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Correio Braziliense

Atriz Tainá Cary faz da arte seu lugar de fala pela igualdade

A mulher, negra, gorda, bissexual e artista, como ela mesma se define, de 24 anos, toma conta dos palcos de Brasília


postado em 03/12/2019 06:00 / atualizado em 02/12/2019 23:04

(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
“Sobe um, depois sobe outro, e assim por diante. Aí, a gente cria essa escadinha. Senão, fica todo mundo embaixo e, só daqui a 10 anos, sobe mais um. Assim, não se cria um processo. Acontece esporadicamente. Aí vem e aparece outro preto. É uma Taís Araújo. Depois, sou eu. E não. Em uma novela, só ter dois pretos? Olha para o Brasil! Tem que questionar.” A inquietude de Tainá Cary rouba a cena. “Mulher, negra, gorda, bissexual e artista” são os lugares de fala da atriz de 24 anos que chegou de Santos (SP) aos 9 e, hoje, toma conta dos palcos de Brasília. A cidade a acolheu quando os pais, jornalistas, já não tinham como ganhar a vida no litoral paulista.


As memórias daquele momento ficaram para sempre. Tanto pela mudança de ares, quanto pelos entendimentos sobre negritude que vieram das experiências vividas por seus pais àquela altura. “Quando eu era criança, não tinha ideia de que a competência da pessoa negra era tão questionada. Mas comecei a perceber que sempre foram eles por eles. Sempre um puxando o outro. Nesse momento, passei a questionar o porquê de ser sempre os dois, ajudando um ao outro nos projetos, mas nunca haver convites de terceiros. Porque talvez só minha mãe confiasse na competência do meu pai, e vice-versa. Talvez fosse esse lugar. Aí abriu a visão geral, a lente do racismo, e eu consegui entender que somos nós por nós mesmo”, afirma a atriz.

A família sempre foi “mente aberta”, segundo a jovem. O diálogo era constante, mas a cobrança pelo bom desempenho acompanha Tainá desde cedo. “Minha mãe sempre foi uma pessoa muito firme. Nunca aceitou filha mediana. Nunca foi uma escolha se leria ou não, se estudaria ou não. Quando você é criança, é duro. Sempre tive muitas divergências com ela. Pensava: ‘tudo bem perder, não precisa ganhar sempre’. Hoje em dia, vejo que não dá. As oportunidades são poucas. Foi ela que, na marra, me fez entender que não tem essa de ganhar ou perder. Quando vem a oportunidade, tem que ganhar mesmo.”

Na infância, a vivência entre os livros e o engajamento dos pais na educação ajudaram a despertar o que a alimenta até hoje: o fazer artístico. Durante as leituras na cama, que também ajudaram a irmã mais velha e companheira inseparável, Naomi, a superar questões como a gagueira, Tainá não via sentido nas histórias se elas não fossem vividas. “Eu já comecei a sentir a arte me chamar. Queria fazer uma leitura dramática e não uma normal. Você quer ler o que o personagem está falando com a intenção que ele comunica. E não simplesmente falar. Aí, você já começa a sentir que talvez tenha alguma coisa de diferente”, recorda.

''Eu acho que uma mulher negra, protagonizando um filme, em um festival como o de Gramado, já é uma afronta. E que bom que eu estou vivendo isso, desse jeito, nessa idade''(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
''Eu acho que uma mulher negra, protagonizando um filme, em um festival como o de Gramado, já é uma afronta. E que bom que eu estou vivendo isso, desse jeito, nessa idade'' (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

Representatividade

O caminho estava traçado. Das leituras e interpretações, ainda criança, para a Faculdade de Artes Cênicas da Universidade de Brasília (UnB). Já atriz de ofício, em agosto de 2018, Tainá se viu diante de uma das “experiências mais incríveis” que viveu. Após protagonizar o curta-metragem À tona, exibido no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, no Short Film Corner do Festival de Cannes, na França, e em circuitos importantes do cinema nacional, como no Rio de Janeiro, a atriz chegou ao Festival de Cinema de Gramado, no Rio Grande do Sul, com a equipe do filme, para concorrer ao prêmio kikito por melhor curta-metragem.

Um filme protagonizado por uma mulher “negra, gorda, bissexual e artista”, como Tainá se coloca, não passou batido. “Não vi uma mulher negra lá. Só eu. E não precisei ganhar o prêmio, ou subir no palco depois da exibição. As pessoas vinham pedir autógrafo pra mim simplesmente por eu estar ali. Eu acho que uma mulher negra, protagonizando um filme, em um festival como o de Gramado, já é uma afronta. E que bom que eu estou vivendo isso, desse jeito, nessa idade. Eu gosto deste lugar aonde o trabalho me levou”, diz.

Igualdade

As vitórias, no entanto, não apagam as marcas da luta. A busca por oportunidade, no mundo da arte, não é cercada de glamour. Tainá reivindica seu espaço cotidianamente. “Ser atriz, negra, jovem, em Brasília, no Brasil, em 2019, é de matar. Todo dia. Não digo nem que é de morrer, porque já foi essa fase. É de matar agora”, diz a artista, ao se lembrar do esforço dobrado que tem de fazer nos testes para elenco, em relação a atrizes que não são negras. “Existem testes que são específicos pra mim. As oportunidades gerais são para outras profissionais. Então, é matando cachorro a grito. E eu vou matar.”

Segundo Tainá, as chances de participar em peças de teatro, filmes e séries televisivas são moldadas na forma do preconceito, que tem raízes fincadas na cultura brasileira. “O enredo é sempre sobre o mesmo. Não que a dor da pessoa negra não seja uma pauta. Tem que ser. Não que não tenha que ser abordada, discutida. Mas, na maioria das vezes que você vê uma mulher negra na televisão, é porque ela sofreu algo, racismo, abuso. E é legal também ter mulheres negras felizes, apaixonadas, sendo amadas, bem-sucedidas. Dá um gás. Porque, às vezes, você liga a TV e só vê aquilo. E sou eu, minha mãe, minha irmã, minha tia, minha vó, entende? Através do reconhecimento que acontece, você se sente mal. É só sofrimento, sabe? De sofrer, já basta a vida. Que a arte nos dê um respirar”, reivindica.

Consciência

Ao ser questionada sobre a importância de marcos, como o Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, a voz e a postura firmes da atriz encontram uma ternura típica de quem vive e evolui por meio da arte. “Consciência negra é dia a dia. É na troca de ideias, na militância. Mas estou vivendo uma fase de acreditar numa militância mais sutil. No boca a boca, no questionar. De a pessoa falar uma coisa racista e você perguntar ‘por que você está falando isso’?”, diz.

A jovem artista permanece em busca do amadurecimento que as diferenças proporcionam ao longo da vida. “Antes eu era muito do grito. Eu era toda da raiva. Hoje, estou tentando novas coisas porque, honestamente, quando resolvi bater de frente, quebrei a cara. Agora estou procurando trocar ideia. Pra mim, consciência negra vem do trocar ideia, vem da convivência. De você olhar para o racista e perguntar ‘tu acha mesmo que é mais inteligente que eu? Por quê?’ Pra mim, a consciência vem desse lugar.”

Especial

A série Histórias de consciência presta homenagem a mulheres e homens negros que ajudam a construir uma Brasília justa, tolerante e plural. Todos os perfis deste especial e outras matérias sobre o tema podem ser lidos no site www.correiobraziliense.com.br/ historiasdeconsciencia 
 
  
 

 

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