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Correio Braziliense

Poeta de Ceilândia aborda religião e negritude em suas obras

Religião, negritude e questões indígenas são as principais inspirações para o trabalho do poeta Fabrício Hundou. Ceilandense, ele também tem projetos para ajudar a produção cultural no DF


postado em 15/11/2019 06:00

É preciso mostrar nossas múltiplas vivências.
É preciso mostrar nossas múltiplas vivências. "A literatura não precisa ser homogênea. Eu falo de tudo sob um ponto de vista negro" (foto: Marcelo Galvão/Divulgação)
A poesia perpassa pela vida do ceilandense Fabrício Hundou em todos os aspectos. Como ele mesmo define, o poeta “vai muito além da escrita”. Por isso, em uma rápida conversa com ele, é fácil perceber como realmente não é preciso de uma linguagem escrita para expressar um texto lírico. Ao ser questionado sobre a idade, Fabrício diz que prefere dizer que nasceu em 21 de dezembro, na “cúspide/transição entre Sagitário para Capricórnio”.

E é assim que o jovem poeta vê a vida, com bastante espiritualidade, misticismo e sem deixar a negritude e os referenciais indígenas de lado. “Meu modo Maria-passa-na-frente; Exu sinaleiro; Ogum é meu guidom; Oxum apitando lírica“, diz uma de suas poesias. Os versos são publicados, basicamente, em redes sociais. Mas o projeto de um livro está a caminho. “Quero lançar ano que vem pela editora da Tatiana Nascimento — Padê editorial —, que é uma editora dedicada a livros de pessoas negras e LGBTs, de Brasília”, explica.

O talento de Fabrício despertou cedo. Ele lembra que tudo começou quando entrou para a Ação Social Criança Feliz, em Ceilândia, com apenas 11 anos. “Aos 14, eu comecei a escrever. Na época, contos. A poesia veio mais tarde”, afirma. Para isso acontecer, ele recorda que foi essencial o convívio com duas professoras. “Nunca tive contato com a literatura hegemônica branca. Tive uma professora negra no ensino fundamental e outra no ensino médio que me apresentaram a literatura africana. Também comecei a ter mais vivência com as religiões, a ampliar meus acessos aos Orixás.”

Tempos mais tarde, entrou para a Universidade de Brasília (UnB), onde cursou terapia ocupacional. Lá, o repertório artístico foi ampliado. “Era despercebida essa força, e isso consegui resgatar na UnB, participando de rodas de gênero, raça e sexualidade”, lembra. Hoje, além de poeta, Fabrício trabalha com projetos gráficos e fotográficos, e é terapeuta ocupacional atuante, com trabalhos com deficiência física e cognitiva, em que utiliza a habilidade artística para trabalhar corpo e expressão e a subjetividade da pessoa negra com deficiência. “Eu tenho múltiplas habilidades, acho que não conseguiria ser só poeta”, conta.

Engajamento

Orgulhoso de ser de periferia, Fabrício ressalta que Brasília está cheia de gente talentosa para a poesia. “Tem agrupamentos incríveis, sobretudo periféricos. Existe um potencial enorme”, destaca. Em Ceilândia, o poeta fundou, junto a amigos, a Casa de Cultura Akotirene, voltada para o público LGBTQI e para pessoas negras.

Para ele, falar de consciência negra é extremamente essencial. “É um marco importante que a gente precisa discutir. Pessoas brancas precisam falar sobre seus privilégios. Nós, como indivíduos, não necessariamente precisamos ter consolidada essa ideia de negritude. Tudo tem seu tempo”, reflete.  Este ano, Fabrício venceu na Justiça uma batalha de dois anos motivada por uma injúria racial. “Fui discriminado no Facebook, movi ação pelo MPF (Ministério Público Federal), instâncias criminal e cível”, detalha.

Todas essas questões estão presentes nos versos dele. “É preciso mostrar nossas múltiplas vivências. A literatura não precisa ser homogênea. Eu falo de tudo sob um ponto de vista negro”, explica. Mas a vida de poeta não é fácil. “Existe preconceito com o artista de maneira geral, enquanto profissional. Artistas precisam sobreviver, existe uma deslegitimação”, lamenta.

Diversidade nos livros

A iniciativa é um coletivo, fundado por Tatiana Nascimento (DF) e Bárbara Esmenia (SP), com o intuito de publicar livros artesanais de autoras negras, periféricas, lésbicas, travestis, pessoas trans e bissexuais em tiragem pequena. Saiba mais no site pade.lgbt

Cultura e empoderamento

Fundada inicialmente como Casa Ipê, a Casa Akotirene, como explica Fabrício, é fruto da residência artística. “Tínhamos a Trupe Casa Ipê — projeto musical com Daniela Vieira (musicista) e Fernanda Fontoura (psicodramatista e musicista).” Conheça o projeto em: www.instagram.com/casa.akotirene.

Conheça um pouco da poesia de Fabrício


PÁSSARO GOTA-GOTA

sem (sul) portar um tempo pra repouso
a Lua em Áries faz um instante duradouro
busca tolerância ao estático
sustentar o aqui-agora
parece quase um obstáculo
desconhece a demora
ele: o bicho pássaro
virou um outono sem urro
asa-delta sem vento
misturou-se à indiferença
conheceu Canário-da-terra
um Pintassilgo
uma Rolinha ou
pombas de Obatalá
há rejeito à extinção
dizem que nós vamos voltar
esvoaça teu cabelo
espécie de liberdade
mar que conhece o chão
chamasse pra conversar
piou, ruminou, cantou MPB
fez festa/faz festa
dançou ijexá em minha BOCA
foi-se embora com espelhos
(também gosto
presença
gota
em
gota)

Fabrício Hundou

Especial

Para marcar o Mês da Consciência Negra, a série Histórias de consciência é publicada ao longo de novembro e presta homenagem a mulheres e homens negros que ajudam a construir uma Brasília justa, tolerante e plural. Todos os perfis deste especial e outras matérias sobre o tema podem ser lidos no site www.correiobraziliense.com.br/historiasdeconsciencia 

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