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Correio Braziliense

Professora lança livro que conta experiência de dar aulas para detentos

Lançamento da obra Teatro em cadeado: uma experiência em cela de aula ocorre nesta quinta-feira (21/11), às 19h, na Livraria Cope


postado em 21/11/2019 17:49 / atualizado em 21/11/2019 17:51

A professora guarda com carinho cartas de alunos do sistema penitenciário(foto: Geovana Oliveira/Esp. CB/D.A Press)
A professora guarda com carinho cartas de alunos do sistema penitenciário (foto: Geovana Oliveira/Esp. CB/D.A Press)
Dizia Paulo Freire: "Educação não transforma o mundo. Educação muda pessoas. Pessoas transformam o mundo”. Os professores são instrumentos principais nessa transformação. Esses profissionais, através do conhecimento compartilhado, moldam personalidades desde os primeiros anos de vida. A educação se faz necessária em todos os espaços da sociedade, inclusive como forma de inclusão para aqueles que estão excluídos deste meio, como é o caso da comunidade carcerária. A garantia de uma boa educação é uma forma de ressocializar as pessoas condenadas à prisão. 
 
A troca de saberes e experiências durante conversas e o sonho de ser professora desde pequena motivou a aposentada Janilce Rodrigues, 57 anos, a dar aula para presidiários do Complexo Penitenciário da Papuda. Nesta quinta-feira (21/11), ela lança o livro Teatro em cadeado: uma experiência em cela de aula, produzido com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC). O lançamento será às 19h, na Livraria Cope (409 Norte). O livro é um relato de sua experiência como professora de oficinas de teatro com detentos. Durante o período em que atuou como professora no local, ela guardou mensagens de seus alunos e estas serviram de inspiração para sua obra. “Eu falo que o livro não é uma obra, é um relato de experiência. Eu peguei todo esse material que eu guardei e um dia tive a ideia. Eu trago as cartas escritas pelos alunos para mim, que são relatos e testemunhos, para que as pessoas vejam como um trabalho que é possível fazer”, afirma. 
 
Livro Teatro em cadeado: uma experiência em cela de aula será lançado nesta quinta, na Livraria Cope, 409 Norte(foto: Arquivo pessoal)
Livro Teatro em cadeado: uma experiência em cela de aula será lançado nesta quinta, na Livraria Cope, 409 Norte (foto: Arquivo pessoal)
Durante oito anos a pedagoga ministrou classes de arte para a comunidade carcerária, e conta que, mesmo com o receio, pôde partilhar diferentes experiências. “No início a gente tem medo de chegar em um lugar daqueles, cercado de grades. Não é muito agradável, mas a gente se acostuma”, diz.
 
Janilce relata que passou por situações intimidadoras com os alunos que assistiam suas aulas: “Eu tinha um aluno que, ao pedir para que se apresentasse, perguntou se eu sabia quantos ele já matou, com uma cara feia. Foi para assustar mesmo”, lembra. Ela diz que, apesar dos alunos tentarem desestimulá-la, entende a situação de muitos e tenta sempre se colocar no lugar. “Eu não defendo criminoso, não defendo a violência. Mas tem pessoas que não tiveram escolha, que foram criadas em ambientes difíceis”, lamenta.
 
Apesar do medo, a ex-professora recorda que os presidiários sempre a trataram bem. “Eles respeitam muito o professor, pois sabem que não é fácil chegar lá. Eu nunca tive um momento de desrespeito”, conta. Janilce acrescenta que, durante o período que deu aula, foi feliz e adquiriu novos aprendizados. “Foram oito anos de felicidade. Eu fui pra lá ensinar uma coisa, mas aprendi muito mais com eles, como o respeito às diferenças e com o lugar que eu estava.”
 
O início não foi fácil. Janilce fala que uma de suas primeiras turmas era composta de alunos rudes, com grande atraso educacional e sérios problemas de saúde. Ao se deparar com esse cenário a professora decidiu ministrar uma aula lúdica para que os alunos pudessem se sentir confortáveis: “Apliquei minhas atividades de artes que costumava aplicar para séries iniciais. Levei lápis de cor, recorte e cola, passei um filme e apresentei textos infantis”. De acordo com a educadora, a experiência foi incrível. “Eu lembro que um aluno falou que, quando era criança, não brincava, pois não tinha como brincar. E isso fez diferença na vida dos estudantes daquela classe”, afirma. 
 
A comunidade carcerária atendida por sistema educacional é escassa. “A cada semestre muda. A gente tem uma estimativa de que a escola atende 10% da população carcerária.” A educadora reforça que o ensino no processo de socialização os deixa um passo mais perto de um futuro após a libertação: “A educação transforma o ser. Às vezes a pessoa vive na escuridão, e a educação ilumina o caminho, permite sonhar.”
 
Acreditar no poder de mudança e transformação da educação é um aspecto que motivou a educadora a seguir com o projeto. O livro é um caminho para que a ideia possa ser ampliada:  “As pessoas precisam ver que dentro do sistema penitenciário há formas de a gente transformar as pessoas, sim, me ensinou a olhar a pessoa que está ali presa, como uma pessoa que pode ser recuperada, por meio da educação.” Janilce afirma que essa experiência mudou sua forma de enxergar o mundo. “O preconceito se perde. Temos que dar espaço para ouvir do outro a sua história, qual foi seu caminho até chegar nesta situação.”
 
Educação no Sistema Penitenciário
De acordo com o Departamento Penitenciário Nacional (Depen), das 726 mil pessoas presas em 2018, 89% não completaram o ensino fundamental. Além disso, 88% não têm acesso à educação dentro dos presídios. O departamento é responsável pelo desenvolvimento das políticas de promoção e acesso à educação no âmbito do sistema prisional, através da Coordenação de Educação, Esporte e Cultura. A garantia de educação permite cumprimento de penas alternativas e uso de monitoração eletrônica.
 
De acordo com o Depen, o papel da escola pública e dos espaços educativos como estratégia fundamental de combate às desigualdades e promoção da equidade no sistema prisional brasileiro deve ser defendido. As pessoas privadas de liberdade mantêm a titularidade de seus direitos fundamentais, dentre eles à educação, e todas devem ser alcançadas pelas políticas públicas idealizadas e implementadas pelos governos.

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