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Correio Braziliense

DF teve mais de 139 mil multas por estacionamento irregular em 2019

Veículos parados em locais irregulares resultaram em mais de 139 mil multas de janeiro a outubro. Saída para resolver a situação passa por integração e compartilhamento de meios de transporte, segundo pesquisadores


postado em 19/11/2019 06:00

Acostumado com a superlotação no Setor de Autarquias Sul, onde trabalha, Thiago Cunha conta que já optou por compras on-line para não ter que se estressar com estacionamentos(foto: Mariana Machado/CB/D.A Press)
Acostumado com a superlotação no Setor de Autarquias Sul, onde trabalha, Thiago Cunha conta que já optou por compras on-line para não ter que se estressar com estacionamentos (foto: Mariana Machado/CB/D.A Press)
Eles estão ao longo do meio-fio, sobre calçadas, em esquinas ou bloqueando rampas e garagens. Onde houver espaço, há veículos estacionados de forma irregular, sobretudo em áreas de grande circulação, como centros comerciais. De janeiro a outubro, os órgãos fiscalizadores de trânsito do Distrito Federal emitiram 139,7 mil multas a condutores que desrespeitaram as normas e deixaram carros e motos em lugares inapropriados. Isso quer dizer que, em média, a cada três minutos e oito segundos, uma pessoa foi autuada. No mesmo período do ano passado, o Departamento de Trânsito (Detran-DF), a Polícia Militar e o Departamento de Estradas de Rodagem (DER-DF) contabilizaram 149,6 mil infrações — 6,5% a mais que neste ano.

Apesar de alta, a taxa não reflete a realidade, como explica Francisco Saraiva, diretor de Policiamento e Fiscalização de Trânsito do Detran-DF. “O espaço (para estacionamentos) é incompatível com o tamanho da frota. Esse número (de multas) é baixo, porque, para nós, não é prioridade (fiscalizar) estacionamento. Quando alguém solicita, é atendido de imediato”, garante. “Não falta carro para multar, mas não tem agente nem viatura disponível para atuar em todos os estacionamentos”, justifica.

Segundo o último levantamento da autarquia, até junho deste ano, mais de 1,8 milhão de veículos estavam registrados no DF. Francisco ressalta que, se somados os que vêm do Entorno, esse número se aproxima de 2 milhões. “Apesar da falta de estacionamento, é preciso que o cidadão respeite os direitos dos demais. Na pressa, você deixa alguém preso, sai para resolver alguma coisa e esquece. Tenha paciência para encontrar um local adequado, porque você pode ser vítima na próxima vez”, alerta.

No centro de Taguatinga, não é raro ver essa cena. Além de veículos presos, a reportagem do Correio flagrou carros estacionados em fila dupla e condutores esperando muito tempo até conseguir uma vaga. Para evitar esses problemas, Daiana Martins Ribeiro, 37 anos, prefere sair acompanhada de outro condutor. “É quase impossível achar vaga em locais como Plano Piloto, Águas Claras e Taguatinga. Sempre tenho de vir em dupla, para não levar multa”, contou a jornalista. “Não sei se Brasília está preparada para um sistema de rodízio. Acho que poderiam cobrar um preço mais acessível em estacionamentos particulares.”

Prejuízo

Áreas próximo a lojas e restaurantes costumam ser críticas. Sem vagas, as pessoas muitas vezes desistem de comprar, o que prejudica os lojistas. No período de fim de ano, com a maior procura por presentes de Natal, o problema aumenta, como explica José Carlos Magalhães, presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas do Distrito Federal (CDL-DF). Ele ressalta dois pontos-chave: a falta de pintura nos estacionamentos e o volume da frota do DF. “É um prejuízo ao varejo, porque o consumidor desiste de entrar na loja, vai para outro lugar ou compra pela internet”, lamenta.

Esse é o caso de Thiago Cunha, 29: “No último mês, fiz duas compras on-line pela dificuldade de ir ao local e procurar onde deixar o carro. Pela internet, é mais fácil, se a gente pensa nessa dor de cabeça de achar vaga. O governo cobra que você estacione em local correto, mas não oferece transporte público de qualidade, nem estacionamentos suficientes”. O analista de sistemas trabalha no Setor de Autarquias Sul e lembra que estacionar lá não é tarefa fácil. “Às 9h, está tudo lotado, então o pessoal deixa as chaves com guardadores, e eles manobram os veículos. É isso ou parar de forma irregular”, conta.

Além de temer multas, o operador de máquinas Marcos Antônio Alves, 32, se preocupa com a própria segurança. Na rua onde trabalha, na QNM 17 de Ceilândia, a rotatividade nas vagas em frente ao comércio é baixa, principalmente por elas serem ocupadas por funcionários e donos de lojas. “Prefiro vir de ônibus por causa disso. Aqui perto, tem uma rua onde, às vezes, deixamos o carro, mas paramos correndo o risco de ter o veículo furtado, de quebrarem o vidro, de arranharem se não dermos dinheiro para as pessoas em situação de rua que vivem lá. A maioria dos comerciantes estaciona em frente à loja querendo ter segurança”, relata Marcos Antônio.

Propostas

Para especialistas, o desequilíbrio entre o volume de veículos e a oferta de vagas é uma das causas dos problemas de estacionamento. Professor do Departamento de Engenharia Civil da Universidade Católica de Brasília (UCB), Edson Benício de Carvalho reforça a necessidade do aumento no uso do transporte coletivo e vê como viável a implementação de zonas rotativas. “Também podemos pensar em prédios de estacionamento, sejam eles verticalizados, sejam subterrâneos, que ficariam próximo às áreas centrais. De lá, as pessoas chegariam aos destinos de ônibus, metrô ou bicicleta”, sugere.

Diante das constantes reclamações de clientes sobre a falta de vagas nas proximidades de uma barbearia que administra, na Quadra C3 de Taguatinga Centro, o empresário Guilherme Sabino, 20, negocia uma parceria com o dono de um prédio de estacionamentos que está em construção na mesma rua. “Serão quatro andares de vagas, com previsão de inaugurar no início do ano. Quero fechar uma parceria para nossos clientes terem um voucher da loja, apresentarem lá e conseguirem estacionar de graça. Eles, geralmente, falam que precisam dar de duas a três voltas na região até conseguirem vaga”, conta o jovem.

Para o especialista em transportes da Universidade de Brasília (UnB) Pastor Willy González, o problema também é comportamental. “As pessoas tentam parar mais perto do destino e terminam ocupando vias de acesso, porque se acostumaram a caminhar pouco. Todos querem ir dirigindo. Se compartilhassem o carro, o problema diminuiria um pouco”, pondera o professor peruano.

Questionada sobre possíveis soluções para o problema da falta de vagas, a Secretaria de Mobilidade informou que o primeiro passo é criar a Zona Verde, a fim de “democratizar a utilização do espaço público”. Além disso, a pasta pretende incentivar o uso do transporte coletivo por meio da criação de corredores exclusivos; aumentar a integração do sistema; e renovar a frota.

Zona Verde

Projeto debatido desde a gestão passada, a criação da Zona Verde segue em avaliação. Em setembro, encerrou-se o prazo para elaborar os estudos. Eles estão sendo analisados por comissão técnica instituída pela Secretaria de Mobilidade. O resultado da análise será apresentado em audiência pública. O projeto prevê estacionamentos rotativos em áreas de grande circulação de veículos na capital. Ainda não há prazos nem estimativa de valores.

Para saber mais

A multa
 
Pelo Código de Trânsito Brasileiro, a penalidade para quem estaciona de maneira irregular varia. Deixar o carro em esquinas, por exemplo, é infração média, com multa de R$ 130,16. Se ocorrer em pistas de rolamento de estradas, rodovias ou vias de trânsito rápido, passa a ser gravíssima, com penalidade de R$ 293,47. Também é proibido parar junto a hidrantes, poços de galerias subterrâneas, faixas de pedestre, ciclovias, calçadas, rampas de acessos, garagens, locais de embarque e desembarque, vagas destinadas a idosos ou pessoas com deficiência, viadutos, pontes e túneis. Nessas e em outras situações listadas na lei, a multa varia de R$ 88,38 a R$ 293,47. Em todos os casos, está prevista remoção do veículo como medida administrativa.

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