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Correio Braziliense

Mãe reconhece objetos encontrados pela polícia como sendo de Bernardo

Polícia Civil da Bahia localiza cadáver infantil ao lado de cadeirinha em rodovia. Apesar de Tatiana Marques suspeitar de que o corpo seja de criança levada pelo pai, agentes de Brasília aguardam exame de DNA para confirmar a identidade


postado em 07/12/2019 07:00 / atualizado em 07/12/2019 08:21

A polícia encontrou corpo de criança ao lado de cadeirinha na BR-242, em um matagal (foto no alto). Suspeita-se de que cadáver seja de Bernardo, de 1 ano e 11 meses, sequestrado pelo pai em 29 de novembro(foto: Polícia Civil da Bahia/Divulgação)
A polícia encontrou corpo de criança ao lado de cadeirinha na BR-242, em um matagal (foto no alto). Suspeita-se de que cadáver seja de Bernardo, de 1 ano e 11 meses, sequestrado pelo pai em 29 de novembro (foto: Polícia Civil da Bahia/Divulgação)
“Acharam um corpo.” Assim, Tatiana da Silva Marques, 30 anos, mãe de Bernardo da Silva Marques, informou aos familiares que o cadáver encontrado na Bahia poderia ser do filho, de 1 ano de 11 meses. Pouco antes, ela havia recebido uma ligação da Polícia Civil baiana, questionando-a sobre possíveis objetos pessoais e roupas do filho. O cordão de âmbar no pescoço, a calça azul listrada e a blusa de manga longa foram determinantes para a advogada identificar o filho. “Acredito em Deus. Se Ele levou meu filho é porque o Bernardo tinha um propósito na Terra. Agora ele pode ser um anjo. O meu bebê pode ter vindo para parar o pai, impedir que o Paulo fizesse algo ainda pior no futuro”, disse.

Paulo Roberto de Caldas Osório, 45 anos, pai do menino, está preso no Distrito Federal. Ele confessou o assassinato de Bernardo e disse à polícia que o matou para se vingar da ex-mulher e da ex-sogra. A criança estava desaparecida desde 29 de novembro. Capturado, o servidor público da Companhia do Metropolitano do DF (Metrô/DF) deu detalhes do crime, mas indicou a localização errada do corpo aos investigadores da Divisão de Repressão ao Sequestro (DRS) — ele havia dito que abandonou o cadáver de Bernardo na BR-020, na divisa de Goiás com a Bahia. E o corpo recolhido às 15h de quinta-feira encontrava-se em Palmeiras (BA), às margens da BR-242. O menino estava ao lado de uma cadeirinha.
 
Ver galeria . 6 Fotos Arquivo pessoal
(foto: Arquivo pessoal )
 

Por causa do estado de decomposição, não foi possível confirmar visualmente a identidade. O corpo passou por necropsia no Departamento de Polícia Técnica (DPT) de Itaberaba (BA) e será submetido a exame de DNA. O laudo deve ficar pronto em até 30 dias. Uma tia-avó de Bernardo viajou nesta sexta-feira (6/12) para identificar o corpo. No entanto, a Polícia Civil do Distrito Federal informou que ela não conseguiu reconhecer o garoto. “A identificação deverá ser realizada por meio de outros exames, como o DNA. No momento, não é possível afirmar que se trata do cadáver da criança ocultado pelo pai”, explicou a corporação, em nota oficial. O delegado Leandro Ritt, titular da DRS, havia dito na quinta-feira que Bernardo estava morto.
 
 

A mãe entrou em estado de choque com a informação do corpo encontrado na Bahia. Tatiana viveu sete dias de terror entre a data do sequestro do filho e a possível confirmação da morte. Nesse tempo, ela manteve a esperança de encontrar o garoto com vida. “Eu tinha medo de ele ficar jogado por aí, vivendo como se fosse um animal. Pelo menos com essa confirmação ele vai ter um descanso”, disse.

Violência doméstica

Integrante do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (CFemea), Priscila Brito explica que, além de homicídio triplamente qualificado e ocultação de cadáver — crimes pelos quais Paulo deve responder — o caso configura violência doméstica. Embora não tenha havido agressão física contra a mulher, houve psicológica. “Além disso, a violência doméstica ocorre quando é contra toda a família, como aconteceu nessa história com a criança. Tanto que quando uma mulher luta por medidas protetivas para afastar o agressor, o filho também é encaminhado para um abrigo”, explicou.
 
 

A especialista ressalta que o debate constante sobre feminicídio mostra que a violência não se encerra com o ato e atinge todo o núcleo familiar. Segundo Priscila, além da agressão física, outras são consideradas violência doméstica, como a psicológica, a patrimonial e a verbal. “Todas elas atingem a família de uma certa forma, não só quem foi alvo daquilo”, analisa.
 

Memória

Remédio em suco de uva

Em 29 de novembro, Paulo de Caldas Osório buscou Bernardo, de carro, em uma creche na 906 Sul. A caminho de casa, deu um suco de uva para a criança com três pílulas de remédio de uso controlado, diluído à bebida. À noite, eles chegaram à residência dele, na 712 Sul. Devido à medicação, o menino começou a vomitar. O pai deu um banho na criança e, assim que adormeceu, a colocou dentro do veículo novamente.

Por volta das 20h30, Paulo mandou uma mensagem para a mãe do mesmo dizendo que seguiam rumo à casa dela, no Lago Sul. No entanto, eles estavam a caminho da Bahia. Durante a viagem, o metroviário parou na BR-020 para abastecer o veículo e percebeu que o filho estava morto. À polícia, Paulo Roberto disse que encheu o tanque, seguiu pela mesma rodovia até encontrar uma área rural e jogou o corpo do filho, com a cadeirinha.

Investigadores da Polícia Civil da Bahia, no entanto, localizaram o corpo de uma criança, provavelmente de Bernardo, na BR-242, em Palmeiras (BA) — a cidade fica depois de Luís Eduardo Magalhães (BA), onde o funcionário público informou ter chegado na madrugada de 29 de novembro.

Na manhã de 30 de novembro, Paulo Roberto seguiu para Salvador (BA), onde chegou à noite. Em 1º de dezembro, voltou pra Brasília. No trajeto, foi abordado pela Polícia Rodoviária Federal, mas conseguiu fugir e escondeu-se em um hotel de Alagoinhas (BA). A abordagem policial ocorreu após uma denúncia feita por Tatiana sobre o desaparecimento do filho e com detalhes do veículo do ex-namorado.

Na manhã de 2 de dezembro, agentes da Divisão de Repressão ao Sequestro (DRS) chegaram ao hotel de Alagoinhas e prenderam Paulo no quarto. À polícia, ele disse que o filho ficou em uma área rural na estrada. Horas depois, o servidor chegou à Brasília e confessou o crime aos investigadores. Durante as investigações, a Polícia Civil divulgou que Paulo Osório cometeu outro crime, em 1992. Ele foi condenado por matar a própria mãe a facadas. Cumpriu 10 anos de reclusão em uma ala psiquiátrica no Centro de Internamento e Reeducação (CIR), no Complexo Penitenciário da Papuda.
 
 

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