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Correio Braziliense

Saúde pública tem o desafio de evitar nova epidemia da dengue em 2020

Com 62 mortes no ano passado por causa da doença, o Distrito Federal se prepara para evitar nova epidemia. Medidas preventivas e reforço na rede de atendimento tentam frear o total de casos, principalmente em Planaltina, Ceilândia e São Sebastião


postado em 21/01/2020 06:00

"Na primeira vez, em 2008, foi bem complicado. Fiquei internada 12 dias. As dores no corpo eram insuportáveis, fora que o meu fígado foi comprometido 80%", Jéssica Ferreira Paulino, moradora do Paranoá (foto: ED ALVES/CB/D.A Press)
Em 2019, o Distrito Federal viveu a pior epidemia de dengue da história. A Secretaria de Saúde registrou mais de 47 mil casos prováveis e 62 evoluíram a óbito. Um número elevado, em comparação com 2018, que teve cerca de 2,4 mil casos e duas mortes. Planaltina, Ceilândia e São Sebastião concentraram o total de casos prováveis. De acordo com a pasta, a explicação para o aumento de internações e fatalidades no ano passado foi a maior circulação da doença tipo dois.

A consultora previdenciária Jéssica Ferreira Paulino, 28 anos, teve duas vezes dengue hemorrágica, a mais perigosa. “Na primeira vez, em 2008, foi bem complicado. Fiquei internada 12 dias. As dores no corpo eram insuportáveis, fora que o meu fígado foi comprometido 80%”, conta a moradora do Paranoá. Na segunda vez, a consultora esteve em constante observação. “Fiquei internada 10 dias e fiz acompanhamento médico de maio a junho. As dores me deixaram preocupada. Tive muito medo de morrer”, admite. Após as experiências traumáticas, a consultora se previne com atenção. “Não deixamos vasilhas ou plantas acumulando água. Usamos repelente no corpo e nas tomadas de casa 24 horas.” Para ela, é preciso cuidado: “O mosquito ainda está por aí, levando essa doença horrível. Eu fui curada, mas outras pessoas podem não ter a mesma sorte que eu tive”, alerta

Os primeiros dias de 2020 variam entre chuvas frequentes, com dias de sol e altas temperaturas. Alexandre Cunha, infectologista do Hospital Brasília, no Lago Sul, explica que esse é o tipo de ambiente perfeito para a proliferação do mosquito Aedes aegypti, transmissor da doença. “A dengue é uma doença sazonal, ou seja, aparece durante determinadas épocas do ano. Em períodos chuvosos, é comum haver mais casos”, diz. Mesmo com esse cenário, Alexandre complementa que, após epidemias, é comum que o número reduza: “Geralmente, depois de alguns períodos ruins, nós temos uma queda de casos em anos subsequentes, já que grande parte da população foi picada pelo mosquito”, aponta.

O epidemiologista Pedro Luiz Tauil explica que existem quatro vírus reconhecidos para a dengue e que, ao ser acometido com determinado tipo de vírus, o indivíduo desenvolve proteção perante o mesmo para sempre. “Como se sabe, a epidemia do ano passado foi ocasionada pela introdução do vírus tipo dois, que não circulava havia alguns anos. É importante reforçar que as condições climáticas de 2019 também foram mais propícias para o aumento no número de casos”, ressalta.

Apesar desse cenário, o epidemiologista alega que é difícil prever outra epidemia. “O elo vulnerável é o mosquito. Há tanto a possibilidade da proliferação de um novo sorotipo quanto a persistência do tipo dois” detalha. Pedro adverte que a prevenção deve ser mantida: “Garrafas, pneus, restos de construção e vasos de plantas podem ser possíveis reservatórios de água parada. O cidadão precisa se atentar às atitudes dentro de casa”. Além disso, o especialista sugere que haja uma vigilância nos chamados pontos estratégicos, ou seja, locais onde possa haver acúmulo de água. “É importante também manter as campanhas governamentais, mesmo no período onde a incidência é baixa”, alega.

Qualidade

O estudante Jean Luiz de Oliveira Souza, 15, contraiu dengue em dezembro de 2019. O morador do Gama conta que, enquanto esteva doente, buscou atendimento público, mas sem sucesso. “Os médicos ficavam conversando e demoravam a atender. Fui mais de uma vez, e um deles parecia que nem estava me ouvindo. Acabei indo a um hospital particular”, reclamou. O jovem conta que, após a doença, passou a prestar mais atenção em possíveis focos. “Aqui em casa não deixamos água parada. Acho que foi alguma casa da vizinhança, tem algumas cheias de poças d’água”, denuncia.

Morador de Valparaíso (GO), O professor Raphael Ribeiro Rocha, 24, lutou contra a doença em maio do ano passado. “Fui para três hospitais. Não consegui nem fazer a triagem. Na quarta tentativa, fui a uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), onde, finalmente, consegui efetuá-la. Aguardei cerca de quatro horas pelo atendimento e desisti, pois não havia nem previsão”, lamenta. Raphael, então, seguiu para um hospital particular e pagou pela consulta e pelos exames. “Eu, felizmente, tinha como arcar com o atendimento em um hospital particular. E quem não tem? Aguarda a sorte ou a morte?”, questiona.

Em nota, a Secretaria de Saúde informa que “trabalha para melhorar a qualidade do atendimento ao paciente e tornar mais rápido o acolhimento em caso de uma nova epidemia de dengue. Na assistência à saúde, a pasta vem trabalhando na otimização do acolhimento do paciente com qualificação, organização da expansão de horas tanto de servidores quanto das unidades de atendimento e atualização dos fluxos. O foco é aumentar acesso à Atenção Primária”.

Prevenção

Segundo a Secretaria de Saúde, a Diretoria de Vigilância Ambiental (Dival) intensifica a prevenção. “A Dival aumentou o controle vetorial, com uso de larvicidas e aplicação do (veneno) Ultra Baixo Volume (UBV) costal, principalmente nas cidades que apresentaram mais casos. Constantemente, são realizadas capacitações aos profissionais de saúde, tanto para os agentes de vigilância ambiental — que fazem a fiscalização nos imóveis — quanto para os profissionais da assistência que atuam nas unidades de saúde. Todos os dias, os agentes de vigilância ambiental realizam inspeções nos imóveis de todo o Distrito Federal”.

* Estagiárias sob supervisão de Guilherme Goulart

Atenção

Saiba quais cuidados tomar para evitar a doença e a proliferação do mosquito transmissor:

» Evite água parada
» Tampe baldes, caixas d’água e tonéis
» Deixe garrafas viradas para baixo e mantenha lixeiras sempre tampadas
» Coloque areia nos pratos de vasos de plantas
» Mantenha ralos e calhas sempre limpos
» Use repelente
» Acione a Vigilância Ambiental, o SLU ou a Novacap caso suspeite que um local seja potencial foco do mosquito

Fonte: Secretaria de Saúde

Sintomas

A secretaria de saúde reforça que, ao apresentar dois ou mais desses sintomas, o paciente deve procurar a unidade de saúde mais próxima de sua residência. Os principais sintomas são:

» Náusea;
» Vômito;
» Manchas vermelhas no corpo;
» Sinal de sangramento;
» Dores no corpo, na cabeça e em volta dos olhos.
 
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