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Brasília sexagenária: Rodoviária do Plano é o coração da capital federal

Na segunda matéria da série Brasília Sexagenária, o Correio reencontra o espaço localizado no coração da cidade e que completa 60 anos em 12 de setembro.

Juliana Andrade, Alan Rios
postado em 05/01/2020 08:00
Imagens históricas de uma complexa construção: o terminal rodoviário do Plano Piloto começou a ser erguido ainda nos anos 1950, a partir de projeto do arquiteto e urbanista Lucio Costa. Após a inauguração, em 12 de setembro de 1960, o terminal virou referência, ligou as asas Sul e Norte e passou a direcionar a movimentação dos primeiros habitantes de Brasília O coração é um dos maiores símbolos da vida. Sempre em movimento, ele é vital para todas as outras partes do corpo. Por isso, não à toa, a Rodoviária do Plano Piloto é considerada o ;coração; de Brasília. No centro da asa do avião, o local recebe cerca de 700 mil pessoas diariamente: brasilienses de diferentes idades, regiões e ocupações, que passam, muitas vezes, em ritmo acelerado. Os sons dos alto-falantes instalados nas plataformas acabam se confundindo com o barulho dos ônibus, dos passos e dos gritos de ofertas dos comerciantes, um cenário bem diferente do projeto inicial de Lucio Costa. Entre reclamações, como a falta de acessibilidade e a insegurança, o espaço acumula histórias que se misturam com as de Brasília. Na segunda matéria da série Brasília Sexagenária, o Correio reencontra o espaço localizado no coração da cidade e que completa 60 anos em 12 de setembro.

A rodoviária parece um lugar à parte no meio do Eixo Monumental. Se, no gramado central, a calmaria e a visita de turistas predominam, no terminal, o que ganha destaque são os ruídos, a correria do dia a dia, as filas de espera e os veículos lotados. ;Aqui não tem essa história de rico ou pobre, todo mundo se encontra, toda hora. É um ponto com metrô, ônibus, perto de shopping;, opina Agna da Cruz, 35 anos, usuária do transporte público. A baiana, que mora na capital, sente gratidão por Brasília, mas pede mais cuidado. ;O governo tem oportunidades boas na rodoviária, porque é um espaço grande que poderia ser bem aproveitado. Penso que seria ótimo se tivesse, por exemplo, uma galeria de arte, com acessibilidade, garantindo um complemento à educação e trazendo segurança;, sugere.

Para o historiador Wilson Vieira, a rodoviária reflete a realidade de Brasília. Ali, estão moradores do Plano Piloto, das demais regiões administrativas e do Entorno. ;Ela se tornou um grande centro metropolizado da população do Distrito Federal. Foi além do planejado, virou um espaço popular;, ressalta. Vieira explica que o projeto inicial era um centro de conveniência, com cafés e restaurantes, algo parecido com o que é o aeroporto hoje. ;À medida que a cidade foi crescendo, a população foi assumindo este espaço. A presença do comércio formal e informal é característica da nossa história como formação da cidade. São coisas que demonstram que o desenho de um arquiteto não consegue planejar a tomada popular do espaço. O povo é muito mais forte e mais presente do que a prancheta de um profissional;, destaca.
Na segunda matéria da série Brasília Sexagenária, o Correio reencontra o espaço localizado no coração da cidade e que completa 60 anos em 12 de setembro.

Um dos habitantes da capital que fazem parte desse processo é Joabem José da Silva, 49. Ele chegou ao DF em 2004 em busca de oportunidades e hoje reclama do tratamento dado aos espaços públicos. ;Tenho dificuldades de locomoção, uso muletas e moro nas ruas, então sinto ainda mais os problemas. Faz anos que a escada rolante não funciona. Lembro-me de poucas vezes que pude usar, que estava normal. Isso é algo grave, as pessoas se machucam por falta de acessibilidade. É caso de direitos humanos;, avalia. Procurada, a Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap) informou que ;o processo licitatório das escadas rolantes e dos elevadores está dentro da normalidade; e que o órgão ;está analisando as propostas das empresas que participaram da concorrência para, em seguida, fazer a homologação;.

Obra complexa

A construção da Rodoviária do Plano Piloto é considerada por especialistas uma das mais complexas da época em que ocorreu. Atrás dos paredões que seguem sentido Eixos Sul e Norte, há grandes vãos. ;São caixas, espaços livres enormes. Dava para construir um shopping ali dentro;, detalha o historiador Wilson Vieira. O professor de arquitetura e urbanismo da Universidade de Brasília (UnB) Antônio Carlos Carpintero explica que as vigas de construção da rodoviária são protendidas, ou seja, construídas com ferros internos, que pressionam o concreto e aumentam a possibilidade de fazer grandes vãos.

Para Antônio Carlos, apesar da importância da obra, ela não exigiu um trabalho inédito. ;Os vãos que ela tem são grandes. A rodoviária estava no limite máximo da construção da época, mas não era nenhuma técnica desconhecida;, avalia. Porém, ele alerta que essas ferragens, assim como toda a obra, exigem manutenção constante, pois podem diminuir a capacidade de sustentação se oxidarem.

O arquiteto ainda comenta que a rodoviária foi construída a 750 metros do lugar do projeto original, em direção à Torre de TV. ;Ela estaria na altura da W3, mas, para a própria construção, foi feita essa mudança, e o Lucio Costa encarregou-se de projetar a rodoviária da forma que foi feita;, conta. Antônio acrescenta que a plataforma superior ficaria no chão, ligada aos setores bancários e comerciais. ;O pedestre poderia circular livremente nesse plano.;
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Segurança

Citada constantemente como ponto negativo do terminal, a segurança acaba sendo uma barreira até mesmo para a Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF). ;O alto índice de reincidência é uma grande dificuldade. Muitos detidos no DF voltam a praticar outros crimes, por vezes na mesma região, devido às brechas contidas na legislação, que facilitam o retorno dos criminosos às ruas e geram a sensação de impunidade;, informou a corporação, em nota oficial. Porém, nos primeiros dias de 2020, um novo esquema de policiamento passou a atuar na área. ;Antes, os policiais ficavam no posto fixo na parte superior da estação. Agora, o patrulhamento é feito em viaturas e assessorado pelo Comando Móvel estacionado na rodoviária;, disse a PMDF.

Reformas constantes

Os problemas da rodoviária são antigos. O terminal passa por constantes reformas. Em junho do ano passado, parte da estrutura foi interditada após riscos de desabamento. Técnicos do governo identificaram crescimento de algumas fissuras, o que poderia provocar um desmoronamento, caso não fossem feitos os reparos necessários. Para garantir a segurança, o trânsito de carros na parte superior, sentido sul, foi interrompido.

A estrutura precisou ser demolida e reconstruída. Segundo a Novacap, a obra foi concluída no início de novembro. Também foram feitas novas instalações elétricas e hidráulicas; instalados ar-condicionado e sistema de som; executado novo piso em granitina em toda a extensão da rodoviária; trocado o piso tátil direcional; e substituída toda a iluminação interna e de borda.

Comércio forte

Na segunda matéria da série Brasília Sexagenária, o Correio reencontra o espaço localizado no coração da cidade e que completa 60 anos em 12 de setembro.
Boa parte dos brasilienses defendem que a capital tem sim suas comidas típicas ; mesmo com pouca idade ; e que um prato parte dessa identidade é vendido na rodoviária. O pastel da Viçosa é tradição desde o final da década de 1960. O sabor é conhecido por muitos candangos, mas poucos sabem que o estabelecimento surgiu por causa de um imprevisto, como lembra a atual proprietária, Patrícia Rosa. ;A Viçosa foi fundada pelo meu pai, por um acaso. Ele estava em lua de mel e ia pegar um ônibus com a minha mãe, mas eles acabaram perdendo o coletivo. Para passar o tempo, os dois comeram um pastel vendido na rodoviária. Meu pai disse para o vendedor que sabia como melhorar aquela comida;, relata a filha dos dois. Na visita seguinte do casal de mineiros à Brasília, surgiu a compra do pequeno comércio, que acabou se expandindo.
Na segunda matéria da série Brasília Sexagenária, o Correio reencontra o espaço localizado no coração da cidade e que completa 60 anos em 12 de setembro.
A pastelaria se consolidou logo nos primeiros anos da inauguração da Rodoviária. ;Era uma época da capital muito nova, então não tinham tantos processos burocráticos, os negócios abriam com rapidez;, conta Patrícia. Para ela, o sucesso do estabelecimento é explicado por um conjunto de fatores. ;Com o tempo, fomos percebendo que a localização era excelente, porque esse é o lugar onde a vida acontece. O fluxo de pessoas é grande, nossos funcionários são respeitosos com os brasilienses e o produto que vendemos tem qualidade de uma forma acessível;, define. Mas Patrícia também lembra que há muito a melhorar. ;Nem sempre damos conta de oferecer um serviço impecável por conta dos problemas que conhecemos da rodoviária. A segurança e a limpeza, por exemplo, precisam ser melhor trabalhadas. É uma luta em conjunto com a administração e o governo. Não é simples, porque esse ponto é como se fosse uma cidade dentro do Plano Piloto;.
Mesmo com as barreiras de manter um estabelecimento acessível e de qualidade entre as famosas plataformas, a Viçosa acabou se tornando um símbolo de Brasília. ;Nós colecionamos histórias curiosas de pessoas que associam a pastelaria a algo que faz parte da identidade da capital. Um turista dos Estados Unidos já veio conhecer os pontos típicos do Distrito Federal e gravou um vídeo com a gente, dizendo que a Viçosa era famosa aqui. Recentemente, também, um português visitou nosso comércio porque disse ter lido em uma revista sobre a gente;, disse Patrícia. A dona do estabelecimento lembra ainda que é comum receber clientes que participaram da construção da capital e têm prazer em passar alguns minutos só admirando a fachada famosa. ;Tudo isso é muito legal, mostra que estamos fazendo história junto com a rodoviária e Brasília;, finalizou.

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