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Correio Braziliense

Colegas lamentam perda e lembram a coragem do jornalista Ronaldo Junqueira

Ex-diretor de Redação do Correio e fundador do Jornal da Comunidade, Ronaldo Junqueira morreu nesta segunda-feira (9/12), aos 72 anos. Colegas lembram a generosidade e a ousadia ao enfrentar a ditadura


postado em 10/12/2019 06:00

Há anos, Junqueira lutava contra problemas neurológicos, diabetes e hipertensão. Ele deixa quatro filhos(foto: Rafael Ohana/CB/D.A Press)
Há anos, Junqueira lutava contra problemas neurológicos, diabetes e hipertensão. Ele deixa quatro filhos (foto: Rafael Ohana/CB/D.A Press)
Admirável, executivo feroz, ímpar e contraditório. Essas são algumas das descrições que pessoas próximas a Ronaldo Junqueira atribuem ao jornalista, empresário e ex-diretor de redação do Correio, que faleceu, na manhã desta segunda-feira (9/12), em Brasília, após anos de luta contra problemas neurológicos, diabetes e hipertensão.

A figura marcante tinha um lastro que ultrapassava os limites da redação e despertava o respeito nas mais altas posições da República. “Era admirado, respeitado e temido por governadores e presidentes que passaram”, conta o melhor amigo e companheiro de jornalismo Marco Aurélio Nunes Pereira.

Nascido em 13 de julho de 1947, em Buriti Alegre (GO), Ronaldo Junqueira alcançou a admiração de personalidades como os ex-presidentes José Sarney, Fernando Collor de Mello e Fernando Henrique Cardoso. “Ele fez uma carreira extraordinária. Era uma pessoa ímpar. Fez grandes amigos e também cultivou alguns inimigos poderosos, porque tinha a pena e a caneta, emplacados como jornalista”, lembra Pereira.

Collor disse "lamentar profundamente o falecimento" de Junqueira. "Jornalista exemplar e bom amigo. Minhas condolências aos familiares, extensivas a todos que privaram de sua existência", afirma o ex-presidente.

Em 1962, Ronaldo Junqueira dava os primeiros passos na política estudantil, no Distrito Federal. Depois, ingressou no jornalismo, já no período militar, em 1967. Começou como repórter no jornal Última Hora, do Rio de Janeiro, com sucursal em Brasília. Em seguida, passou pelo Diário de Brasília e, no fim da década de 1970, chegou ao Correio, trazido pelo diretor de redação à época, Evandro de Oliveira Bastos.

Em 1982, com a saída de Oliveira Bastos da direção, Junqueira assume a diretoria de jornalismo do Correio. “Era uma pessoa admirável sob o ponto de vista da sua inteligência e da sua capacidade. Sempre se dedicou de corpo e alma ao jornalismo e, em Brasília, certamente foi o jornalista mais conhecido e combativo que a cidade conheceu. Na capital, ninguém teve mais informação de bastidor que ele. Ele conhecia e interpretava a alma das pessoas”, conta Marco Aurélio, secretário de redação e editor de economia do Correio na década de 1970. “Era um intelectual. De quase todas as coisas, ele tinha sempre uma referência”, lembra, saudoso.

Segundo os amigos, Junqueira é o exemplo de que a postura firme e a humanidade podem conviver numa mesma pessoa. “Foi um dos primeiros amigos que fiz aqui. Cheguei a Brasília quase exilado. Não tinha possibilidade de ter emprego porque era perseguido pelos militares. Ronaldo me acolheu da melhor forma possível”, conta o jornalista Marco Antônio Pontes, 78 anos.

Pontes trabalhou com Junqueira no Correio, de 1979 a 1981. Durante o período, e ao longo da vida, viu de perto a contradição entre o arrojo do empreendedor e o amigo leal. “Era uma pessoa bastante contraditória. Muito plural. Empreendedor e jornalista. Tinha opiniões políticas firmes e, ao mesmo tempo, era extremamente generoso. Assim como me ajudou, o vi ajudando muita gente. Às vezes, fazendo isso anonimamente para que a pessoa não ficasse constrangida com o dever da gratidão.”

O outro lado da contradição era habilidoso. Na década de 1980, marcou época no jornalismo, enquanto dirigia o Correio. Trouxe jornalistas como Gilberto Dimenstein e Josias de Souza para trabalharem no jornal. Mas uma cartada chamou ainda mais atenção. Com Evandro de Oliveira Bastos, Junqueira foi responsável pela chegada do cineasta Glauber Rocha ao jornal. “Era muito sofisticado. Um executivo feroz. Trabalhava o tempo todo. Não era um santo. Mas foi um cara que respeitou a redação. A gente tinha uma grande liberdade de trabalho pra fazer as coisas mais incríveis possíveis. A redação era livre”, lembra o jornalista Renato Riella, 70 anos, editor do Correio, na década de 1980. “Era uma alegria absurda o jornal. Ronaldo nos proporcionou o momento mais romântico do jornalismo, em Brasília. E não fazia parte do estilo dele porque ele era mais sóbrio”, afirma Riella.

Se a sutileza do amparo caminhava lado a lado com a destreza nos negócios, o companheirismo e os princípios da liberdade de imprensa davam o tom na redação, em plena ditadura militar. O assassinato do repórter Mário Eugênio pela repressão, em 11 de novembro de 1984, fez com que Ronaldo Junqueira fosse corajoso o suficiente para bancar a apuração do caso, em meio às ameaças do Estado.

Mário Eugênio foi morto enquanto investigava casos de extermínio realizados por integrantes do Pelotão de Investigações Criminais do Exército (PIC) e por policiais civis. “Foram tempos de terror. A gente saía juntos da redação pra não ser morto. Durante sete meses, a gente brigou com a cúpula da Polícia Civil e com o PIC”, rememora Renato Riella.

A execução de Mário Eugênio fez com que jornalistas do Correio dessem prosseguimento ao trabalho do companheiro de redação e apurassem o assassinato do repórter, respaldados pela bravura de Ronaldo Junqueira. “Ele tinha muita coragem de fazer as coisas. Como diretor de redação, permitiu que uma equipe de jornalista apurasse a história. A gente só conseguiu, em plena ditadura, graças à coragem do Ronaldo. Ele foi fundamental porque bancou essa operação, que resultou no esclarecimento do crime e na prisão dos criminosos”, explica Riella.

O material produzido sobre o esquadrão da morte rendeu o Prêmio Esso Nacional de Jornalismo ao veículo. “O enfrentamento foi coletivo. Mas o fato de você ter um diretor que apoiava foi muito importante. As ameaças contra a equipe foram absurdas. Perseguições, telefones, visitas à redação. A gente enfrentou uma pressão absurda e ele nos dava cobertura. A morte de Mário nos levou a ser até irresponsáveis. Mas foi importante e deu uma projeção imensa ao jornal”, diz Renato Riella ao lembrar o posicionamento firme de Junqueira sobre a continuidade da apuração sobre o caso.

Já no início da década de 1990, após sair do Correio, fundou o jornal BSB Brasil e, posteriormente, o Jornal da Comunidade. O semanário era distribuído gratuitamente aos domingos e se fortaleceu ao longo da década. No fim dos anos 1990, passou a circular também às quintas. No início dos anos 2000, o empresário fundou o Jornal Coletivo.

Os negócios foram mantidos até 2015, quando a saúde ficou abalada. Em 2016, sofreu uma crise de hidrocefalia, em função do diabetes. Há cerca de quatro anos, Ronaldo Junqueira deu início à luta contra um processo degenerativo, em função de problemas neurológicos. Hipertenso, teve uma piora de seu quadro, nos últimos dois meses, em virtude de uma série de infecções.

Durante a última internação, a situação se agravou e evoluiu para um quadro de infecção generalizada. Nos últimos dias, Ronaldo era tratado e observado em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), mas não resistiu e faleceu, na manhã desta segunda-feira (9/12).

Ele deixa quatro filhos: três homens e uma menina. Um deles, Pedro Junqueira, lembra-se da dedicação do pai ao ofício. “Foi uma pessoa que sempre se dedicou muito ao trabalho. Sempre quis ter o negócio dele. Desde muito novo, participou de grêmio estudantil, de mobilizações e tinha muito envolvimento com a política. Ousadia sempre foi a palavra. Ele deixa, para nós, uma lição muito bacana sobre como se dedicar a uma profissão e como ser uma pessoa com visão empreendedora. Sempre foi um marco dele”, pontua Pedro.

O velório de Ronaldo Junqueira será na quinta-feira, no cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul.

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