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Correio Braziliense

Centro cultural oferece aulas de balé para crianças de comunidades carentes

As aulas serão oferecidas pelo centro cultural no Setor de Chácaras do Lago Norte. Para comemorar os 20 anos da iniciativa, grupo fará apresentações no teatro do Pavilhão do Parque, um espaço desativado há três décadas


postado em 25/01/2020 07:00

(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
Plié, tendu, jeté, fondu: esses são os nomes de alguns dos passos de balé que fazem parte do dia a dia das alunas do Centro Cultural Dançar é Arte, que fica no Setor de Chácaras do Lago Norte. Moradoras de comunidades carentes do Distrito Federal, elas compartilham o sonho de se tornarem grandes bailarinas. Hoje, a iniciativa atende 180 crianças de sete locais: Ceilândia, Estrutural, Granja do Torto, Itapoã, Paranoá, Recanto das Emas e Varjão.

Segundo a coordenadora e idealizadora, Kátia Moraes, o projeto tem como objetivo levar oportunidade a quem não tem. “Quando comecei tudo, me inspirei na minha vida, porque também fui bolsista em escolas de dança. Eu tive quem acreditou em mim”, desabafa. Nascida em Goiânia, Kátia decidiu criar o projeto quando se mudou para a capital federal. “Eu via a incidência das drogas, a marginalização e pensava no futuro das crianças”, lembra.
 
Bolsista de dança na infância, Kátia Moraes é a idealizadora do projeto(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
Bolsista de dança na infância, Kátia Moraes é a idealizadora do projeto (foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
 

O centro de dança celebra duas décadas de existência. Nesse tempo, 800 alunos passaram por lá. Com 2 mil pessoas na lista de espera, Kátia garante nunca ter imaginado chegar a esse estágio. “Caminhamos a passos de formigas, mas conseguimos chegar aos 20 anos dessa forma, com tanta procura”, enaltece.

Segundo a coordenadora, é nítida a melhora das alunas após o ingresso no balé. “Nós vemos a mudança em tudo. A forma crítica, a maneira como elas veem o mundo. Elas passam a ser pessoas de opinião, não simplesmente crianças conduzidas. Passam a ser questionadoras e dedicadas, a ter disciplina e respeito”, afirma. “Na verdade, o projeto reforça e, muitas vezes, é o primeiro gestor no sentido de dar educação. De ensinar o que pode e o que não pode”, completa.

Os sorrisos frequentes das crianças não impedem as preocupações de Kátia e da equipe. Para o projeto se manter, a coordenadora do Dançar é Arte recorre a pizzas e artesanatos. “Para 150 crianças são gastos, em média, R$ 100 mil por mês. Para obter recursos, damos capacitações na área de panificação e confeitaria, além de termos um ateliê onde ofertamos cursos às famílias”, detalha. Em 2019, a iniciativa contou com a ajuda do Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente do Distrito Federal (CDCA-DF), mas, para este ano, a busca por parcerias se mantém. “Se eu não tiver apoio, vou ter que reduzir as turmas. É tudo uma história, um legado. O governo precisa acordar. Se não despertar, eu vou ter que desistir”, lamenta.
 
(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
 

Orgulho dos pais

Foi na pontinha dos pés que Sofia Pereira Barbosa, 11, aprimorou o desenvolvimento motor. A mãe dela, a dona de casa Vânia Lúcia Pereira Barbosa, 45, explica que a filha tem epilepsia e deficiência intelectual leve, mas isso nunca impediu a menina de acompanhar o grupo. “Ela participa de todas as apresentações”, exalta. No projeto há pouco mais de um ano, Sofia impressiona os médicos: “Desde que ela entrou, melhorou muito. Eu mostro os vídeos dela dançando para o pessoal do Hospital da Criança, e todos notam que a coordenação dela está boa”.

Vânia acrescenta que foi graças ao centro de dança que Sofia teve acesso a atividades como o balé. “Se não fosse esse projeto, eu não conseguiria pagar uma atividade desse tipo. Os médicos disseram que fazer exercício faria bem a ela”, ressalta.

Outra bailarina mirim é Luíza Rocha, 10. Há pouco mais de três anos, a dona de casa Inês de Paula Rocha, 40, pôde ver a filha realizar um sonho. “Fazer dança sempre foi o desejo dela. Ela vivia pedindo para fazer aula, via vídeos no YouTube, aí tivemos essa chance.” Hoje, a mãe é só orgulho. “Como ela entrou com muita vontade, em apenas um ano já desenvolveu muito. Já está na turma das meninas mais velhas”, conta.

Anfiteatro

Para comemorar os 20 anos, o Centro Cultural Dançar é Arte vai apresentar o espetáculo As Quatro Estações no Anfiteatro do Pavilhão do Parque da Cidade Dona Sarah Kubitschek, espaço de 250 metros quadrados e com arquibancada para 2 mil pessoas. De acordo com Kátia Moraes, o marco deste ano é o local: “O anfiteatro está abandonado há quase 30 anos. Com esse espaço, podemos fomentar a cultura de forma turística”.

A coordenadora do projeto fez uma parceria com a administração do Parque da Cidade e a Secretaria Executiva das Cidades, com o objetivo de que o antiteatro seja reformado e reativado após a apresentação. “Queremos fazer com que o nosso legado tenha êxito. Fazer com que possamos trazer outras vertentes da cultura, como artes cênicas, festivais de música, circo e cinema. Os apoios mostram que com o governo, temos como deslanchar”, diz Kátia.

A dificuldade em encontrar espaços para o espetáculo foi grande, segundo ela. “Infelizmente, os teatros de Brasília são utilizados majoritariamente por pessoas que não são daqui. E nós, brasilienses, acabamos sem espaço. Alguns estão fechados, outros estão sendo reformados, outros me cobrariam até R$ 20 mil pelo uso. Não tem como, eu nunca cobrei uma entrada.” A reportagem procurou a Secretaria de Cultura para questionar sobre a situação do anfiteatro e dos outros espaços culturais, mas a pasta não retornou até o fechamento desta edição.

* Estagiária sob supervisão de Marina Mercante

As Quatro Estações — O Espetáculo

» 31 de janeiro e 1º de fevereiro (sexta e sábado) 
» Às 19h
» No Anfiteatro do Pavilhão do Parque da Cidade Dona Sarah Kubitschek

Centro Cultural Dança é Arte — Como participar

» Inscrições: até 10 de fevereiro.
» Requisitos: ter entre 6 e 13 anos, podendo permanecer até 18 anos.
» Regiões atendidas em 2020: Estrutural,  Itapoã, Granja do Torto, Paranoá e Varjão.
» Documentos exigidos: ficha de inscrição e autorização, cópia da declaração escolar, RG ou certidão de nascimento e comprovante de residência (enviar para o e-mail contatodancarearte@gmail.com ou entregar pessoalmente na 
sede do centro cultural).
» Obs.: O envio dos documentos não garante a participação. As vagas são limitadas, e os candidatos passarão por um critério de seleção.
» Endereço: DF-006, Trecho 3, Núcleo Rural Córrego do Torto, Setor de Chácaras do Lago Norte, Chácara Pôr do Sol, Número 19.
» Mais informações: www.dancarearte.com.br, (61) 3468-3245 e (61) 98542-0510.

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