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Brasília sexagenária: história da capital passou pelo Hospital de Base

Desde a criação da capital do país, o hoje Instituto Hospital de Base transformou-se em local de referência, apesar das dificuldades enfrentadas nessas seis décadas

Alan Rios, Juliana Andrade
postado em 18/01/2020 07:00

Prédio do Hospital de Base durante construção: projeto inovador previu uma unidade de saúde que serviria de exemplo para as de menor porteO projeto era de uma unidade de saúde revolucionária para o país. A utopia, por outro lado, é questionada por brasilienses que enfrentam longas filas de espera, falta de medicações e uma estrutura, muitas vezes, precária. Mas é entre as paredes erguidas em 1960 que vidas são resgatadas e novas surgem. Especialistas afirmam que, mesmo com as dificuldades, trata-se de um local de referência. Uma das primeiras unidades hospitalares da capital, o Hospital de Base é tema da quinta matéria da série Brasília sexagenária.


O hospital carrega muita história. Nos passos apressados entre os corredores do Base, o cardiologista Osório Luís Rangel de Almeida, 72 anos, alimenta diariamente a paixão pela medicina. São 43 anos dedicados ao atendimento dos pacientes. ;Eu costumo brincar que, há mais de 40 anos, eu gasto a sola do meu sapato aqui. Entrei na UTI (unidade de terapia intensiva) e depois fui para a cardiologia;, conta. O médico mora em Brasília desde 1962 e foi formando da 4; turma de medicina da Universidade de Brasília (UnB).

Cardiologista Osório Luís de Almeida: 43 anos na equipe


Nos anos de carreira, Osório viu de tudo: momentos de alegria, de desespero, mas, principalmente, de agradecimento, o que recarrega as energias dele diariamente. Um dos funcionários mais antigos, chega ao hospital cedo e acumula inúmeras histórias de rotinas pesadas, com o propósito de salvar vidas. ;Quantas vezes eu fiquei a noite inteira acordado, ao lado de um doente. Na UTI, por exemplo, ficava com o paciente, sem piscar o olho. O sol amanhecendo, e você vendo as coisas terem resultado satisfatório, com o paciente voltando às suas condições de vida.;

Para ele, não há dinheiro que pague o olhar de uma pessoa agradecida pelo atendimento. ;Eu costumo brincar com os meus pacientes que quero vê-los pelas costas: dando tchau, dizendo que tudo ocorreu bem. Essa é a maior satisfação da gente. É ver o paciente saindo, sorrindo e agradecendo a instituição pelo trabalho feito;, ressalta o médico. As dificuldades também são lembradas. Cardiologista, Osório recorda-se do período de cinco anos em que as cirurgias de coração foram suspensas ; o serviço foi retomado em 2019 ; e de quantas vezes teve o atendimento prejudicado pela falta de equipamento.

;O hospital já sofreu muito. Eu vi e senti isso. No passado, eu cheguei a dar notícia para o responsável de um setor dizendo que compramos equipamentos e, por burocracias, o processo foi cancelado;, lamenta. Osório tem a esperança de que o novo modelo de gestão hospitalar retome de vez a rapidez e eficácia no atendimento. Para ele, o hospital público deve ser procurado por todos, não apenas por quem não tem alternativa. ;Já tivemos autoridades de peso sendo atendidas aqui;, destaca.

Outro jaleco conhecido nos corredores do local é o que tem o nome do doutor Pompílio Ximenes, 72. O também cardiologista tem uma história de 40 anos de serviços prestados a pacientes naquela unidade de saúde. ;Orgulho-me de trabalhar no Hospital de Base desde 1980, porque é um lugar com profissionais de ponta. Até presidentes da República passaram por aqui, como Tancredo Neves. Isso mostra a grandeza;, conta.

Ele chegou a Brasília em 1978 e diz que foi especial prestar serviços em um lugar de referência no país, com médicos de alto nível. Para Pompílio, a importância desse prédio vai além das linhas que definem o Distrito Federal. ;Percebemos isso no dia a dia, quando vemos pessoas de todas as regiões. Pelo meu consultório, passaram moradores do Nordeste, do Norte, do Sul, do Sudeste; porque sabem que temos qualidade;, comenta. Tudo isso faz com que o cardiologista tenha carinho pelo Hospital de Base, tanto que ele já imagina como serão os anos longe. ;Estou próximo da aposentadoria e sei que vou ficar com saudades, mas a medicina é uma profissão que nos acompanha por toda a vida.;

Percalços

Quem analisa o plano urbanístico de Brasília e a história da capital reconhece a relevância do Base. Geraldo Nogueira Batista, professor aposentado de arquitetura e urbanismo da UnB, explica que essa unidade de saúde faz parte de um projeto inovador do DF. ;Diversos setores de atuação da administração da cidade foram concebidos como exemplares. O Hospital de Base, projetado por Oscar Niemeyer, estava inserido no contexto de iniciativas revolucionárias na área da saúde pública. Esse pioneirismo contemplava a existência de toda uma rede complementar de outras unidades hospitalares ou de saúde, de menor porte;, diz.

Porém, o pesquisador afirma que o período da ditadura militar interferiu em um planejamento de sucesso. ;Depois do golpe de 1964 e, ao longo do período da ditadura, o projeto, com outras iniciativas renovadoras, como o plano de educação de Anísio Teixeira, foram paulatinamente abandonados. Na ausência dessa rede complementar, o Hospital de Base foi sobrecarregado nas funções. A situação levou a alterações do programa e a desfigurações da arquitetura inicial;, detalha. Os anos se passaram, e os problemas foram se diversificando. Um deles é a carência de recursos de saúde em regiões administrativas do DF e em cidades vizinhas.

;O Hospital de Base catalisa uma região que ultrapassa os limites do Distrito Federal e do Entorno, atendendo a demandas de vários estados, porque oferece qualidade e variedade de serviços de saúde inexistentes em boa parte dos municípios e estados brasileiros;, considera Geraldo. Mesmo com essas barreiras, o arquiteto acredita que o prédio chega próximo ao seu sexagenário com a tradição como marca. ;Apesar de todos os percalços, o Hospital de Base continua a ser visto como e desempenha o papel de um grande hospital público da capital. Os quase 60 anos de existência implicam, sem sombra de dúvida, no acúmulo de experiências e na formação de equipes de trabalho atuantes em diversas especialidades. Precioso e inigualável;, elogia.

Independência

; O Hospital de Base passou a ser independente da Secretaria de Saúde e administrado por um instituto, sem fins lucrativos, em 2018. O Base foi o primeiro hospital público do Distrito Federal a adotar esse modelo de gestão. Atualmente, é administrado pelo Instituto de Gestão Estratégica do Distrito Federal (Iges-DF).

Telemedicina

; Osório Rangel foi responsável pelo projeto Telemedicina, inaugurado no Hospital de Base em 1983. O médico guarda no celular a foto da página do Correio Braziliense que noticiou a ocasião ; na foto, ele de jaleco; o então governador José Ornellas; e o ministro de telecomunicação da época, Haroldo Corrêa. A iniciativa possibilitava a transmissão de sinais de atividade elétrica do coração por telefone. O objetivo era auxiliar profissionais em áreas mais afastadas da cidade. O projeto não foi para frente, conta Osório. Atualmente, o Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do DF oferece o serviço de telemedicina, com uma sala de conferência onde os médicos podem discutir casos clínicos.

uma página de jornal antiga

Um lugar de esperança

O Hospital de Base realizou, em 2019, mais de 830 mil exames, 290 mil consultas, 11.331 cirurgias e 100 transplantes (87 de córnea e 13 de rim). Além da população do Plano Piloto, o local atende pacientes de todas as regiões administrativas e de outras unidades da Federação, como a recepcionista Daiana da Silva Nascimento, 26. Moradora da Bahia, do município de Luís Eduardo Magalhães, ela viu em Brasília um caminho para tratar um quadro de pé torto congênito.

Rara, a condição ortopédica costuma ser corrigida com manipulação seguida de gesso, mas esse não foi o caso dela. Nos primeiros meses de idade, os médicos informaram que só uma cirurgia corrigiria o problema, mas o preço da operação e os riscos foram barreiras. Em fevereiro de 2019, ela chegou à capital federal, onde marcou a consulta com o ortopedista Davi Haje. ;As primeiras avaliações foram ótimas. Eu tinha dores e sofria muito, mas o médico foi me acalmando, me tratando superbem. Depois do atendimento, ele costumava mandar mensagem perguntando como eu estava, se tinha melhorado;, lembra. O especialista sabia que não havia casos na literatura médica sobre o tratamento de adultos de pé torto com engessamento, sem cirurgia, pelo método conhecido como Ponseti, mas se sensibilizou com Daiana e quis tentar.

A jovem colocou o gesso nos dois pés e aguardou os resultados. ;Eu tinha medo. Muitas pessoas falavam que poderia não dar certo. Já tinha conhecido até quem fez cirurgia e não resolveu o problema. Mas também confiava muito no médico e tinha fé, então só precisava segurar a ansiedade para tirar logo o gesso e ver como estavam meus pés;, diz. Até o retorno, Daiana se imaginou fazendo coisas que nunca pôde, como calçar um tênis. O grande dia chegou em maio.

;Foi uma sensação incrível! Cortaram o gesso, vi meus pés depois de mais de três meses e estava tudo bem. O procedimento deu certo e chorei muito quando percebi;, emociona-se. Para deixar aquela data ainda mais marcante, o médico responsável pelo procedimento levou um presente. ;Ele me deu um tênis. Quando voltei à Bahia, foi uma comoção grande na família. Minha avó não conseguia parar de chorar;, conta Daiana.

O procedimento está perto de completar um ano e faz parte da história do hospital. ;Muita gente me procura hoje e pergunta como consegui o tratamento. Eu falo que foi no Hospital de Base, em Brasília. Gente de vários lugares do país, que me encontram até nas redes sociais, têm interesse em procurar a ortopedia de lá;, afirma a baiana. Agora ficam a gratidão e os sonhos. A recepcionista fez fisioterapia para reaprender a andar, voltou ao trabalho e planeja tirar a carteira de motorista. ;Nunca vou me esquecer disso, marcou minha vida.;

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