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Correio Braziliense

DF e Entorno têm cinco suspeitas de feminicídio em menos de um mês

Em 20 dias, houve quatro mortes de mulheres por questão de gênero no DF e uma no Entorno. Casos recentes ocorreram no Núcleo Bandeirante e em Águas Lindas


postado em 22/01/2020 06:00 / atualizado em 22/01/2020 15:32

Fátima Lisboa, 31, no Núcleo Bandeirante (foto: Reproducao)
Fátima Lisboa, 31, no Núcleo Bandeirante (foto: Reproducao)
Mais dois casos de violência se somam aos feminicídios investigados em 2020. Na segunda-feira, duas mulheres foram encontradas mortas, uma no Núcleo Bandeirante e outra, em Águas Lindas de Goiás. A empresária Fátima Lisboa, 31 anos, morreu assassinada pelo ex-companheiro no apartamento onde morava, no Núcleo Bandeirante. O segundo episódio teve como vítima Ketley Estefany Silva Nascimento, 17. Policiais localizaram o corpo dela esquartejado e dentro de um freezer, no município do Entorno. O ex-namorado é acusado do crime.

No caso do Núcleo Bandeirante, segundo as investigações, o ex-namorado de Fátima Lisboa a matou entre as 11h45 e as 12h45 de segunda-feira. O crime ocorreu no apartamento para onde ela havia se mudado depois de se separar de Atevaldo Sobral Santos, 48. Ele se matou em seguida, em uma chácara no Riacho Fundo 1. “Ontem (segunda-feira — 21/1), ela mandou uma mensagem às 11h40, e eu retornei às 11h50. Depois disso, ela não falou mais comigo. Fiquei a tarde inteira tentando contato. Hoje, a moça que morava com ela me ligou pela manhã e disse que não conseguia entrar no apartamento; então, decidimos chamar a polícia”, contou Maria José Lisboa, 44, irmã de Fátima.

Policiais militares se deslocaram até o imóvel na Avenida Contorno e encontraram o corpo da vítima. Uma vizinha, que não quis ser identificada, percebeu uma movimentação estranha no apartamento na tarde do assassinato. “Não houve discussão, mas escutei gritos vindos do apartamento. Porém, como ela havia acabado de se mudar, achava que era barulho de obra e arrumação”, explicou a testemunha. “Não cheguei nem a conhecê-la, não deu tempo. Estou me sentido culpada por não ter ido no local para ver o que era”, lamentou. Segundo a irmã da vítima, o acusado usou uma tábua de cortar carne para matá-la.

Fátima e Atevaldo namoraram por mais de um ano, mas estavam em processo de separação. “Antes, eles moravam em um apartamento no Riacho Fundo 1. Sempre se deram bem. O relacionamento era tranquilo, e ele era uma boa pessoa. Atualmente, estavam se separando, mas eram amigos”, relatou a irmã. Fátima havia se mudado na sexta-feira, com as duas filhas — ambas não são filhas dele — e uma colega. “Fui para lá sábado ajudá-la a arrumar as coisas”, relembrou Maria José. “Por causa da mudança, as meninas ficaram na casa de uma tia. Ela estava desempregada, mas se virava vendendo bijuterias. Nós duas éramos muito amigas, nos víamos todos os dias e, agora, éramos praticamente vizinhas. Vai fazer muita falta”, lamentou a irmã. Fátima deixou três filhos.

A síndica do prédio ficou abalada. “Passei o dia inteiro fora; então, não ouvi nem fiquei sabendo de nada”, relatou. O único contato que as duas tiveram aconteceu no dia da mudança. “A proprietária do apartamento fechou contrato com ela. Vi apenas quando fui abrir o portão para ela.” Segundo a síndica, o companheiro a acompanhou na sexta-feira. “Eles pareciam estar bem, um casal normal”, opinou. No edifício, não há câmeras de segurança.

Laís Nasser, 32, conheceu a colega no ramo de vendas de acessórios. “Trabalhamos em uma loja do Taguatinga Shopping. Aos poucos, ela me ajudou a atuar na área, sem pedir nada em troca”, contou. “Tivemos vários momentos bons e engraçados. Ela chamava bastante a atenção por onde andava. Sempre estava se relacionando, não gostava de ficar sem companhia, mas eu a alertava para ter cuidado”, recorda Laís.
 
Larissa Maciel, 23 anos, morava na Candangolândia(foto: Facebook/Reprodução)
Larissa Maciel, 23 anos, morava na Candangolândia (foto: Facebook/Reprodução)
 

Águas Lindas

O segundo caso e o primeiro feminicídio do ano registrado no Entorno é o de Ketley Estefany. Agentes da delegacia de Águas Lindas encontraram o corpo da vítima em uma casa da Quadra 77 do bairro Jardim Pérola da Barragem II, na tarde de segunda-feira. Ela havia nascido em Paratinga (BA) e conheceu o ex-namorado, de 23 anos, pela internet. Por causa dele, mudou-se para a cidade goiana. Segundo o delegado Danilo Victor Nunes, o jovem é o principal suspeito de matá-la. Ele está foragido. “Até o momento, não o encontramos, mas agentes estão na rua para tentar localizá-lo”, afirmou.

De acordo com o investigador, o suspeito, que é açougueiro, cortou o corpo da jovem com uma faca de 30cm de comprimento e, em seguida, colocou as partes no congelador. “Sabemos que ela veio da Bahia para morar com ele, em Águas Lindas. Os dois mantinham um relacionamento de pouco mais de um mês”, reforçou.

A denúncia, segundo informou Danilo, partiu do pai do acusado. “Ele (pai) procurou a Central de Flagrantes da cidade no mesmo dia do crime, dando a notícia de que o filho teria matado a namorada, mas não informou detalhes nem o paradeiro dele”, ressaltou o delegado. O caso está sob investigação.
 
Gabrielly Miranda, 18, vivia em Samambaia(foto: Arquivo Pessoal)
Gabrielly Miranda, 18, vivia em Samambaia (foto: Arquivo Pessoal)
 

Duas perguntas para 

Leonardo Sant’Anna, especialista em segurança pública e privada

Quais medidas podem ser tomadas para diminuir e conscientizar a população sobre a violência contra a mulher?

Esse comportamento deve ser alterado a partir de bancos escolares, com políticas públicas, que são normas e regras estabelecidas pelo GDF aos seus gestores de diversas secretarias. Apenas a ação da Justiça e das forças policiais não são suficientes. Secretarias como as de Cultura, Educação e do Trabalho sempre foram excelentes parceiras nessas ações governamentais.

Por que é importante manter a discussão sobre o assunto?

Só aceitamos nos vacinar contra uma doença quando sabemos da sua gravidade. Meter a colher na briga de marido e mulher deve ser, de maneira consciente e qualificada, uma postura importante para a população. Contudo, isso só ocorre quando tocamos na realidade do problema e nos vemos como parte da solução. O início desse novo comportamento é com o conhecimento. A vida das mulheres não deve ser um mero número.

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