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Correio Braziliense

Crônica da Cidade: nazismo jeca

"Alvim defendeu-se afirmando se tratar apenas de 'coincidência retórica'. Se houve 'coincidência', ele admite que pensa a mesma coisa que Goebbels. Se não, ele cometeu plágio."


postado em 19/01/2020 10:16 / atualizado em 19/01/2020 10:48

(foto: Reprodução/Twitter)
(foto: Reprodução/Twitter)
Quando trabalhei no caderno Turismo, do Correio, recebi uma matéria sobre um roteiro de visitas aos campos de concentração do nazismo. Pensei que fosse uma brincadeira de mau gosto. Mas, não, na Alemanha, eles cultivam o turismo histórico com o objetivo de que o conhecimento impeça a repetição das atrocidades. O nazismo matou cerca de 6 milhões de pessoas da maneira mais covarde e sádica.

Há alguns meses, quando ocupava o cargo de diretor da Funarte, Roberto Alvim ofendeu Fernanda Montenegro, chamando-a de “mentirosa” e “sórdida”. Seria uma agressão dirigida a qualquer pessoa, mas desfechada contra Fernanda foi um atestado de estupidez, porque ela é uma das brasileiras mais talentosas, elegantes (espiritualmente, inclusive), inteligentes, sensíveis e dignas desse país.

Ela paira além de qualquer questiúncula ideológica. Como escreveu Caetano Veloso, Fernanda é uma dama civilizada e civilizadora. É uma pessoa que nos engrandece. Em vez de ser demitido, Alvim foi promovido à condição de secretário especial de Cultura.

Então, Roberto Alvim considerou que estava liberado a alçar voos mais altos de estupidez. No fim de semana, publicou um vídeo institucional em que copiava, quase literalmente, um discurso de Joseph Goebbels, ministro e estrategista de comunicação do nazismo. Goebbels é autor de uma frase que o coloca como precursor das fake news na era da internet e explica muitas coisas que estão acontecendo na cena política: “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”.

O texto de Alvim reza: “a arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional, será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional, e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes do nosso povo — ou então não será nada.”

Alvim defendeu-se afirmando se tratar apenas de “coincidência retórica”. Se houve “coincidência”, ele admite que pensa a mesma coisa que Goebbels. Se não, ele cometeu plágio.

Parte da mídia tem tratado esses fatos lamentáveis como “declarações polêmicas”. No entanto, eles nada têm de polêmicos; são simplesmente aberrações. O que Roberto Alvim fez foi propaganda aberta do nazismo e afronta os valores democráticos. É inaceitável que uma autoridade queira reproduzir a política cultural do regime nazista com o dinheiro público de um país democrático. Não importa se a tirania seja de esquerda ou de direita.

Existe uma escalada nesses ataques em razão da leniência, da complacência e da omissão das instituições responsáveis por zelar pela democracia. Elas têm falhado clamorosamente. Como diz o padre Vieira, a omissão é o pecado que se faz não se fazendo. E foi isso que abriu a porteira para o nazismo jeca, cópia grotesca do pensamento mais abominável da humanidade.

Não se trata apenas de uma declaração infeliz; o que está em jogo é uma ofensiva sistemática contra os valores democráticos. Mas, ao menos ficou uma lição do episódio sinistro: se os cidadãos, a classe política, o STF, a OAB e as instituições da sociedade civil se mobilizam em defesa da democracia, ela se fortalece.


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