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Correio Braziliense

Anjos do Natal: conheça a história de voluntários que melhoram o fim do ano

Várias pessoas aproveitam este período para se dedicar ao trabalho voluntário e proporcionar uma confraternização para quem passaria a data sem festa nem presentes


postado em 20/12/2019 06:00

(foto: Sanduba Sandoval/Divulgação.)
(foto: Sanduba Sandoval/Divulgação.)
Com a chegada do Natal, é sempre o mesmo cenário: fachadas iluminadas, árvores decoradas, shoppings e supermercados lotados e muitas compras. Porém, diversas pessoas não têm a oportunidade de vivenciar a data da mesma maneira. Não ganham presentes e não são chamadas para ceias. Para elas, esta época seria sem festa, não fosse por projetos sociais promovidos por pessoas que se esforçam para levar um pouco de alegria, nem que seja por um momento.

Quem se dispõe a ser voluntário aprende, na prática, a abdicar de muita coisa para espalhar o bem. E não se arrepende, como é o caso do missionário Robert Itamar Alves da Costa, 40 anos. Fundador do projeto Natal na Rodoviária, ele conta que a vontade de ajudar surgiu aos 7 anos de idade, quando se deparou com uma criança muito pequena e magra. “Minha mãe me explicou o que era um menino de rua, que ele não tinha pai ou mãe, nem ninguém pra cuidar dele. Isso mexeu muito comigo. Carrego o olhar dessa criança até os dias de hoje”, conta.

A ação liderada por Robert ocorre na Rodoviária do Plano Piloto, na noite de 24 de dezembro. Os voluntários servem um jantar com receitas típicas natalinas, como panetones, peru, tender, entre outras.  E distribuem doações, como roupas e sapatos. O grupo também conversa com os moradores de rua para saber quais deles querem voltar a ter uma casa, um trabalho, e mostra um novo caminho. Ao final da ceia, ocorre a cerimônia do lava-pés, rito cristão em que pastores são convidados a lavarem os pés daqueles que decidiram sair da rua naquela noite. Após isso, eles são encaminhados para uma casa de recuperação. Toda a arrecadação que não é distribuída durante a ceia é destinada às casas que receberão os moradores.

Robert explica que o objetivo do Natal na Rodoviária, para quem ajuda, é a renúncia: “Servimos aproximadamente 200 pessoas. Deixamos de passar a ceia com a nossa família para sermos a família deles”. E completa que trabalhar com pessoas em situação de risco e vulnerabilidade social ajuda na construção do caráter. “Ajudar menos favorecidos resgata a sua humanidade e ensina a valorizar o pouco que você tem, a ser grato pelas pequenas coisas que a vida oferece todos os dias.”

O missionário acrescenta que o mais gratificante do projeto é ver o resultado da ressocialização dos moradores de rua. “O amor transforma, e eu sou uma prova real disso. Nunca tive vícios, mas lidar com essas pessoas desde muito cedo me ensinou a valorizar mais a minha família e as boas amizades”, acredita. “Conheci o submundo das drogas e da prostituição não como um indivíduo que experimentou. Cheguei a esses ambientes como um agente de transformação”, afirma.

Estender a mão ao próximo tornou-se prioridade para a professora Eugênia Cireno, 38, que abdicou do Natal em família para ser voluntária: “Era o mesmo do mesmo. Comecei a lembrar das vezes que ia em asilos de idosos com minha mãe ou dos sopões que fazíamos na minha cidade”, aponta. A ex-moradora de Pesqueira (PE) conta que decidiu participar do projeto para apresentar o real espírito cristão da festa. “Queria mostrar para nossos filhos o quanto são privilegiados e dar um maior sentido ao Natal.”

Eugênia frequenta há seis anos a ação na Rodoviária e diz que a sensação é única: “Não é necessário ter a religião A ou B para participar. É só ter o coração aberto para o outro, fazer diferença na vida das pessoas. Eu percebo o verdadeiro sentido do Natal, sem presentes e roupas caras, sem necessidade de banquetes e discussões banais. Me sinto gente, me sinto povo, me sinto verdade. É simplesmente incrível”, constata.
 
(foto: Lucca Mendonça/BSB Invisivel)
(foto: Lucca Mendonça/BSB Invisivel)
 

Visibilidade

Escutar as histórias de pessoas que são invisíveis perante a sociedade e motivar um olhar mais humano. Esse é o objetivo do estudante universitário Pedro Campos de Freitas, 23. Cofundador do BSB Invisível, em julho deste ano, ele conta que a ideia surgiu após sua noiva presenciar uma situação de preconceito e humilhação de uma pessoa em situação de rua em um bar, à noite. “Nem todos que estão nas ruas usam drogas ou tiveram oportunidade de estudo e trabalho. Aprendo, a cada dia, a não julgar, a não ter preconceito, a ter mais empatia e a enxergar o privilégio que é ter uma casa pra morar, família, saúde e comida na mesa.”

A primeira ação de Natal do projeto será neste sábado (21/12) de manhã, voltada a crianças em situação de rua. Haverá entrega de brinquedos, roupas e alimentos não perecíveis, além de uma pequena ceia. “Aqueles que ajudam sabem que, mesmo sendo um trabalho não remunerado, os sorrisos, os abraços e as lágrimas recompensam todo esforço e tempo investidos.” Pedro enaltece que a ação ajudou a entender que, com um simples ato de caridade, a vida de uma pessoa pode mudar. “Se todos ajudassem um pouco, por dia ou por mês, com certeza ajudaria a acabar com a fome, o frio, a falta de acesso à informação e à saúde de milhares de famílias no Brasil”, assegura.

Para muitos, o Natal é uma época mágica e desperta a vontade de ajudar e ser solidário. Nesse clima, os papais e as mamães noéis da vida real tomam forma. Uma delas é a comunicadora Roberta Carri, 30. Ela diz que morou em uma casa de muito amor, compreensão e coletividade. “Meus pais sempre gostaram de dividir o que eles tinham, e eu sempre achei isso importante”, conta. A partir disso, ela resolveu fazer algo pelas pessoas: “Pensei comigo mesma o que tinha para oferecer e vi que tinha tempo. Então, decidi doar amor, doar tempo, que é o mais importante”.

Roberta fundou o projeto Mundo Melhor, que propõe a ideia de trabalhar a cidadania em creches, escolas e organizações não governamentais (ONGs). Durante o Natal, ela sempre escolhe uma instituição em que possa ser Mamãe Noel para levar doces e presentes. “Eu conto com a ajuda de amigos, vizinhos e colegas de trabalho, que sempre doam um pouquinho. Algumas coisas eu tiro do meu bolso mesmo, e sempre acho que Deus vai me dar o dobro. E ele tem me dado, sabe?”, completa.

Em busca de sorrisos

A dona de casa Fernanda Pereira da Silva, 33, costuma distribuir brinquedos e cestas básicas para famílias do Paranoá Parque, onde mora. Ela diz que começou a fazer ações sociais em 2017 e gostou tanto que não parou mais. Neste ano, também arrecadou roupas e cestas básicas para um lar de idosos, em Luziânia (GO). “Foi emocionante, os idosos chamando meus filhos de ‘meus netinhos’. Por isso, eles estão doidos para voltar lá de novo, e eu também.”

Fernanda conta que o trabalho voluntário mudou sua vida e que consegue enxergar nos próprios filhos a felicidade que outras crianças teriam. “Eu não tenho muita condição de comprar. Só meu marido que trabalha, tenho quatro filhos e ganho bolsa família. Mas meus filhos ficam muito felizes quando veem as crianças e os idosos recebendo presentes”, afirma, orgulhosa. “Eu me sinto agradecida porque o sorriso deles não tem preço, eu faço com os outros o que eu gostaria que fizessem comigo.”

Como ajudar

Natal na Rodoviária
Para fazer parte, basta mandar uma mensagem pelas páginas do Natal na Rodoviária no Facebook ou Instagram ou entrar em contato com Robert Itamar pelo (13) 98164-7205.
 
Mundo Melhor
Quem quiser fazer doações de brinquedos ao projeto Mundo Melhor pode entrar em contato pelas páginas Catedral fadinha Solidária-CateBsb (Facebook) ou @catebsb_fadinha (Instagram).
 
BSB Invisível
Para ser voluntário ou doar roupas, acessórios e alimentos, entre em contato pelo Instagram @bsbinvisivel_ ou pelo 
telefone (61) 98151-5503.
 
Outras doações
Quem quiser contribuir com Fernanda da Silva para doar brinquedos e cestas básicas pode mandar mensagem para o (61) 99504-7339. 

 

*Estagiárias sob supervisão de Marina Mercante

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