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Correio Braziliense

Jornalista que enfrentou a guerra usa a informação para combater o racismo

Marisol Kadiegi sentiu as dores da guerra em seu país natal, a Angola, e da discriminação, em Portugal e no Brasil. Hoje, como jornalista, usa a comunicação na luta para combater a desigualdade


postado em 12/11/2019 06:00 / atualizado em 12/11/2019 07:04

"Quantos professores negros têm nas escolas e universidades? Em várias áreas do saber, somos minoria. Somos maioria apenas nas cadeias e nas favelas", diz Marisol (foto: Nicolas Braga/Esp. CB/D.A Press)
Antes de construir sua história na capital federal dedicada a produções culturais, audiovisuais e à luta contra o racismo, Marisol Kadiegi, nascida em uma aldeia angolana chamada Candunda, enfrentou uma infância difícil. Ela conta que suas primeiras memórias são dos caminhos que fazia diariamente, do cheiro de terra que sentia pela manhã e da convivência harmoniosa da família biológica.

Porém, em meados de 1960, o país entrou em guerra. Movimentos de ideologias divergentes começaram a eclodir no território africano e o confronto armado que buscava a independência de Angola estava apenas no começo. Toda a população fora aconselhada a proteger seus familiares em esconderijos. Um ataque surpresa à aldeia Candunda foi o suficiente para aumentar o pânico entre os moradores do local e instaurar o caos em busca pela sobrevivência.

Aquela teria sido a última vez em que a pequena Marisol, de apenas sete anos, esteve com a família. Após incansável busca pelos pais, a criança fora levada, junto a outras pessoas, para um acampamento para refugiados em Kinshasa, capital do Zaire, atualmente, República Democrática do Congo.

Pouco tempo depois, ocorria a repatriação portuguesa e Marisol, sem poder de escolha, desembarcou em Lisboa. O tempo foi passando e o racismo instaurado no país, em um cenário de conflito inter-racial, foi se tornando cada vez mais intenso.

(foto: Nicolas Braga/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Nicolas Braga/Esp. CB/D.A Press)
“Naquela época, eu era acostumada a não sorrir em público, ou tampar a boca toda vez que desse risada. Eu ouvia que meus dentes eram muito feios. Eu fui coisificada por muito tempo. Sofri preconceito racial desde criança, não me sentia parte da sociedade”, afirmou Marisol.

Na juventude, ela foi “adotada” por uma família brasileira. Ainda que o sentimento de mudança existisse, a realidade foi diferente. Ali, naquela nova casa, ela trabalhou de empregada doméstica e o racismo e a discriminação foram ainda mais presentes. Porém, o sentimento causado pela dor da rejeição a fez ter ainda mais forças para lutar pelos direitos da população negra.

Depois de anos tendo sua força de trabalho explorada, Marisol chegou a Cuiabá, lugar em que, já com documentos brasileiros, pôde se “descobrir enquanto mulher negra” ao entrar para o Movimento Negro e para sindicatos locais. Marisol aproveitou a liberdade para se engajar e, a partir desse momento, com ajuda de professores que compunham o sindicato, começou a estudar a história social e política da África e a compreender melhor sua origem e ancestralidade. Além disso, a convite dos professores, ela começou a dar aulas de inglês em escolas locais.

Marisol sentia, então, que aquela era a hora de virar o jogo. Em Curitiba, alguns anos antes, ela concluiu o supletivo e, com muito empenho, recuperou parte do tempo perdido. Quando se mudou para Cuiabá, começou a participar de mesas redondas, debates e oficinas que permitiram maior engajamento quanto à realidade dela e de tantos outros negros. “Uma coisa casou com a outra e eu pude criar essa figura, que é a Marisol”, afirmou a ativista.

Aos 25 anos, a militante conheceu o brasileiro Wilson Miranda, com quem foi casada por muitos anos e teve dois filhos: Odara e Akil. Wilson morava em Brasília e, por isso, ela se mudou para a capital federal.

O amor pela informação, cultura, e história de povos fez Marisol iniciar a graduação em Jornalismo pelo Iesb e, depois, pós-graduação na Universidade de Brasília (UnB). Além disso, a paixão pelo audiovisual foi o suficiente para que Marisol dirigisse, em 2008, o documentário Xinguilamento: A força dos ancestrais, que retrata um ritual religioso de tradição africana, em Luanda, Angola.

Na visão de Marisol, o racismo hoje é mais sutil: “Já que não mata, enlouquece”. E, ao considerar experiências duras vividas por muito tempo, ela afirma que muitas pessoas vivem o racismo e não sabem o que significa. Por isso ela considera que o ativismo é um ato “diário” e que precisa ser feito em conjunto.

Em 2007, surgiu a oportunidade de voltar para o país natal e participar da Trienal de Luanda. Chegando lá, ela foi, então, contratada pela TV pública de Angola e, com isso, foi possível a criação de mais conteúdos relacionados à cultura e à identidade africana.

Marisol voltou ao Brasil e trabalha atualmente na TV Supren, braço de comunicação da ONG União Planetária, além de lutar diariamente para conter os reflexos da discriminação estrutural no país. Na Angola, ela está de licença sem vencimentos da TV pública, onde atua como documentarista.

Ao falar sobre a necessidade do jornalismo de informação e de estudar culturas e direitos humanos, Marisol conta que vivencia até hoje o racismo estrutural. Porém, antes era obrigada a se enxergar como uma aberração. “Nos ensinaram que éramos feios, burros, ladrões, prostitutas e preguiçosos ou monstros. Por isso precisamos entender, estudar e nos informar”, disse a jornalista.

Lydia Garcia, Mali Garcia e Marisol Kadiegi.(foto: Nicolas Braga/Esp. CB/D.A Press)
Lydia Garcia, Mali Garcia e Marisol Kadiegi. (foto: Nicolas Braga/Esp. CB/D.A Press)


Além de usar a informação para desmistificar tabus e estereótipos, ela produz e participa eventos de conscientização social a respeito do Movimento Negro e da importância da inclusão dessa população no mercado de trabalho, universidades e escolas. “No Brasil, 54% da população é negra. Por que, então, somos tão invisibilizados? Nas universidades, se não fosse por causa das cotas, estas não seriam tão empretecidas. Mas, mesmo assim, os números são muito baixos. Quantos professores negros têm nas escolas e universidades? Em várias áreas do saber, somos minoria. Somos maioria apenas nas cadeias e nas favelas.”

*Estagiária sob supervisão de Fernando Jordão

Especial

Para marcar o Mês da Consciência Negra, a série Histórias de consciência é publicada ao longo de novembro e presta homenagem a mulheres e homens negros que ajudam a construir uma Brasília justa, tolerante e plural. Todos os perfis deste especial e outras matérias sobre o tema podem ser lidos no site www.correiobraziliense.com.br/historiasdeconsciencia

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