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Correio Braziliense

Lotada de carros, Águas Claras tem frota proporcionalmente igual à do Rio

A região administrativa, que tem média de veículos por habitante parecida com a do Rio de Janeiro, carece de planejamento


postado em 20/01/2020 06:00 / atualizado em 19/01/2020 22:58

Segundo a Codeplan, Águas Claras tem 46.837 automóveis, 3.294 motocicletas e 19.427 bicicletas: fluxo intenso de veículos(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Segundo a Codeplan, Águas Claras tem 46.837 automóveis, 3.294 motocicletas e 19.427 bicicletas: fluxo intenso de veículos (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Águas Claras sofre com os problemas de uma metrópole. A cidade, a mais verticalizada do Distrito Federal, foi planejada para ter prédios com, no máximo, 12 andares. Entretanto, o governo, à época, alterou o projeto original e, hoje, há edifícios com mais de 30 pavimentos (leia Para saber mais). Agora, o brasiliense começou a sentir os impactos da localidade inflada. Não há estacionamentos suficientes, faltam equipamentos públicos, como delegacias e hospitais, e os congestionamentos se expandiram das vias para dentro dos condomínios residenciais.

A Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (Pdad) de 2018, da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan), mostra que 161.184 pessoas residem em Águas Claras. Elas estão distribuídas em 53.939 domicílios. Do total, 80,5% (43,4 mil) são apartamentos, enquanto 18,1% (9,7 mil), casas. Em 2013, havia 119.864 habitantes. Comparado com 2018, o número cresceu 34% em cinco anos. Em 2016, o Pdad estimava 148.490 moradores na cidade.

O levantamento mostra, ainda, que 86,8% dos domicílios de Águas Claras têm pelo menos um veículo na garagem. De acordo com o estudo, são 46.837 automóveis na região administrativa. Além disso, há 3.294 motocicletas e 19.427 bicicletas. A quantidade de veículos chega a ser maior do que em outras cidades do DF com população maior. Em Samambaia, por exemplo, vivem 232.893 pessoas, 30% a mais do que em Águas Claras. Lá, há 40.368 automóveis, 13% a menos. Em Taguatinga, com 205.670 habitantes, a situação é parecida: 45.951 automóveis, número quase 2% inferior.

Além disso, o total de veículos em Águas Claras se aproxima de grandes capitais brasileiras. Na cidade do Rio de Janeiro, a segunda cidade mais populosa do Brasil, com 6.688.927 moradores, a taxa média de veículos por 100 mil habitantes é de 30.437. A diferença ante a região administrativa fincada entre Taguatinga, Vicente Pires e Guará é de apenas 4% — o índice é de 29.059 por habitante.

Por causa disso, quem vive em Águas Claras precisa se adaptar ao tráfego pesado. Há cinco meses na cidade, Wemerson Caixeta, 25 anos, teve de alterar a rotina para ir ao trabalho, no Setor Bancário Sul. “Nesse período de férias, o movimento é menor, mas, durante o ano, o fluxo de carros é intenso”, diz. Até para sair do prédio onde mora, na Rua 36 Norte, o engenheiro tem dificuldades. “Como a minha residência fica próxima a dois cruzamentos, já aconteceu de eu ficar cerca de 15 minutos parado no estacionamento do condomínio”, revela.

A fim de fugir dos congestionamentos, o jovem adiantou o horário de saída para o serviço e passou a utilizar aplicativos de carona. “Saio de casa uns 20 minutos antes e pego a carona em algum ponto combinado. Além de economizar dinheiro, evito o estresse de dirigir no trânsito”, explica. Wemerson também evita rodar nos horários de pico. “Diversas vezes, faço hora no Plano Piloto para não ter de encarar o engarrafamento.”

Planejamento

O professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (UnB) Frederico Flósculo Pinheiro Barreto explica que as alterações feitas no projeto original de Águas Claras reforçam os problemas da cidade, que deverão se agravar com o passar do tempo. “O que aconteceu na região é uma tragédia anunciada para Brasília, um exemplo da falta de planejamento urbano. Inicialmente, seria um lugar equilibrado, mas não é isso que se encontra hoje em dia”, aponta.

De acordo com o especialista, a região administrativa também apresenta graves problemas ambientais. “O nome da cidade faz referência a diversas nascentes que existiam ali, no subsolo, que precisaram ser bombeadas para que a cidade fosse construída”, lembra. “O planejamento urbano precisa ser refeito. Os moradores pagam impostos e precisam de algo sustentável, seguro, limpo e agradável”, cobra. Ele destaca ainda que a verticalização imobiliária da região é um jogo perigoso e deverá causar mais transtornos com o passar do tempo. “Uma cidade desse tamanho não tem hospital público, delegacia ou escolas públicas. Falta todo o equipamento da cidadania”, critica.

Em nota oficial, a Administração Regional de Águas Claras informa que fez alterações, no ano passado, no trânsito. Entre as mudanças estão a faixa adicional de rolamento no Balão da Unieuro, a construção do Balão da Avenida Parque Águas Claras com a Flamboyant, além da intervenção no semáforo da Avenida Pau-brasil. De acordo com o órgão, as obras para construção de outra saída da cidade deve começar neste ano.

Ausência de estacionamento

Com o crescimento de Águas Claras, outro problema enfrentado pelos moradores é a falta de estacionamentos. Geralmente, quem vive em prédios tem direito a uma vaga de garagem e deixa os outros veículos estacionados do lado de fora dos edifícios, ocupando vagas que poderiam ser usadas por pessoas que estão de passagens ou por consumidores. “O fluxo de carros na região é constante. Próximo à entrada do Park Way e do balão em frente ao Supermercado Big são onde pego mais trânsito” reclama o empresário Vitor César Soares, 33 anos.

O morador de Taguatinga Norte afirma que os horários mais movimentados são pela manhã, das 6h ao meio-dia, e no fim da tarde, a partir das 17h. “Cheguei a ficar quase uma hora parado no trânsito”, relembra. A maior dificuldade, porém, está na busca por estacionamentos. “Quando tenho de esperar clientes não há um local específico de parada. O estacionamento público é sempre cheio. Já os particulares são caros. A média de uma hora custa de R$ 10 a R$ 15”, calcula.

Integração

O passageiro Elson Pereira, 37, também percebe dificuldades para se locomover em Águas Claras, mesmo no transporte coletivo. Para sair de São Sebastião até o local do trabalho, próximo à Avenida das Castanheiras, o cozinheiro tem de pegar um ônibus e o metrô. “Durante o mês das férias, é mais tranquilo, mas, a partir de fevereiro, a situação complica, devido às superlotações, aos poucos ônibus e aos engarrafamentos”, aponta.

Em nota oficial, a Secretaria de Transporte e Mobilidade (Semob) ressalta que 23 linhas de ônibus circulam na cidade. Acrescenta que os moradores também podem contar com o metrô, que aceita bilhete único e faz integrações para outras localidades do DF.

Para saber mais

Pressão sobre plano original
No início dos anos 1990, investidores do ramo habitacional voltaram os olhos para Águas Claras. Cooperativas ocupavam os terrenos vendidos pelo governo local e servidores de vários segmentos passaram a construir pequenos edifícios, que saíram a bons preços para os compradores. Entretanto, no fim daquela década, grandes construtoras pressionaram o Governo do Distrito Federal (GDF) para explorar os terrenos. A partir disso, o plano original da cidade foi alterado, permitindo a construção de prédios com até 32 andares.

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