Cidades

Acusado de matar Bernardo foi entrevistado pelo Correio em 1996

Paulo Roberto de Caldas, que confessou sequestrar e matar o filho, estava preso pelo assassinato da mãe e foi ouvido em série de matérias sobre crimes violentos: "Vi que a pessoa que eu estava matando era ela", confessou

Alan Rios
postado em 05/12/2019 07:28

[FOTO1];Uma tragédia sem explicação.; Foi assim que o Correio definiu o primeiro crime cometido por Paulo Roberto de Caldas Osório em reportagem publicada em 14 de março de 1992. O texto conta detalhes do assassinato cometido pelo então jovem de 18 anos. ;Eu não sei porque fiz isso;, disse, ao ser preso à época. Um dos pontos em aberto na investigação era o motivo do crime. Uma das explicações seria um possível trauma vivido naquele ano. A casa da família havia sido assaltada três vezes.

No último roubo, Paulo Roberto estava no quarto e ouviu os gritos da mãe. Quando correu na direção dela, viu um dos assaltantes com uma faca no pescoço de Neuza Maria Alves. Mãe e filho ficaram amarrados durante o crime. ;Ao analisar superficialmente os motivos que levaram Paulo Roberto a assassinar Neuza, os investigadores da 1; Delegacia de Polícia (Asa Sul) relacionaram o trauma do rapaz movido pelos assaltos em que fora vítima;, detalha a matéria.


O Correio aprofundou a história do assassinato e dos envolvidos em 1996, com série de reportagens sobre crimes violentos cometidos no Distrito Federal. O ex-repórter do jornal José Rezende Júnior foi escolhido para relembrar o caso. ;Os textos saíam aos domingos com casos que tinham marcado a cidade. O objetivo era reconstituir o crime, contar detalhes que não tinham sido relatados à época e ver como estava a vida das pessoas;, lembrou.

Rezende entrevistou Paulo Roberto naquele ano. ;Ele me disse que matou a mãe, mas também falou que gostava dos pais, que eles três assistiam à televisão juntos, faziam pipoca e tinham uma relação boa.; O jornalista consultou laudos psiquiátricos do acusado. Os documentos informavam que ele sofria de um distúrbio passivo agressivo e tinha personalidade ambivalente, além de tendência à solidão e ao isolamento.
Durante a entrevista, o comportamento era outro. ;Na conversa, ele parecia inteligente, simpático, tímido e franco. Não fugia de pergunta nenhuma, olhava nos olhos para responder;, revela. Quando a pergunta foi o motivo das facadas, ele não soube responder: ;Disse que nunca soube explicar, nem para ele mesmo;.
A matéria de Rezende foi lida e compartilhada por investigadores da Polícia Civil, quando houve a última prisão de Paulo, na segunda-feira (2/12). Com o título "O avesso de Édipo", ela detalha a personalidade do assassino confesso. "Não se vê nele nenhum traço evidente de loucura ou maldade. Pior assim. Sente saudade da mãe. Quando se lembra dela, a primeira imagem é sempre a mesma: uma mulher deitada numa poça de sangue. Depois, volta à infância, quando ela fazia bolo de chocolate e deixava que ele raspasse a massa do fundo da tigela", escreveu o jornalista.

Impacto

Nesta quarta-feira (4/12), após saber que Paulo Roberto havia matado o filho, Rezende ficou em choque. ;Foi muito impactante, porque fazer essa série foi doloroso, entrevistei vítimas que contavam sofrimentos. Então, tudo voltou à minha cabeça. À época, lembro que ele não foi condenado a uma pena específica, que ele ficaria preso enquanto fosse um perigo para a sociedade e só sairia com laudo médico. Em algum momento, foi considerado que ele não seria mais perigoso. Imagino que foi um exame minucioso, não dava para prever que ele seria ou não seria capaz de fazer isso de novo;, concluiu o jornalista.

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