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Correio Braziliense

Brasília sexagenária: MAB e Cine Brasília são templos da cultura candanga

Grandes símbolos da cultura na capital, o Cine Brasília e o edifício do Museu de Arte de Brasília (MAB) completam, neste ano, 60 anos. Enquanto um segue sendo um dos principais pontos de entretenimento, o outro tenta se reerguer depois de quase 13 anos fechado


postado em 19/01/2020 08:00 / atualizado em 20/01/2020 11:01

Sérgio Moriconi era responsável pela curadoria:
Sérgio Moriconi era responsável pela curadoria: "O Cine Brasília está na minha memória afetiva" (foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
Não faltam provas de que o Cine Brasília não é um cinema qualquer. O modelo de gestão é raro no Brasil, pois o espaço é de administração pública e tem preocupações mais culturais do que comerciais. Assinado por Oscar Niemeyer, o prédio recebeu a primeira plateia um dia depois da inauguração de Brasília. Enquanto nesse local pulsa cultura, outro símbolo importante da capital segue fechado. O Museu de Arte de Brasília (MAB) carrega o peso de quase 13 anos sem atrações, mostras ou exposições — período que enfrentou abandono e obras.

Uma das riquezas arquitetônicas da cidade, o Cine Brasília foi tombado em 2007 como Bem Cultural do Distrito Federal. O espaço tem a maior sala de exibição cinematográfica do DF, com capacidade para mais de 600 pessoas. “É um lugar que dialoga com toda a proposta estética da cidade. Isso, por si só, já vale a visita, mesmo que seja só para admirar o prédio. Sem contar que, conhecer o Cine Brasília, significa conhecer também um pouco da história das salas de cinema, porque a construção preserva o modelo clássico de uma enorme sala única, diferentemente daqueles que regem o circuito comercial hoje”, detalha Rodrigo Rodrigues, gerente do Cine.

Ele também acredita que o espaço tem importância para cada morador da capital, mesmo aqueles que nunca foram ao local. Isso porque um dos nortes do prédio é a valorização da cultura e da reflexão. “Aqui se exibem produções cinematográficas com inovações estéticas e que abordam temáticas relevantes para a sociedade. Uma das questões que justificam o investimento do Estado nas artes é a capacidade que essas obras têm de gerar um debate na sociedade sobre uma temática específica. Então, mesmo as pessoas que não tiveram contato direto com a obra são beneficiadas pela reflexão gerada por esse filme”, explica.

É por isso também que o lugar incentiva produções nacionais, valoriza filmes realizados na capital e se esforça para ter, sempre que possível, diálogos entre público e equipe de produção da obra. No ano passado, 60% da programação, com cobrança de ingressos, foi dedicada a filmes nacionais. A entrada custa R$ 12, um terço do preço médio de outros cinemas, segundo Rodrigo. Outro motivo de comemoração para o gerente diz respeito ao sucesso do projeto Escola Vai ao Cinema, parceria com a Secretaria de Educação. Em 2019, a iniciativa levou 6.750 estudantes para assistir produções nacionais.

Templo

Um espaço de múltiplas emoções, de aplausos a vaias históricas. O Cine Brasília é tudo isso para Vladimir Carvalho, cineasta de 84 anos que fez do projeto de Oscar Niemeyer mais do que uma casa. “É um templo! A arquitetura favorece isso, o público é único. A história desse lugar é riquíssima”, celebra. O paraibano teve o primeiro contato com o espaço em 1969, quando o curta-metragem A bolandeira foi selecionado para participar do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. “Fiquei encantado, foi um acontecimento marcante na minha vida. Ver um lugar como aquele, dedicado inteiramente ao cinema brasileiro, principalmente ao projeto de mostrar nossa sociedade, foi emblemático”, lembra Vladimir.

Uma das características desse templo que mais chamou atenção do cineasta foi a identidade. “O Cine Brasília mostrava que tinha um compromisso umbilical com a nossa cultura, mergulhando nas nossas raízes regionais. A programação evidencia uma preocupação voltada aos problemas do país. Então, para mim, conhecer Brasília e esse cinema foi especial”, detalha. Prova disso veio pouco tempo depois, em 1971, quando Vladimir virou morador da capital e professor da Universidade de Brasília (UnB). Foi o cinema do DF que ele escolheu para exibir o filme O País de São Saruê, que evidenciava a vida de brasileiros do sertão nordestino e mostrava uma realidade de abandono governamental que as autoridades da época não gostaram de ver.

“O Festival de Cinema de Brasília selecionou esse longa para exibição, mas, dois dias antes, ele acabou sendo retirado violentamente da programação, porque a censura o proibiu. Isso foi bastante negativo para o festival e para o cinema da nossa cidade, porque ali era um evento e um local de referências dessa arte”, lembra.

O filme Brasil bom de bola foi exibido para preencher o espaço da obra de Vladimir na programação, mostrando inclusive cenas do então presidente Médici recebendo a Seleção Brasileira no Palácio do Planalto. O público vaiou a troca e demonstrou apoio ao longa O País de São Saruê, que, pouco tempo depois, chegou a receber convite do Festival de Cannes. “A plateia vaiou as autoridades presentes, os estudantes me apoiaram e perturbaram muito os representantes do poder. Jogaram até bola de gude neles”, ri.

Após o episódio, o principal evento de cinema da capital ficou três anos sem ocorrer. “Chego a ter certo remorso lembrando. Amarguei isso. Mas esse momento foi exemplar para o Cine Brasília e para a minha trajetória. Levei quase uma década para conseguir liberar a obra no departamento de censura. Dez anos depois, consegui apresentá-lo. Onde? No Cine Brasília”, celebra Vladimir.

Estética

Patrimônio cultural da capital, o Cine Brasília é diferente dos outros edifícios. O que predomina não é o concreto, mas sim, as lajinhas em cor de terra, que revestem a fachada externa da estrutura. A arquiteta da Secretaria de Economia Criativa no Distrito Federal Beatriz Couto Oscar destaca a união entre a modernidade e a funcionalidade. “A forma, por fora, revela a funcionalidade dele como cinema. A plateia em leque, com foco no palco, onde tem a tela. Fora isso, há alguns aspectos particulares de Niemeyer, como a horizontalidade”, ressalta.

A beleza não fica apenas nas linhas do famoso arquiteto. Por dentro, o edifício guarda grandes obras de arte. O espaço é agraciado com um painel de Athos Bulcão e, antigamente, tinha poltronas de Sérgio Rodrigues. “Na última reforma, para o projeto ser aprovado pelo Corpo de Bombeiros, as poltronas não atendiam requisitos, como tempo de queima, de toxicidade. Então, a gestão optou por trocar as poltronas, para que o cinema fosse aberto”, explica Beatriz.

Localizado na 106/107 Sul, o Cine Brasília segue a ideia de unidade de vizinhança ideal trazida para Brasília pelo urbanista Lucio Costa. O objetivo era de que em um mesmo conjunto de quadras, a população tivesse acesso à habitação, ao comércio, à educação, à cultura e ao lazer. Foi morando próximo a essa ideia de vizinhança ideal que o curador Sérgio Moriconi, 63, alimentou ainda mais a paixão por cinema.

Morador da 109 Sul, cresceu brincando pelos pilotis, rodeado de espaços culturais. O Cine Brasília era um dos seus lugares preferidos. “O cinema está na minha memória afetiva desde a infância. Nos anos 1960, eu vinha ver as Chanchadas da Atlântida, que eram um tremendo sucesso de público. Quando fiquei adolescente, continuei vindo”, comenta. O curador destaca que, no Festival de Brasília, que acontece no Cine Brasília desde 1965, ele conheceu grandes filmes e artistas da sétima arte brasileira.

Aquele era apenas o início de uma carreira. Na Escola Parque da 308 Sul, Sérgio fez o primeiro curso na área de cinema. Depois de algumas outras formações, foi para a UnB e embarcou de vez no mundo das telonas. Em 2013, Sérgio assumiu o cargo de programador do Cine Brasília. “Sempre trabalhei com cinema. Todos me conheciam até que me convidaram para vir. O Cine Brasília ficou fechado durante muitos anos. Quando reabriram, precisavam de alguém para fazer a programação e curadoria”, relata. Sérgio ficou no cargo por seis anos.

O então programador também lutava para trazer bons filmes ao Cine Brasília. Sérgio ligava pessoalmente para as distribuidoras em busca de lançamentos. Ele também enviou uma carta para cada embaixada em Brasília, abrindo as portas para exibição de mostras internacionais.

Além da telona
Carlos Antônio tem mais de duas décadas de trabalho como projecionista(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Carlos Antônio tem mais de duas décadas de trabalho como projecionista (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)

O Cine Brasília é um espaço cultural que abrange ainda mais do que a sétima arte, como acredita Alice Lopes, 24. A tradutora costuma frequentar o local quase mensalmente. “Além da programação normal dos filmes, é um lugar que recebe mostras, orquestras e vários eventos especiais. Sempre tem algo bacana acontecendo, queria frequentar mais por conta disso”, diz. Outro diferencial, de acordo com Alice, é a singularidade do Cine. “Não é um cinema qualquer, é diferente. Hoje, a gente vê quase todas as salas em shoppings, com sessões comerciais. Mas Brasília tem sorte de ter um lugar único, bem ‘raiz’, com filmes bons a um preço acessível”, comenta.

Isabella Silva, 21, concorda. Estudante de letras, ela destaca a escolha do espaço cultural projetado por Niemeyer. “O ambiente dá uma sensação de que estamos em um local especial. É uma área com arquitetura bonita, verde ao redor. Acaba sendo uma experiência visitar o Cine Brasília”, define.

Para os funcionários do local, trabalhar dentro do projeto de Niemeyer é especial. Carlos Antônio Camurça, 54, é projecionista no cinema há cerca de 20 anos. “Trabalhar aqui é enriquecedor. Para quem gosta de cinema, é maravilhoso. Tem uma programação diferenciada. É um privilégio para quem frequenta e para quem trabalha”, destaca.


22 de abril de 1960 primeira sessão

14m x 6,30m tamanho da tela

619 assentos do cinema

52 edições do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

Um museu ainda interditado
(foto: Instituto Moreira Salles, Colecao Marcel Gautherot)
(foto: Instituto Moreira Salles, Colecao Marcel Gautherot)

Enquanto o Cine Brasília segue com uma agenda vigorosa, do outro lado da cidade, o prédio do Museu da Arte de Brasília (MAB) sofre com o abandono. Construído também na década de 1960, a estrutura foi erguida como um anexo do Brasília Palace Hotel, segundo a pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB) Maira Guimarães. “O hotel era a hospedagem oficial, mas os próprios funcionários não tinham onde ficar, então, decidiram fazer esse anexo”, afirma. Maira conta que a construção era formada por quatro pavilhões simples, com um restaurante no meio.

Segundo a pesquisadora, o projeto inicial, do restaurante, foi feito em 1959, pelo alagoano Abel Carnauba Accioly. “Ele veio para Brasília para ser desenhista técnico e nem era formado em arquitetura ainda, era estagiário na Novacap. Tinha 22 anos quando fez o projeto”, afirma. Já a estrutura é assinada por Joaquim Cardozo, calculista dos monumentos de Niemeyer.

Em 1966, o espaço foi transformado no Clube das Forças Armadas. A instituição usou o local até 1975, quando a estrutura foi alugada e se tornou o Casarão do Samba. O museu só foi inaugurado em 1985. “A arquitetura do prédio gerou muitos problemas. Uma reserva técnica, com quadros muitos importantes, um acervo milionário, ficavam no subsolo úmido, sem climatização. Isso foi um dos principais motivos que levaram o prédio a ser interditado”, ressalta.

O MAB recebeu todas as obras que foram adquiridas nos salões de arte desde a década de 1960. Entre elas, trabalhos de Rubem Valentim e Athos Bulcão. Atualmente, estão no Museu Nacional. Outro problema do espaço era a viabilidade de organizar exposições. Elas aconteciam no salão principal, que tinha poucas paredes, além de a fachada ser uma varanda.

O MAB foi interditado em 2007, mas sofria problemas havia mais de uma década. “Em 1990, o espaço foi fechado para reforma. Em 1995, novamente. Estava sempre com esse problema de funcionamento. O acervo é muito importante, mas a impressão é de que o museu não teve o reconhecimento que merecia”, destaca Maira.

A promessa da Secretaria de Economia Criativa no Distrito Federal é de reinaugurar o MAB no segundo semestre de 2020. De acordo com a pasta, mais de 30% das obras foram executadas. Questionada sobre a demora na reforma, a secretaria destacou que é um “processo tecnicamente complexo, considerando as intervenções necessárias para adequá-lo às mais modernas práticas museológicas, sobretudo no diz respeito à segurança e conservação do acervo, como fechaduras biométricas e ar-condicionado em todo o edifício”.

Distância do público

Depois de todos os anos em que se manteve fechado, o Museu de Arte de Brasília acabou se tornando um espaço distante até de quem costuma consumir cultura. Entre os jovens, por exemplo, há um desconhecimento sobre o MAB. O estudante Júlio Cezar Rodrigues, 21, conta que é frequentador constante de locais destinados à arte no DF, mas sabe pouco sobre o museu às margens do Lago Paranoá. “Brasília tem boas opções artísticas. Mas percebo que ainda há uma histórica desvalorização governamental desses espaços. O fato de o MAB estar fechado há tanto tempo evidencia isso”, opina.

13 anos fechado

» O MAB foi desativado, em 2007, por conta de uma ação civil pública interposta pela Promotoria de Defesa do Meio Ambiente e Patrimônio Cultural (Prodema), do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), que alegou a necessidade de proteção do acervo, indicando que ele estava armazenado em péssimas condições por conta da deterioração do prédio. O MPDFT ressaltou que as peças poderiam ser danificadas, caso o edifício não passasse por uma reforma. Atualmente, as obras restauradas estão sendo exibidas em espaços culturais como o Museu Nacional.


4.800 m² área total

1960 prédio construído

1985 definido como museu

2007 fechado por recomendação do MPDFT

R$ 8,9 milhões valor da revitalização e modernização do espaço

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