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Correio Braziliense

Alexandre Carlo, do Natiruts, usa a música para defender o que acredita

Músico não esconde as críticas sociais. Com uma trajetória de consciência, ele usa as canções que compõe para defender questões políticas


postado em 04/12/2019 06:00

"Eu não sei ir para o Congresso, não sei subir em palanque e falar como político. Procuro fazer a minha parte dentro do que é minha missão espiritual aqui na Terra, que é escrever músicas", defende (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Em meio às letras que acalmam e fazem uma multidão de fãs cantarem junto, estão posicionamentos políticos que incluem temas como a pobreza e o preconceito. As composições da banda brasiliense de reggae Natiruts colecionam prêmios e admiradores. Muitas delas nasceram da criatividade do vocalista, Alexandre Carlo, 45 anos. Além das melodias, ele usa as redes sociais para manifestar opiniões e críticas.

Brasiliense de família carioca, ele viveu até os 26 anos no Cruzeiro, desde que o pai assumiu um cargo no serviço público da nova capital, em 1960. Graças a isso, Alexandre pôde estudar em escolas particulares do Plano Piloto, onde percebeu que, em cada turma por que passava, no máximo dois estudantes eram negros. “Ali já dava para ver que alguma coisa estava estranha, que esse papo da meritocracia não existia, porque não é possível”, recorda.

Filho de pai negro e mãe branca, ele aprendia em casa a história de nomes como Mandela, Grande Otelo e Abdias do Nascimento. “Meu pai, além de falar sobre o racismo, ou seja, o mal que vem de fora para dentro, falava de debater os erros do negro para o próprio negro. Por exemplo, a interpretação do que é malandragem”, destaca. “Malandragem é estudar. A única forma de conseguir transpor essas barreiras é estudando.”

Dessa forma, Alexandre foi aprovado para a Universidade de Brasília (UnB), onde, por três anos, cursou ciência da computação. Em 1996, no entanto, a paixão pela música falou mais alto e nasceu a banda Nativus, que mais tarde se tornou a Natiruts. “Minha mãe diz que, desde pequeno, eu gostei de batucar.” Aos 12 anos, ganhou o primeiro violão e de lá para cá não parou. Apesar de gostar da maioria dos gêneros musicais, ele se encontrou no estilo de origem jamaicana. “No reggae, eu me sinto bem para compor e me emociono muito. É o que mais me emociona.”

Diante da condição social e econômica em que cresceu, Alexandre reconhece as oportunidades que teve. “Faço parte de uma minoria de negros que não passou pelo processo de sofrimento imposto pelo sistema por motivos históricos”, ressalta. Graças ao trabalho, que o permitiu tocar nas periferias de diversas cidades, pôde viver o choque de outras realidades, por meio das conversas com o público nos camarins dos shows. “Eles contavam histórias muito tristes, de pais que morreram em confronto com a polícia, mães que se tornaram dependentes de drogas. É um Brasil que a classe média está bem longe de conviver.”

Por situações como essa, ele refuta o conceito de meritocracia. “A nível Brasil, isso nunca existiu. A nível classe média, sim”, critica. “Meu pai teve oportunidade. Ele veio para Brasília e tinha vagas no funcionalismo público porque ninguém queria vir para o meio do cerrado. Se tivesse ficado no Rio, meu avô sendo cozinheiro da Aeronáutica, sem dúvida nenhuma, eu não teria essa chance”, pondera. “O discurso de só estudar não vale. Como? Vale para quem é da classe média, que era o meu caso. Para os miseráveis, não. São importantes os programas sociais de inclusão.”

Críticas

O músico nunca escondeu os ideais políticos e não dá atenção a quem diga que artistas não devem se posicionar. Uma das críticas dele é voltada ao novo presidente da Fundação Palmares, Sérgio Nascimento de Camargo, autor de declarações polêmicas, como a de que não existe racismo real e de que o Dia Nacional da Consciência Negra deveria ser abolido. “É muito mais fácil você, como negro, ficar do lado mais forte, e alguns assim escolhem. Digo o lado mais forte, porque tem mais recurso, mais dinheiro e agora está no poder. É o capitão do mato moderno”, dispara.

Para ele, o atual governo tem estimulado um aumento de discursos preconceituosos na população. “As pessoas são influenciáveis, então, quando você tem um líder que está fomentando esse tipo de coisa, naturalmente, muitas pessoas vão assimilar isso como verdade.” Apesar disso, ele não defende um impeachment do presidente. “Eu não votei no Bolsonaro e nunca, jamais votaria em político que fomenta o que ele fomenta. Mas se você perguntar ‘vamos dar um golpe e tirar o Bolsonaro porque ele é doido?’, eu digo não, porque a maioria da população brasileira assimilou esse discurso e votou.”

Alexandre critica ainda a falta de consciência social de algumas pessoas. “A classe média fica alicerçando o racismo, esse discurso fascista, essa coisa de privatizar. Eu sei porque convivi”, pontua. “Muitas pessoas da classe média acham que estão mais próximo do Lago Sul do que de Ceilândia. Economicamente, em termos de objetivos na vida, elas estão mais próximas do ceilandense, do que do bilionário, multimilionário do Lago Sul.”

Mudanças

Na canção Presente de um beija-flor, Alexandre canta “Eu vou surfar no céu azul de nuvens doidas da capital do meu país, para ver se esqueço da pobreza e violência, que deixa o meu povo infeliz.” Essa não é a única produção com cunho político. Apesar disso, ele acredita que apenas o voto é capaz de reais mudanças. “A música é importante, mas acaba que, no fim das contas, o músico que falou de alguma coisa vai vender, virar um hit, alimentar a indústria fonográfica, e o pessoal da periferia vai ficar por lá. Porque o político que poderia mudar isso está se lixando para o Renato Russo com Que país é esse.”

Ele defende que a população pense bem antes das eleições. “A mudança realmente vai ter que vir de uma autoanálise da própria periferia. Das pessoas que sofrem de fato com isso, e que não é a classe média brasileira.” Para ele, nomes como o da vereadora Marielle Franco precisam ser sempre lembrados na luta por igualdades. “Eu não sei ir para o Congresso, não sei subir em palanque e falar como político. Procuro fazer a minha parte dentro do que é minha missão espiritual aqui na Terra, que é escrever músicas”, afirma. “É triste. O racismo é uma doença, e os racistas são pessoas doentes e perigosas.”



A cultura e o folclore são meus
Mas os livros foi você quem escreveu
Quem garante que Palmares se entregou
Quem garante que Zumbi você matou
Perseguidos sem direitos nem escolas
Como podiam registrar as suas glórias?
Nossa memória foi contada por vocês
E é julgada verdadeira como a própria lei

(Trecho de Palmares 1999 - Natiruts)

Especial

A série Histórias de consciência presta homenagem a mulheres e homens negros que ajudam a construir uma Brasília justa, tolerante e plural. Todos os perfis deste especial e outras matérias sobre o tema podem ser lidos no site www.correiobraziliense.com.br/historiasdeconsciencia

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