Cidades

Brasília sexagenária: Catetinho foi símbolo da construção da nova capital

Símbolo de que era possível construir uma nova capital no centro do Planalto selvagem, Catetinho acumula mais de 60 anos de história rica

O símbolo de que tudo era possível. Um palácio construído de madeira, às pressas, um projeto que surgiu de uma conversa entre amigos em uma mesa do bar, uma obra de 10 dias de duração. O Catetinho, reunindo todas essas características, marcava o início da nova capital.

O famoso palácio de tábuas nasceu da vontade do então presidente de ter um local para pernoitar e acompanhar a construção de Brasília de perto, enquanto as obras do Palácio da Alvorada não eram concluídas. O desejo de JK foi expressado em uma visita à nova capital, em 2 de outubro de 1956, segundo o historiador do Arquivo Público do DF Elias Manoel Silva. Juscelino estava acompanhado de diversas personalidades, entre elas, Oscar Niemeyer.

Na volta, a residência provisória foi assunto de uma conversa entre amigos no Juca’s Bar, um bar famoso no Rio de Janeiro, que ficava dentro do hotel Ambassador, construído pelo engenheiro José Ferreira de Castro Chaves, conhecido como Juca Chaves. A conversa foi registrada em uma entrevista de Juca ao Programa de História Oral do Arquivo Público do Distrito Federal. “O João Milton Prater (piloto) e o Oscar Niemeyer foram lá, ao Juca’s Bar, já com a ideia possível de se fazer uma casa. Sabendo da minha vivência com obras, construção (...), foram lá e me disseram: ‘Oh, nós estamos com um problema aí. Juscelino quer fazer uma casa lá em Brasília, você acha que dá?’”, contou o engenheiro ao Arquivo Público.
 
 

Diante da pergunta, Juca destacou que, se tivesse como os caminhões chegarem, era possível. A partir da afirmativa, Juca levou Niemeyer até a construção de um prédio e mostrou o barraco de obras, espaço de madeira de pinho, onde ficam escritórios. Cerca de dois dias depois, Niemeyer apresentou o projeto do palácio de tábuas.

O local destinado ao Catetinho ficava a cerca de 30km do Plano Piloto. “Na primeira viagem, o JK visitou o olho d’ água, e achou muito bonito. Eles concluíram que era o lugar mais propício, pois tinham água e uma casa, na Fazenda do Gama”, explica o historiador Elias Manoel. Já o nome do atual museu veio depois, inspirado no Palácio do Catete, sede da presidência da República no Rio.

O palácio de tábuas da Capital da Esperança ficou pronto em poucos dias e foi inaugurado em 10 de novembro de 1956. “JK viajava toda semana do Palácio do Catete para o Catetinho. Chegava na sexta e voltava no domingo. Ele fazia os despachos e, principalmente, pegava o jipe e ia visitar as obras.  Joaquim Tavares conta que, à noite, o então presidente reunia os responsáveis pelos departamentos para saber como estavam indo os trabalhos”, completa Elias Manoel.

Para o historiador, o Catetinho, é o exemplo de que em Brasília tudo era possível. “Eu uso as palavras de JK. Ele diz que, se um grupo de amigos, com poucos recursos, construiu esse espaço para ele, imagina ele, presidente da República, o que não poderia fazer? Para mim, o Catetinho se tornou um símbolo motivacional”, destaca.
 
 

Os araxaenses

Para construir o Catetinho, foram chamados operários da empresa Fertisa, localizada em Araxá, município de Minas Gerais. “Ela estava parada e sugeriram que, em vez de trazer os profissionais do Rio de Janeiro, aproveitassem os trabalhadores do empreendimento mineiro”, detalha o historiador Elias. O aposentado Ahilton Guimarães, 83 anos, trabalhava na Fertisa na época e acompanhou de perto o processo de construção do famoso palácio de tábuas. “Participei dos preparativos. Fazia o controle do envio dos materiais e dos operários. Minha função era datilografar e fazer a relação para prestar contas ao governo depois”, relata Ahilton.

O trabalho a distância não era fácil, pois não havia nenhuma estrutura no terreno onde seria Brasília, obrigando a empresa a cuidar de todos os detalhes para os operários que permaneceriam na futura capital. “Não tinha comunicação, não existia Brasília no mapa. Era cerrado puro, um chapadão a perder de vista. Quando o pessoal partia, precisava levar tudo: comida, barraca, roupa. Nós só tínhamos como ponto de referência a Fazenda do Gama”, lembra. Os operários vinham para Brasília na carroceria de caminhões, cobertos por lona. Ao todo, foram enviados 42 homens, aos poucos, segundo Ahilton. “Era uma viagem dura e penosa, rumo ao desconhecido”, analisa.

Ahilton só veio conhecer o palácio alguns meses depois da inauguração. “Eu era moço, tinha 20 anos. Me marcou muito a sensação de participar de uma obra tão importante. No início, a gente não sabia o valor que ela poderia ter futuramente, nós só sabíamos que iam construir um palácio de tábua. Fiquei emocionado de chegar e ver a obra que havia sido anunciada.”, comenta.

O serviço pesado dos operários de Araxá foi lembrado na reinauguração do Catetinho, em 2012, quando Ahilton e outros profissionais foram convidados para virem a Brasília participar da cerimônia. A história dos araxaenses também virou um livro, escrito pelo próprio Ahilton: A construção do Catetinho.  “Resolvi homenagear os operários. Eles viviam no anonimato. Eu queria também que nossa cidade resgatasse esse fato da participação de Araxá, efetivamente, na história da construção da primeira residência do presidente em Brasília”, ressalta. Hoje, quem visita o museu também pode conhecer mais sobre os operários mineiros com a exposição fotográfica do local, que relembra detalhes de pessoas importantes da construção.

A saga

Outubro 1956 — Amigos de JK se reúnem e iniciam os projetos do Catetinho

Novembro 1956 — Inauguração do Catetinho

Novembro 1959 — Tombado como Patrimônio Cultural do DF

1991 — Primeira restauração

1996 — Segunda reforma

2012 — Terceira reforma entregue em uma cerimônia que homenageou os profissionais envolvidos na construção

Construído pelo povo

Era o centro das decisões do poder, mas também era um lugar cercado pela simplicidade e por almas candangas. Para Luiz Humberto de Faria, 71, esse era um pouco do cenário representativo do Catetinho. Escritor, professor e jornalista, ele chegou à nova capital ainda antes da inauguração, em 1957. “Brasília me adotou. São 63 anos que moro aqui, me sinto em casa. Nasci em Uberlândia (MG), mas meu pai veio com a família, para abrir uma loja de eletrodomésticos no (Núcleo) Bandeirante. Então, tenho o Catetinho como um lugar especial”, detalha.

Foi esse o prédio que deu aos brasilienses as primeiras impressões sobre como seria a arquitetura da cidade, por exemplo. “O desenho dele (do Catetinho) é o ponto de partida de Oscar Niemeyer. O pilotis, que é fundamental para Brasília, foi colocado lá. É o modelo clássico, com traços retos e muito simples, quase como um acampamento de operário de obra”, descreve. Outra característica que torna o espaço algo simbólico, segundo ele, é a força da população. “A iniciativa de construir o Catetinho não foi política, foi espontânea. A vontade popular que edificou esse local. A partir daí, ele se incorporou ao mundo oficial. Ou seja, um prédio idealizado pelo povo acabou inaugurando a realidade da construção de Brasília”, afirma.
 

Fatos como esse inspiraram Luiz a escrever o livro A bailarina empoeirada, que apresenta a história da capital por meio de relatos de pessoas comuns, que foram essenciais para o sucesso dos planejamentos de Juscelino Kubitschek. “Percebi que muita da nossa história é contada pela versão oficial. Então, o termo ‘bailarina empoeirada’ é um eufemismo para retratar a população que veio para cá, tomou poeira e não fazia parte dos relatos”, explica. As pesquisas de Luiz mostraram ainda que o palácio de tábuas representava a força do plano de construção de Brasília, que enfrentava ataques constantes.

“O Catetinho foi colocado de pé muito rapidamente porque, se não fosse assim, não daria para construir nada. A pressa do Juscelino era muito justificável. Ele enfrentava uma oposição muito severa, que considerava a nova capital um delírio. As resistências à mudança eram muito grandes”, lembra. Por isso, o escritor também ressalta que o atual museu é cercado de simbolismo. “Quem visita o Catetinho pode ver como se constrói uma nação nova, como que um sonho pode mudar a vida. Sem sonhar, ninguém vai a lugar nenhum. Estamos vivendo uma época em que a utopia está sendo criticada. Mas, com ela, se muda o mundo”, diz.

Passado e presente

Um museu diferente. Lembrando o passado rico, é assim que Artani Granjeiro começa a explicar o presente do Catetinho. Gerente do espaço há um ano, ela conta que a tarefa de definir o local é difícil, porque cada pessoa tem um sentimento distinto ao entrar na antiga moradia de JK. “Para cada um, ela é algo diferente. Recebemos recentemente uma senhora de 89 anos. Ela estava maravilhada. Perguntei do que ela havia mais gostado, ela disse que era ‘estar aqui’. Ou seja, para ela, bastava estar presente. Museu é isso, um lugar a que a gente vai e depois sai diferente. Não importa como, mas diferente, renovando a percepção”, reflete.

Artani descreve com carinho a estrutura do espaço. “Temos uma ambiência de 1956 que faz aquele resgate do mobiliário, dos objetos, além desse clima de casa de fazenda. Também estamos em uma área de proteção ambiental. Temos um cerrado preservado, uma mata de galeria, área com uma nascente. Isso faz parte da história de todos, não só de Brasília, mas da nossa nação. Por isso, as pessoas sempre ficam muito emotivas quando visitam”, detalha. Além do resgate histórico que possibilita aprendizados, o Catetinho é um ponto privilegiado de Brasília para uma tarde de paz.

Cercado de verde, o ponto turístico é frequentemente utilizado para piqueniques, brincadeiras ao ar livre ou até mesmo para contemplação. “Há um clima de tranquilidade. Às vezes, as pessoas vêm só para ficar no banco de madeira, aproveitando o dia. Alguns falam que é um lugar para se energizar. Até para mim é especial. A gente trabalha ouvindo os passarinhos, nós estamos em uma reunião e passa um tatu. Isso tudo é prazeroso demais”, conta. Uma trilha natural também permite o acesso à Casa Velha, outro espaço histórico.

Atendendo aos pedidos de brasilienses que consideravam o Catetinho um ponto muito distante e pouco atrativo, a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal providenciou mudanças recentes. Em conjunto com o Departamento de Estradas de Rodagem (DER), por exemplo, foi feita uma nova via de acesso ao centro, por dentro do Brasília Country Club, encurtando o trajeto em cerca de 7km. Segundo Artani, o movimento de visitantes no ano passado cresceu 34% em relação a 2018, e a meta é intensificar. “Temos oito projetos selecionados para ações culturais no Catetinho em 2020. Teremos teatros, shows, exposições, oficinas. Tudo isso já foi aprovado e vamos começar a divulgação”, adianta.

Visitação

Terça a domingo das 9h às 17h

Aviões

A Casa Velha é a antiga sede da Fazenda Gama. A residência, atualmente com mais de 150 anos, servia de apoio para o Catetinho e teve grande participação na história da construção do Palácio de Tábuas. “Foi um dos primeiros lugares visitados pelo JK e depois serviu como uma espécie de aeroporto. Ali, ainda funcionou um radioamador que controlava os pousos dos aviões. Virou um centro de comunicação na época”, afirma o arquiteto João Luiz Batelli, que trabalhou na restauração do espaço. A casa centenária fica a menos de 1km do Catetinho e hoje está aberta à visitação.

Água de beber

» Além da nova capital, o Catetinho ainda foi palco do nascimento de duas obras clássicas da MPB. Tom Jobim e Vinicius de Moraes ficaram hospedados no Palácio de Tábuas durante 10 dias, em 1960, a convite de JK, para compor a Sinfonia da Alvorada. Durante a estadia, um diálogo com trabalhadores do local rendeu ainda a icônica Água de beber.

» Conta a história popular que quem transitava pelo espaço tinha muito apreço pela bica d’água que ficava atrás do Catetinho. Certo dia, um vigia disse a Tom: “É aqui que tem água de beber, camará”, dando origem à música que diz ainda: “A minha casa vive aberta / Abri todas as portas do coração”. No livro Samba falado, Vinicius de Moraes explicou que o espaço do Catetinho fica “junto a um capão de mato onde brota um lindo olho d’água”.

» O livro revela também que a Sinfonia da Alvorada nasceu com a concepção de uma bela festa cultural. “A ideia não era nova. Cerca de dois anos e meio antes, Oscar Niemeyer me falara do assunto, e sonhamos juntos a possibilidade de criar um espetáculo ‘Som e luz’ para Brasília, à maneira dos que se fazem na França, em Versailles, Fontainebleau e outros castelos”. 
Arquivo/Arquivo Publico do DF -
Vinicius Cardoso Vieira/CB/D.A Press -
Vinicius Cardoso Vieira/CB/D.A Press - um jardim