando o Estado não consegue atender todas as demandas de uma maneira diversa, a força, o poder coletivo se movimenta, se agrupando e pensando estratégias coletivamente. Eu acredito muito nessa movimentação coletiva e acho que ela só existe porque as pessoas se movimentam individualmente também”, explica Ellen.

A força do afeto

Além de cantora, compositora e atriz Ellen Oléria é apresentadora e esteve à frente do programa do Canal Brasil Estação plural, no qual discutia questões ligadas à diversidade, seja ela racial, seja de qualquer outro tipo.

“Eu acredito na força do afeto, na conexão entre as pessoas. Foi por meio desses espaços que tive a oportunidade apresentar o Estação plural. A minha ideia é ir me edificando com as pessoas que estão ao meu redor, com os universos em que eu habito. A ideia foi justamente falarmos das diferenças, de como elas podem nos enriquecer. Acho que isso que eu tenho de fazer nos lugares que ocupo”, afirma.

Com toda a luta e muitas derrotas impostas ao negro, Ellen Oléria encontra espaço para o otimismo quando olha para o futuro. “Eu sou esperançosa, tenho muita fé. As novas gerações estão trazendo pra gente outras perspectivas de vida, muito mais abertas ao diálogo”, opina Ellen. A cantora reafirma que se sente ainda mais confortável quando compara a atitude de pais com relação à educação dos filhos de gerações anteriores para a de agora. O momento, segundo a cantora, é de dividir a tarefa da educação com a escola e não deixar nas mãos dos educadores.

“Vejo mais mães tomando a responsabilidade de criar os filhos para si, não deixando com o Estado. Todo mundo que está perto de uma criança é responsável por ela de alguma maneira. As crianças estão muito atentas ao que está acontecendo o tempo inteiro e estão aprendendo. O mais natural é a criança reproduzir modelos. Quanto mais bons exemplos a criança tiver por perto, mais possibilidade de perceber o mundo ela vai ter. A gente, independentemente de ter relação direta com a escola, é responsável pelas crianças ao nosso redor”, explica.

Cria de Ceilândia

Durante a trajetória artística, Ellen também não esquece da própria origem. Antes de ser conhecida país inteiro, ao ser a primeira vencedora do The Voice Brasil, gravar cinco discos e ter músicas em trilha de novelas, Ellen era conhecida dos palcos e das feiras culturais da capital federal.

Foram vários os shows em que espaços como a Funarte ou o Bistrô Bom Demais, no CCBB, receberam a voz potente e a poesia contundente da cantora Ellen. O lado atriz teve vazão sob a direção de mestres como Hugo Rodas. “Estamos conversando com Brasília fortemente, levo o nome da cidade no peito”, afirma Ellen, que está em estúdio gravando um disco que vai dialogar fortemente com a capital federal.

Trechos de músicas


Antiga poesia
“A planta é feminina, a luta é feminina
La mar, la sangre y mi América Latina
O meu desejo é que o seu desejo não me defina
A minha história é outra
Tô rebobinando a fita“

Senzala (A feira de Ceilândia)
‘Mas o que você precisa mais na feira não se pode encontrar:
Razão, consciência, senso, inteligência, uma cabeça pra pensar“

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