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Correio Braziliense

Papuda: polícia suspeita que fugitivos usaram talheres para cavar buraco

Três homens cavaram um buraco para escapar do Centro de Detenção Provisória. Na cela, dormiam outros nove presos. Subsecretaria do Sistema Penitenciário e Polícia Civil investigam se houve favorecimento de servidores na ação


postado em 29/01/2020 06:00

(foto: Reprodução)
(foto: Reprodução)
Três presos fugiram do Complexo Penitenciário da Papuda na madrugada desta terça-feira (28/1). O grupo cavou um buraco na parede de uma cela do Bloco 1 da Ala A, no Centro de Detenção Provisória (CDP). A investigação está a cargo da 30ª Delegacia de Polícia (São Sebastião), que tenta esclarecer se houve favorecimento de servidores da Subsecretaria do Sistema Penitenciário (Sesipe) na ação. A Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP-DF) também instaurou inquérito interno para apurar o caso. Até o fechamento desta edição, apesar das buscas empreendidas por policiais civis e militares, os homens continuavam foragidos.

A ala onde ocorreu a fuga fica em um dos complexos mais antigos do presídio. A estrutura de tijolo e cimento tem diversos remendos. O local recebe apenas presos com idades entre 40 e 60 anos, exatamente por se tratar de um espaço considerado vulnerável, de acordo com o subsecretário Adval Cardoso, da Sesipe. Na cela em que o buraco foi aberto, dormiam 12 detentos, incluindo os fugitivos André Cândido Aparecido da Silva, 40, Carlos Augusto Mota de Oliveira, 43, e Roberto Barbosa dos Santos, 41.

Em análise preliminar, o trio teria adquirido um objeto para escavar a parede. “Naquela ala, há presos que trabalham na limpeza. Apesar de serem escoltados e observados (pelos agentes), é possível que, durante algum turno, eles tenham pegado um objeto, como uma colher ou um garfo. Com um desses talheres, é possível que o buraco tenha sido aberto ainda na madrugada, sem qualquer barulho. Essa é a hipótese mais provável”, destacou Adval Cardoso.

O buraco dá acesso ao teto da unidade prisional. André, Carlos e Roberto seguiram por baixo das telhas da laje estrutural. Dali, pularam o muro e, depois, ultrapassaram a cerca de proteção. “Acreditamos que eles puxaram o cercado para cada um passar, pois não há nenhum corte. A princípio, não havia sinal de sangue”, acrescentou o subsecretário.

Os outros nove presos que dormiam na cela prestarão esclarecimentos sobre a fuga. “Como são homens mais velhos, é possível que eles não tenham se juntado ao trio com medo de aumentar a pena ou perder benefícios. Mas vamos apurar como os fugitivos conseguiram o objeto para cavar o buraco”, disse Adval. Ainda na manhã desta terça-feira (28/1), a cela passou por perícia minuciosa do Instituto de Criminalística da Polícia Civil. A análise poderá confirmar ou descartar se os detentos utilizaram um talher para a escavação e para o dano da estrutura predial. O resultado sai em até 30 dias.

Equipes da Diretoria Penitenciária de Operações Especiais (DPOE) também realizam as buscas dos foragidos. A Polícia Federal foi acionada para auxiliar na força-tarefa. Qualquer informação sobre os homens pode ser passada pelos telefones (61) 3234-4468, 197 e 190.

Nível de ameaça

O consultor em segurança pública George Felipe Dantas pondera que a fuga de presos é uma questão histórica em presídios de todo o mundo. A avaliação do problema revelado por ela, segundo o especialista, depende de apuração mais profunda das autoridades. “Para entender o que ela revela de ameaça ao sistema penitenciário, é preciso ter certeza se foi falha humana, falha do sistema ou se faz parte de uma ação do crime organizado.”

Na visão dele, o sistema penitenciário do DF enfrenta problemas pela falta de efetivo e pelo excesso de presos. “A questão do efetivo é até mais preocupante do que a quantidade de detentos. Uma coisa importante a se destacar é que não temos presos provisórios em delegacia, o que coloca uma pressão maior dentro do sistema”, complementou.

Segundo levantamento da Sesipe feito nesta terça-feira (28/1), a Papuda conta com 16.406 internos (em todos os regimes) para 7.398 vagas. O número mais que dobrou desde 2008, quando havia 7,4 mil detentos. Estão em construção quatro blocos, com previsão de inauguração para o primeiro semestre, que comportarão 3,2 mil presos. Atualmente, o sistema prisional tem 1.998 servidores em atuação, entre agentes de execução penal, agentes policiais de custódia, delegados de polícia e servidores de áreas administrativas.

“Até junho de 2018, a lei que organiza a carreira de execução penal no DF permitia o preenchimento de até 1,6 mil vagas de agentes de execução penal. Em julho do mesmo ano, com a criação de 1,4 mil vagas pelo Poder Legislativo, foi ampliada a possibilidade de contratação para até 3 mil agentes”, informou a Secretaria de Segurança Pública, em nota. “Com o preenchimento dessas vagas, a média de internos por agente chegará a 5,6, valor bem próximo do recomendado pelo Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNMP), qual seja, um agente para cada cinco presos nas unidades”, acrescentou a pasta.

Memória

Fuga e crise no governo

Em fevereiro de 2016, 10 presos fugiram de uma ala de segurança máxima do Complexo Penitenciário da Papuda. Eles conseguiram escapar durante uma chamada nominal feita pelos agentes. À época, o problema gerou crise no governo de Rodrigo Rollemberg e culminou na demissão da cúpula da secretaria de Justiça, então responsável pela instituição. Cinco dias depois, houve uma tentativa de fuga no presídio. A movimentação, no entanto, foi detectada pela inteligência, agentes revistaram detentos e impediram que mais presos escapassem da penitenciária. 

Para Ibaneis, falta integração 

Em agenda pública nesta terça-feira (28/1), o governador Ibaneis Rocha (MDB) comentou a fuga dos três detentos da Papuda. O emedebista afirmou que a situação está em apuração e que as forças de segurança trabalhavam para capturar os fugitivos. Na ocasião, no entanto, o chefe do Executivo local voltou a falar sobre a permanência de líderes de organizações criminosas, como Marcola, do PCC, no DF, e contestou o ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sergio Moro.

“Tenho sido muito duro, talvez, em relação a essa questão do presídio aqui. Mas existe uma reclamação que não é só minha, é de muitos governadores, no sentido do distanciamento do ministro Moro, que não ocorria com o ministro (Raul) Jungmann”, declarou, em referência ao titular do Ministério Extraordinário da Segurança Pública no governo Temer.

Na semana passada, o secretário de Segurança Pública do DF, Anderson Torres, enviou um ofício para Moro em que pedia esclarecimentos e informações urgentes sobre a atuação de grupos criminosos na capital. O documento recebeu aval do governador. Na avaliação da cúpula do GDF, havia risco iminente de incidentes envolvendo integrantes de facções. A fuga de integrantes dessas organizações no Paraguai e no Acre e a existência de um plano para libertar Marcola foram citados para embasar as reclamações.

Em meio à turbulência, Torres reuniu-se com outros secretários do país e com o presidente Jair Bolsonaro para reivindicar a recriação do Ministério da Segurança, hoje vinculado à Justiça e sob o comando de Moro. A sinalização do chefe do Palácio do Planalto de que estudaria o caso causou uma crise no governo e motivou questionamentos sobre o impacto nas atribuições de Sergio Moro. Bolsonaro adiou a discussão e manteve a pasta como está.

Nesta terça-feira (28/1), Ibaneis reclamou da falta de diálogo entre o ministério e os governos locais. Ele defendeu a necessidade de uma política integrada de segurança pública. “Eu nunca fui convidado pelo ministro Moro para tratar sobre a segurança pública do Distrito Federal, e assim tem sido com a maioria dos governadores”, disse. “Acho que o presidente Bolsonaro é um homem muito inteligente e deveria orientar o seu ministro”, acrescentou. 

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