Cidades

Fábio Felix tenta colocar a luta contra o racismo em evidência na CLDF

O Engajamento do deputado Fábio Felix começou aos 16 anos, mas a luta racial é uma militância que sempre esteve na pele. Agora como distrital, a pauta ganha evidência

Agatha Gonzaga
postado em 19/11/2019 06:00
um homem em pé sorrindo -  (foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
um homem em pé sorrindo - (foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
[FOTO1]Conviver com o preconceito e a desigualdade é uma realidade cotidiana para a população negra no Brasil. Ser negro e ser gay é uma soma de lutas, como define o deputado distrital Fábio Felix (PSol). Aos 33 anos, o segundo parlamentar mais jovem da Câmara Legislativa tem, na verdade, uma longa trajetória política relacionada às pautas que apresenta hoje na Casa.

Os primeiros passos rumo à vida política foram dados aos 16, quando o menino nascido em Taguatinga, que organizava as votações do coral da igreja evangélica, precisou tomar uma decisão: assumir a homossexualidade para amigos e família. ;Nesse momento, eu comecei a me descobrir como um ser político na prática. Não era só eu sair do armário enquanto indivíduo, era eu saindo do armário em uma sociedade excludente, violenta;, lembrou.

Após o anúncio, as manifestações preconceituosas passaram a ficar intensas. Fábio conta que sofreu diversos ataques de pessoas da família, de vizinhos e desconhecidos. Em uma ocasião, precisou deixar o café que frequentava após beijar o namorado em público. Em outra, sofreu uma tentativa de atropelamento. Na contramão do preconceito, os pais do deputado o apoiaram e passaram a frequentar, juntos com ele, as ações de uma ONG de defesa LGBT, o que fez despertar ainda mais interesse na militância da causa.

Com maior engajamento político, além das questões ligadas à sexualidade, Fábio também pôde dar mais atenção a outras esferas da sua vida nas quais também se sentia negligenciado. ;Eu sempre me enxerguei como uma pessoa negra, mas eu precisei de um processo de descoberta para entender que eu tinha que me engajar politicamente na luta contra o racismo;, afirmou.

Segundo ele, a juventude e o convívio com pessoas brancas foram determinantes para perceber a diferença de tratamento que recebia. ;Quando a pessoa era branca, ela tinha uma série de privilégios que eu não tinha. Eu andava com amigos brancos e eles sempre eram considerados pessoas bonitas por conta dessa estética tradicional. E eu, por ser negro, não. Fora outras situações, como estar andando na rua à noite, vestido com uma bermuda, uma camiseta e boné e encontrar uma senhora passeando com um cachorro. Nesse caso, ela atravessa a rua. Se fosse um cara branco, provavelmente não atravessaria. Então, você entende a diferença de ser negro quando as pessoas têm medo de você pelo fato de ser negro;, declarou.

Para o deputado, embora o Brasil seja um dos países mais miscigenados do mundo, é preciso desconstruir a crença de que esse fato seja suficiente para eliminar o racismo. ;Eu lembro de que, na escola, as professoras falavam que não existia mais essa história de negro e branco. Todos tinham ancestrais negros, brancos e indígenas. As crianças negras ficavam iludidas com esse processo de educação errada e despolitizada, mas isso não é certo, porque as culturas não são assim conectadas;, pontuou.

Além disso, de acordo com o parlamentar, existe uma necessidade de deixar claro que o racismo institucional, apesar de ter muitos exemplos violentos, pode ser também muito sutil. ;É a forma como você é revistado em um banco ou na imigração, e a pessoa branca não, é alguém atravessar uma rua ao te encontrar, é você ter menos tempo no atendimento médico. Isso tudo vai mostrando qual o seu lugar na sociedade;, disse ;Eu fui desmontando esse mito que a professora me falou, e posso dizer que é como sair do armário, porque você vai se percebendo como parte dessa exclusão social e vítima desse racismo cotidiano;, acrescentou.

Avanços

Fábio Felix formou-se em serviço social pela Universidade de Brasília (UnB). Quando iniciou o curso, em 2004, a instituição de ensino passava pela primeira experiência com o sistema de cotas. Segundo lembra o deputado, a reação dos estudantes para a chegada de negros não foi positiva. ;Eu acabei não fazendo o vestibular por cotas, mas quando eu cheguei vi uma coisa bizarra. As paredes estavam pichadas com ;fora negros;, ;contra pretos na universidade;. A UnB era realmente muito branca, muito elitizada, principalmente em cursos como medicina, relações internacionais, ciências políticas. Ou seja, antes não havia negros, e os negros, além de não terem acesso ao ensino, quando tiveram, ainda sofreram violência por conta disso;, contou.

Agora, 15 anos depois, o Brasil tem mais de 1,14 milhão de estudantes autodeclarados pretos e pardos, enquanto os brancos ocupavam 1,05 milhão de vagas em instituições de ensino superior federais, estaduais e/ou municipais, conforme a pesquisa Desigualdades sociais por cor ou raça no Brasil, feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada na quarta-feira. Isso equivale, respectivamente, a 50,3% e 48,2% dos mais de 2,19 milhões de brasileiros matriculados na rede pública.

Na avaliação do deputado, ainda há muita luta racial para inserir a população negra em todos os espaços que deveriam ter acesso, mas muitos avanços têm surtido efeitos positivos. ;Acho que, por um lado, a gente tem um constrangimento social muito forte com a temática e ainda há um clima muito grande de negação. Só podemos avançar para superar o racismo quando tivermos um reconhecimento social mais amplo da existência dele.;

Especial

Para marcar o Mês da Consciência Negra, a série Histórias de consciência é publicada ao longo de novembro e presta homenagem a mulheres e homens negros que ajudam a construir uma Brasília justa, tolerante e plural. Todos os perfis deste especial e outras matérias sobre o tema podem ser lidos no site www.correiobraziliense.com.br/historiasdeconsciencia.

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