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Correio Braziliense

Feminicídio: Parentes de vítimas e sobreviventes relatam a luta e a dor

O ano termina com mais de 30 vítimas de feminicídio na capital federal. Escancarada em relatos de parentes dessas mulheres - além de histórias de sobreviventes -, a realidade cobra, mais do que nunca, soluções inadiáveis


postado em 15/12/2019 06:02 / atualizado em 16/12/2019 16:48

(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
 
Estupradas, violentadas e assassinadas: a contagem aumenta a cada dia no Brasil e no mundo. Neste ano, o Distrito Federal bateu um triste recorde. Até agora, 32 mulheres morreram vítimas de feminicídio — assassinato por menosprezo à condição de sexo feminino. Além delas, 201 sofreram estupros, e 13.243, violência no contexto familiar. Os números levam em conta apenas casos registrados oficialmente e no período de janeiro a outubro de 2019. 

Os registros revelam, principalmente, duas características em comum: humilhação e silenciamento das vítimas. Resumi-las a números não é o bastante. Franciscas, Marias, Renatas, Talitas tiveram as vidas interrompidas por algozes. Entre os suspeitos de cometer feminicídios registrados neste ano no DF, cinco estão foragidos. Às famílias, resta a sensação de impotência e a cobrança por justiça.

O Correio ouviu histórias de parentes de vítimas de feminicídio e de mulheres que sobreviveram à violência doméstica. Os casos se repetem por semanas, meses e décadas. Em alguns, falta coragem para denunciar o agressor. Em outros, a queixa não foi suficiente para pará-los. Os relatos de quem viveu esse sofrimento de perto deixou marcas em quem se foi e em quem ficou. Diante desse cenário, apenas um apelo resiste: basta!

Mapa com dados sobre os casos de feminicídio no DF em 2019, imagens dos foragidos e onde denunciar:



“Não pode ter vergonha nem medo”


“Quem está de fora não entende. Fala que apanhamos porque queremos. Ainda há muito preconceito, pois não sabem como é a situação”, lamenta Carolina**, 35 anos. Por uma década, a auxiliar administrativa sofreu agressões do ex-marido, Pedro**. Dependente de crack, ele se tornava mais violento sob efeito da droga. A primeira agressão aconteceu um ano depois do nascimento do filho do casal — hoje, um menino de 10 anos. Pedro trancou os três em casa e ligou o gás do fogão. Carolina pediu ajuda à sogra, mas, enquanto o socorro não chegava, o companheiro a enforcava.
 
A violência não foi só física. Pedro proibia Carolina de ver qualquer pessoa, inclusive familiares. “Ele tinha ciúmes até do meu irmão e do meu pai. Ninguém podia me visitar. Falava que, se ele não estivesse em casa, homem nenhum poderia entrar”, conta. O pai dela buscou apoio do Conselho Tutelar, mas a denúncia não seguiu adiante.

Trabalhar ficou difícil. Críticas frequentes do então marido faziam com que Carolina trocasse de emprego inúmeras vezes. Cansada da rotina de violência, ela tentou se separar, em 2011, e se mudou para a casa da mãe. O agressor convidou a ex-mulher para uma conversa, na intenção de reatar, mas ela não queria. Revoltado, Pedro a esfaqueou cinco vezes. Mesmo depois do ataque, Carolina voltou a viver com o marido. “A gente tem esperança, acha que a pessoa vai mudar”, diz. O Ministério Público o denunciou, mas o caso só foi julgado em 2019. Apesar de condenado a 8 anos e 3 meses de prisão, ele recorre da sentença em liberdade.

Em 2017, ela decidiu se separar ao sofrer ameaça com faca e arma de fogo. Ela denunciou Pedro pela primeira vez, pelo Ligue 180 e na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher; buscou os pertences na casa que dividiam e rompeu todo o vínculo entre eles. Formada em direito, Carolina mora com o filho e escreve um livro sobre a própria história, na expectativa de que a obra ajude outras mulheres. “Quem passa por isso tem de denunciar. Não pode ter vergonha nem medo”, encoraja.

(foto: Minervino Júnior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Júnior/CB/D.A Press)

“Ainda não consigo acreditar”


Dois dias antes de o motoboy Maciel Luiz Coutinho da Silva, 38 anos, matar a ex-mulher Jacqueline dos Santos, 39, uma das quatro irmãs da vítima teve um mau pressentimento. “O Maciel estava bastante violento. Veio até a minha casa ameaçá-la. Comecei a temer pelo pior”, conta a copeira Tatiane Cristina dos Santos, 37. Moradora de Santa Maria e vizinha da vítima, ela teve uma parte de si arrancada naquele 6 de maio.

Antes, Jacqueline havia registrado duas ocorrências de violência doméstica contra o ex-marido. Na primeira delas, em março, relatou que ele não aceitava o fim do relacionamento. A Justiça concedeu a medida protetiva, mas a vítima voltou atrás e pediu revogação das medidas.

Durante os 25 anos de relacionamento do casal, Tatiane não percebia sinais de agressão. Mas em 2019 Jacqueline pediu socorro. “Na primeira vez em que fomos à delegacia, ela me disse que estava apanhando muito. Depois da denúncia, ficamos juntas lá em casa, com os três filhos dela. 

Mas o Maciel a convenceu a retomar o relacionamento”, relata a irmã.

Mesmo com a promessa de mudança, Maciel não se tornou menos violento. Em abril, Jacqueline mudou-se para uma quitinete. No dia 26, porém, ela e a irmã voltaram à delegacia para pedir ajuda: o agressor havia aparecido no novo endereço. A vítima pediu medidas protetivas mais uma vez.

Na manhã do crime, Maciel perseguiu a ex-mulher. “Ele passou na quitinete e tentou levar as crianças, mas a moça que cuidava delas não deixou. Quando a Jacque voltou do trabalho, os meninos estavam na escola. Vizinhos viram Maciel pular o portão e entrar no imóvel. Muita gente escutou a gritaria e os pedidos de socorro”, detalha Tatiane.

Maciel esfaqueou a vítima, pulou o portão novamente e fugiu de moto. Pouco depois, na BR-040, ele se jogou em frente a um ônibus e morreu. No bolso da calça que Jacqueline usava, encontraram as medidas protetivas. “Ainda não consigo acreditar. A partir da primeira denúncia, deveriam ter prendido ele. Isso não teria acontecido”, lamenta Tatiane.

(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

“A minha irmã não era de ficar calada”


Quase três meses após a morte da vendedora Adriana Maria de Almeida, 29 anos, ainda não há sinal do autor do crime. Em 29 de setembro, o marido dela, o motorista de transporte pirata Wellington de Sousa Lopes, 37, a matou na casa onde moravam, no Riacho Fundo 1. O casal estava junto havia seis anos. Familiares encontraram o corpo da vendedora 10 horas depois. Ela recebeu 32 golpes de peixeira.

Visto pela última vez em imagens de câmeras de segurança da região, Wellington colocou uma mala no bagageiro do carro e fugiu. Desde então, segue foragido. Há um mandado de prisão preventiva em aberto contra o suspeito. O caso é investigado pela 29ª Delegacia de 
Polícia (Riacho Fundo).

Cansados da falta de respostas, parentes de Adriana pedem informações nas redes sociais. 

A filha do casal, uma menina de 4 anos, faz acompanhamento psicológico semanalmente. Depois do crime, a guarda da criança ficou com a irmã mais velha da vítima, Ana Lúcia Almeida, 38. A administradora apoia-se na fé para lidar com a situação. “A gente tem de se apegar a Deus, pois tem sido muito difícil”, admite. 

“Nunca imaginamos que ele fosse capaz de tanta maldade”


Irmã caçula de Adriana, a recepcionista Soraia Almeida, 25, lembra do ciúme excessivo de Wellington: “Normalmente, ele buscava a Adriana no trabalho, mas, às vezes, ligava dizendo que não poderia. No ônibus, voltando para casa, ela via que ele estava sentado no fundo, observando se ela não estava com outra pessoa”. Há quatro anos, o motorista deu um tapa na vendedora. “A minha irmã não era de ficar calada. Ela foi à delegacia, e ele ficou preso. Mas um primo pagou fiança, e ele voltou para casa”, recorda-se.

Soraia conta que a sobrinha não compreende o que houve. “Falamos que a mãe dela foi morar no céu. E ela (a menina) pergunta por que (a mãe) não a levou”, lamenta. “Como ela gostava muito do pai, a gente tem medo de ele aparecer, e ela ir com ele numa boa, por não saber o que ele fez.”

(foto: Minervino Júnior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Júnior/CB/D.A Press)

“Eu simplesmente suportava”


Advogada e especialista em violência intrafamiliar, Patrícia Zapponi, 46 anos, viveu momentos de terror ao lado do ex-marido. Ela e Daniel**, funcionário de alto cargo na Câmara Legislativa, casaram-se em 2006. A união durou oito anos. “Ele era uma pessoa amiga, cordial, compreensiva e ajudava a todos. Isso me atraiu muito”, conta a brasiliense.

O então companheiro de Patrícia aproveitou-se da profissão da então companheira. “Sempre gostei de estudar, trabalhar e ser independente. Isso o incomodava. Alcançou um nível em que eu produzia todo o trabalho na área de advocacia e ele só assinava, para se vangloriar. À época, eu não tinha noção de que isso se tratava de um tipo de agressão. Eu simplesmente suportava”, relata.

Daniel também dava sinais de que, a qualquer momento, poderia atacá-la. “Ele me xingava e me humilhava na frente de outras pessoas. Todos notaram a mudança de comportamento dele”, acrescenta Patrícia. Daniel passou a controlar os passos da então mulher. Contratou um motorista para levá-la aos lugares — o funcionário era obrigado a elaborar um relatório dos destinos. “A coragem para romper o casamento veio depois que ele me enforcou. Eu estava com vários amigos na sala, conversando e publiquei uma foto em uma rede social com o Daniel. A mãe de uma amante dele viu e ligou reclamando. Ele veio com fúria para cima de mim, me enforcou e eu caí. Na queda, fraturei a perna. Tenho problemas no tendão até hoje por causa disso”, afirma.

No dia da agressão, a advogada procurou a Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam) e prestou queixa contra o marido. Os dois se separaram, mas as perseguições continuaram. “Ele pagou pessoas para me difamar. Contratou um adolescente para gritar na minha varanda, me xingando.” Patrícia superou o trauma criando uma rede de apoio para vítimas de violência doméstica. Hoje, ela ministra palestras sobre o tema. “O machismo está dentro de nossa cultura, e precisamos melhorar esse quadro. 

É preciso unir e orientar as mulheres sobre a capacidade e o valor delas”, destaca.


"Fui xingada de vagabunda, piranha”


Aos 21 anos, Amanda** conheceu Vinícius** pelo Facebook. Era 2016. Da troca de mensagens, nasceu a amizade. Pouco depois, o amor. Não demorou muito para os dois dividirem o mesmo teto. “Percebi que tínhamos alguns pontos em comum. Ele era divertido, carinhoso e alegre. Fiquei apaixonada”, recorda-se. Em poucos meses, no entanto, tudo mudou. Vinicius demonstrava agressividade e ciúme excessivo. “Uma vez, elogiei um amigo, e ele surtou. Fui xingada de vagabunda, piranha”, conta.

As agressões pioraram. Um dia, quando Amanda estava na casa com uma amiga, Vinícius chegou bêbado. “Ele tinha me chamado para conversar, e eu disse que iria depois. Do nada, ele começou a quebrar os móveis e a me xingar. A minha amiga e eu fomos para a garagem e nos escondemos atrás de um carro. Pedi ajuda a uma vizinha, mas ela disse que não se meteria”, lamenta. “Eu não conhecia esse lado dele.”

O relacionamento continuou por mais dois anos. Amanda tinha esperanças de que Vinícius mudaria, pois ela tinha poucas pessoas com quem contar no Distrito Federal. “A minha família mora em Teresina (PI). Eu não tinha nenhum parente aqui para me dar forças. Recorri a um amigo, que me ajudou e me encorajou a sair disso. A gota d’água para eu terminar o namoro foi quando ele (Vinícius) me enforcou após eu ter falado que queria romper. Ele apertava o meu pescoço enquanto afundava meu rosto na cama”, detalha.

Depois disso, a jovem deixou o Riacho Fundo 1 e se mudou para outra cidade. “Ninguém sabe onde estou morando, exceto amigos íntimos. Ainda sinto medo de ele (Vinícius) fazer algo.” Sem coragem de prestar queixa, Amanda se distanciou. “Afastei-me. E nunca mais quero vê-lo”, destaca.

“Ele me enforcou contra a parede”


O desfecho do relacionamento conflituoso de Ana Paula**, 29 anos, ocorreu só em 2019, na Justiça. Há cinco anos, ela viu, gradativamente, o carinho dar lugar ao ódio. Nas brigas com o ex-companheiro Samuel**, viveu humilhações frequentes. “Elas tinham um teor de desmerecimento intelectual para fazer eu me sentir burra”, relata Ana Paula. Após os primeiros meses de namoro, Samuel fez um intercâmbio na Holanda. Nas férias, a estudante passou três meses no país europeu.

Controlador e possessivo, Samuel a agrediu nos últimos dias da viagem. “Fiquei assustada, a ponto de ter uma crise de pânico. Ele me imobilizou e me bateu sem parar. Depois, me arrastou escada abaixo”, detalha. Presa no apartamento — um flat de dois pavimentos —, ela cogitou pular da janela, mas acabou puxada de volta pelo ex. A jovem desvencilhou-se, correu, trancou-se no banheiro e mandou mensagem para a sogra. Ele conseguiu arrombar a porta e só parou as agressões quando a mãe ligou.

Ana Paula escapou em seguida. De volta ao Brasil, ela recebeu mensagens de desculpas. “Ele prometeu que faria tratamento psicológico e, depois de muitos argumentos e tentativas de retorno, cedi.” Os dois moraram juntos, mas a violência de Samuel reapareceu. “Ele voltou a me agredir verbalmente, até um dia me bater de novo. Começou a me cercar e, quando o empurrei, ele me acertou no rosto e me enforcou contra a parede.”

Ela gravou áudios da briga e os enviou para um colega da Polícia Federal, que chegou minutos depois e chamou a Polícia Militar. Quatro horas mais tarde, um carro da corporação apareceu. Desencorajada a denunciar e zombada pelos PMs, a vítima saiu frustrada da delegacia. O casal terminou e, durante três anos, Ana Paula lidou com injúria e chantagem emocional. Processada pelo agressor por difamação, em 2018, ela provou que Samuel era culpado. Após acordo, a Justiça o proibiu de se aproximar. “Foi muito difícil passar por tudo isso. Se eu puder dar uma dica para as vítimas de agressão, é: nunca apaguem nada que prove a violência sofrida”, aconselha.

* Estagiária sob supervisão de Guilherme Goulart     
** Nomes fictícios 

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