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Correio Braziliense

Formado em gastronomia, motorista de app assassinado queria abrir negócio

Três homens e um adolescente estão detidos pela morte de Maurício Sodré, 29 anos. O crime ocorreu na madrugada desta quinta-feira (23/1), no Núcleo Rural Boa Esperança II, na Granja do Torto, depois de a vítima ser atraída com a desculpa da entrega de um lanche


postado em 24/01/2020 06:00 / atualizado em 24/01/2020 12:51

Um morador da área rural da Granja do Torto encontrou o corpo e o veículo do motorista de aplicativo caídos no buraco de uma estrada de terra(foto: Arquivo Pessoal)
Um morador da área rural da Granja do Torto encontrou o corpo e o veículo do motorista de aplicativo caídos no buraco de uma estrada de terra (foto: Arquivo Pessoal)
Em menos de 12 horas, a Polícia Civil prendeu três homens e um adolescente acusados de participar do latrocínio (roubo com morte) do motorista de transporte por aplicativo Maurício Cuquejo Sodré, 29 anos. O crime ocorreu na madrugada desta quinta-feira (23/1), no Núcleo Rural Boa Esperança II, na Granja do Torto, e reforçou a insegurança da categoria. Dados da Secretaria de Segurança Pública (SSP) mostram que, em média, a cada 2,5 dias, um condutor do sistema é vítima de sequestro relâmpago no Distrito Federal. Nesta quinta-feira (23/1) à tarde, houve um protesto desses condutores na Asa Norte.

Segundo a investigação do caso, Maurício aceitou uma corrida solicitada pelo aplicativo de um dos suspeitos — todos com menos de 25 anos. A vítima estava na Asa Norte e seguiu até a Granja do Torto, onde estava o grupo. Segundo o delegado Laércio Rossetto, chefe da 2ª Delegacia de Polícia (Asa Norte), a ideia, inicialmente de um roubo, surgiu porque os acusados ficaram sem dinheiro. “Eles estavam bebendo e consumindo drogas. Como queriam continuar a noite, decidiram assaltar algum motorista de aplicativo. A informação preliminar é de que Maurício pegaria um lanche para o grupo, na Asa Norte, para seguir até a Granja do Torto. Essa teria sido a isca para que a vítima fosse até o local”, explicou.

Quando Maurício chegou ao endereço do quarteto, três deles, incluindo o adolescente, o renderam. Pelo menos dois dos jovens estavam armados com facas. Três deles entraram no carro, um Logan branco. “Os suspeitos disseram que o objetivo era apenas o roubo, mas ficaram com medo de que o motorista pegasse uma arma de fogo e reagisse. No entanto, isso não tem procedência, pois nem o grupo nem a vítima estavam com algum armamento”, esclareceu Rossetto.

Maurício levou diversas facadas, na parte de trás da cabeça, no lado direito do pescoço e na face. Feridas no braço esquerdo e na mão direita indicam que o motorista tentou lutar e se defender dos agressores. “Após o ataque, os quatro suspeitos colocaram a vítima dentro do porta-malas e seguiram até a área rural. Acreditamos que o objetivo deles era desovar o corpo em meio ao matagal. Contudo, o homem que assumiu o controle do volante acabou caindo dentro de um buraco (de uma estrada de terra), momento em que a água entrou no automóvel”, detalhou o investigador.

Os jovens saíram do veículo e tiraram Maurício do porta-malas. “Acreditamos que ele também foi esfaqueado nessa hora, pois tinha muito sangue até o local onde o cadáver foi deixado, em uma segunda poça, a poucos metros do carro. Mas isso só será confirmado pelos peritos”, destacou.

Provas

O carro e o corpo de Maurício foram encontrados por volta das 7h por um morador local, que acionou a polícia. Ele também achou duas facas próximas ao automóvel, que teriam sido usadas no assassinato. Os objetos foram apreendidos e encaminhados para perícia. “Trabalhamos para identificar quem teria esfaqueado o motorista. Mas não descartamos a hipótese que mais de um dos acusados tenha sido responsável por golpear a vítima”, disse o delegado.

Investigadores procuram imagens de câmeras de segurança na região do crime e no restaurante da Asa Norte onde a o condutor buscou o lanche para os acusados. “Com esses materiais, poderemos levantar outras provas que auxiliem na elucidação do latrocínio”, adiantou Laércio.

O carro de Maurício passa por perícia na câmara de fumigação de cianoacrilato, no Instituto de Identificação. O equipamento, único na América Latina, é específico na produção de prova material por meio de impressões digitais. “O material genético que será encontrado no carro será muito importante para agregarmos ao inquérito para que, assim, não haja qualquer dúvida de que os suspeitos detidos hoje (esta quinta-feira — 23/1) estão envolvidos em um crime tão brutal e bárbaro”, finalizou o investigador.

Sonhos

Maurício trabalhava como motorista de transporte por aplicativo havia oito meses. Foi a mãe dele, Maria do Socorro Sodré, 58, quem emprestou dinheiro ao jovem para a compra do veículo. A atividade surgiu como alternativa para construir o sonho de ele abrir o próprio negócio, no ramo de gastronomia. Irmão da vítima, Marcus Sodré, 24, explicou que Maurício tinha se formado em curso técnico da área no ano passado. “Estava cheio de expectativas para este ano. Leu muitos livros de economia e queria crescer na vida. Apesar de ele ter se mudado recentemente de casa (no Gama), ele mantinha contato direto comigo e com a nossa mãe. Era ali na cidade onde levava o carro para lavar, só para falar com a gente”, contou.

Abalada, a mãe do jovem, Maria do Socorro, também relembrou os objetivos de Maurício. “Ele era formado. Tinha a vida dele e tudo o que queria era construir o próprio negócio e vencer na vida. O que essas pessoas ganharam matando o meu filho desse jeito, meu Deus?”, questionou. “Sei que agora Deus está tomando conta do meu menino. Ele sempre teve uma vida difícil, porque era hemofílico (distúrbio na coagulação do sangue) e fazia acompanhamento no Hemocentro. Para mim, ele está descansando”, disse a mãe.

A vítima

(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)
 

 

Maurício Cuquejo Sodré

* Tinha 29 anos
* Morava em Santa Maria
* Trabalhava como motorista de aplicativo havia oito meses
* Recém-formado em gastronomia
* Deixou a mãe, de 58 anos, e um irmão, de 24

Memória

2020

(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)
 

 

» Em 18 de janeiro, três pessoas encontraram o corpo de Aldenys da Silva, 29 anos, em avançado estado de decomposição, às margens da BR-070, próximo a Brazlândia. Mais tarde, a polícia o identificou como motorista de aplicativo. O caso foi registrado como latrocínio (roubo com morte) na 19ª Delegacia de Polícia (P Norte, em Ceilândia), pois o carro da vítima, assim como o celular, foram roubados. Agentes identificaram o suspeito, que solicitou uma corrida provavelmente para assaltar Aldenys.

2019

(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)

 

» Em 13 de outubro, Henrique Fabiano Dias, 25, foi assassinado enquanto trabalhava. Um taxista encontrou o corpo dele no Setor de Indústria e Abastecimento (SIA) e acionou a Polícia Militar. Antes de ser morto, o motorista de aplicativo entrou em contato com a namorada, informando que realizaria uma corrida, com início em um posto de gasolina do Núcleo Bandeirante. Com as informações, investigadores da 8ª DP (SIA) chegaram a um grupo de cinco adolescentes, com idades entre 14 e 17 anos. Eles foram apreendidos pela PM no Guará, com o carro da vítima.

» Em 11 de outubro, Tiego Cavalcante, 28, morreu com um tiro no rosto. O cadáver foi encontrado em uma estrada de chão, em Samambaia Sul. Ele tinha recebido um chamado para uma corrida por meio de aplicativo às 17h40 do dia do crime. O automóvel dele foi levado. Mais tarde, a polícia encontrou o veículo perto da Feira Permanente de Samambaia Norte. A 32ª DP (Samambaia Norte) ficou responsável pelo caso.

Cuidados

Confira as medidas de segurança oferecidas aos motoristas de transporte por aplicativo:

» Ao receber chamadas, confira informações básicas, como destino, nota do passageiro e frequência
» Os motoristas têm a opção de aceitar ou não pagamentos em dinheiro
» É possível se inscrever em cursos presenciais com orientações sobre segurança
» O sistema bloqueia chamadas de risco e mapeia zonas perigosas, alertando o condutor
» É possível acionar um kit de segurança que compartilha a rota em tempo real

Fonte: 99 Pop

Duas perguntas para Leonardo Sant’Anna, 

Especialista em segurança pública e gestão estratégica em segurança e ordem pública pela Universidade de Brasília (UnB)

Como as empresas de aplicativos podem ajudar a resguardar a vida dos motoristas?

O aumento da insegurança dos motoristas de aplicativos era uma questão de tempo. A proteção necessária para o moderno tipo de serviço que passou a ser prestado não se ajustou nem aos números nem às características da violência no Brasil. Soluções disponíveis que poderiam ser oferecidas aos motoristas e passageiros, como uma simples câmera interna a ser instalada no veículo, tiveram menor prioridade do que outros tipos de inovações, como a de selecionar a temperatura do ar ou escolher se quer que o condutor fale ou não com o passageiro. Diversos países muito menos violentos que o Brasil adotam a solução das imagens internas do carro.

Como os motoristas de transporte por aplicativo podem tentar se cuidar da violência nas viagens?

Sem mudança urgente, fica vulnerável quem usa o serviço e quem trabalha nessa atividade. Quem dirige esses carros só poderá se proteger negando viagens ou limitando os locais onde pretende circular. Além disso, temos um tripé que favorece o crime: conjunto de leis bastante frágeis, entes governamentais que fingem não haver problemas e falta de atitude e sensibilidade das empresas de aplicativos. A tendência é de que essa ocupação se transforme em uma nova epidemia de violência urbana, como ocorreu no passado com taxistas.

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