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Correio Braziliense

Subsecretário afirma que há estruturas ''por desabar'' na 709/909 Sul

Autoridade explica que barreira de contenção erguida na construção de centro clínico não tinha altura suficiente para segurar grande volume de chuva. Os quatro carros engolidos pela cratera aberta na 709/909 são retirados


postado em 12/12/2019 06:00

Um guincho auxiliou a retirada dos veículos que caíram na cratera: risco de aumentar o buraco caso caia outra chuva forte(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Um guincho auxiliou a retirada dos veículos que caíram na cratera: risco de aumentar o buraco caso caia outra chuva forte (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Após o susto, as ações. Os quatro carros engolidos por um deslizamento em obra da Asa Sul foram retirados da cratera nesta quarta-feira (11/12), e os danos começaram a ser calculados. Com o auxílio de um guincho, os veículos subiram por uma espécie de rampa de lama, construída para facilitar o içamento. Tiago Carvalho, 33 anos, teve o carro retirado do buraco. “Achei que os danos seriam bem piores. Agora, vamos fazer a avaliação pelo seguro e com a empresa (construtora responsável pela obra) e aguardar. A companhia nos forneceu um veículo provisório, que ajuda. Fica só o susto e a história”, afirma.

Mas quem mora ou trabalha na região da 709/909 Sul se preocupa com o risco de a cratera aumentar caso caia outra chuva intensa. A previsão do tempo alerta para fortes precipitações nos próximos dias. Para resguardar quem passa pelo local e quem teme outro desastre, representantes da Defesa Civil e do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea) discutem o motivo para o acidente de terça-feira. O Crea defende que a obra tomou todos os cuidados técnicos necessários, avaliando que e o caso tenha sido uma fatalidade. Técnicos da Defesa Civil, no entanto, entendem que os engenheiros podem ter deixado de analisar impactos relevantes de fatores externos, como a chuva.

“É interessante observar que não houve rompimento de rede de esgoto ou de água no Plano Piloto em nenhum outro lugar após aquela forte precipitação. Isso só ocorreu em uma obra que estava, de certa forma, desprotegida e com necessidade de contenção”, alegou o subsecretário do Sistema de Defesa Civil, coronel Sérgio Bezerra. Segundo ele, houve falha entre o planejamento e a execução da construção do centro clínico, pois a barreira de contenção não tinha altura suficiente para segurar grande volume de chuva. “Qualquer tipo de construção tem de considerar todas as variáveis. Trânsito que passa perto do local, peso dos veículos, fluxo da água da chuva. Tudo isso tem de ser levado em conta para a criação da parede de contenção a fim de evitar um deslizamento como esse”, ressaltou Sérgio.

Ele acrescentou que, com a força da água, combinada com terra fofa e úmida, a parte do solo que sustentava a tubulação de drenagem deslizou, tirou o apoio dos canos e pode ter impactado para o rompimento da estrutura. “A água tem poder de escavação e acabou comprometendo a estrutura de sustentação”, completou. 

No entanto, só a perícia da Polícia Civil determinará as causas do deslizamento. O laudo ficará pronto em até 30 dias. Até lá, há chance de que cedam mais partes do asfalto ao redor da cratera. “Tem estruturas ali que estão por desabar. É necessário o compromisso da empresa para começar a recuperação imediata. Vai cair mais chuva, vai infiltrar a água na escavação. Eles vão trazer bombas para ficar aí à disposição e retirar essa água”, explicou o subsecretário.
 
Ver galeria . 10 Fotos Carlos Vieira/ DA Press
(foto: Carlos Vieira/ DA Press )
 

Rompimento

No momento, não há riscos estruturais nas edificações vizinhas à cratera, segundo a Defesa Civil. No entanto, comerciantes estão apreensivos. As aulas na Cultura Inglesa, prédio ao lado da obra, tiveram impacto apenas no período da manhã. “Seguimos a recomendação governamental e só abrimos às 8h, após a verificação técnica. As quatro turmas que temos no turno matutino foram transferidas para quinta-feira (hoje), e as atividades no período da tarde e da noite seguiram normalmente”, detalhou o professor Pedro Bueno, 25 anos. Ainda assim, existe preocupação quanto a novo deslizamento.
 
O farmacêutico José Antônio Gontijo, 55, conta que trabalha com receio no edifício ao lado do acidente. “A gente fica apreensivo. Abrimos a loja após a liberação da Defesa Civil, mas estamos em alerta. Qualquer sinal de abalo ou se não sentirmos segurança de ficar no prédio, vamos fechar a loja”, relatou Gontijo.

A esteticista Adelaide Roque, 45, cancelou a agenda com os clientes hoje. “Tive que fazer isso por prudência, até para preservar os clientes. Não sinto segurança aqui no prédio; então, preferi remarcar”, contou Adelaide, que presenciou o desabamento. “Foi um susto enorme. Fiquei nervosa. O meu primeiro pensamento foi se alguém tinha se machucado”, lembrou. Ela é dona de um estúdio de estética e não sabia se trabalharia nesta quinta-feira.

Na tarde de ontem, equipes da Companhia de Saneamento Ambiental do DF (Caesb) trabalhavam no local para interromper a ligação da rede de esgoto. A tubulação de águas pluviais também foi desviada para evitar complicações na recuperação do buraco. Equipes da D&B Construtora e Incorporadora, responsável pela obra, iniciaram a contenção. Em nota, a empresa informou que “está providenciando laudos periciais para investigar o motivo do deslizamento” e que os quatro proprietários de veículos atingidos “foram devidamente assistidos”. Por fim, ressaltou que nenhum dos prédios vizinhos foi afetado e que a construção se encontra em situação regular.

A presidente do Crea, Fátima Có, comunicou que o conselho realizou uma fiscalização na obra e verificou que ela cumpriu todo o rito legal. “Não há nada para falarmos que seja uma imperícia profissional. Existiu um fator externo que deve ter contribuído para o desabamento. Estamos sabendo que, devido à chuva, houve um rompimento, talvez, na rede de águas pluviais”, adiantou, ressaltando que a precisão do que houve será analisada no laudo da Polícia Civil.

A construção obteve registro no Crea em agosto de 2018. Porém, durante as obras, percebeu-se a presença de uma rede da Caesb. “Essas interferências foram desviadas para haver a escavação e acabaram sendo colocadas atrás da contenção. Devido à chuva, houve o rompimento, e a água encharcou a parede de contenção, que cedeu.” Para ela, é irresponsabilidade apontar culpados antes do resultado da perícia.

Previsão do tempo

Olívio Bahia, meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), prevê que o Distrito Federal terá chuvas fortes e período de instabilidade até sexta-feira. “Não podemos precisar exatamente onde a chuva vai cair com mais intensidade, mas estamos em estado de alerta de chuva forte em toda a área, inclusive no Plano Piloto”, explicou. Segundo Olívio, a expectativa é de que, a partir de sábado, as precipitações diminuam, deixando o clima estável. “As temperaturas podem subir, e existe a possibilidade de uma semana de estiagem”, aponta.

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