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Correio Braziliense

Conheça José João, pedreiro que construiu a sede do Correio 60 anos atrás

A emocionante história do primeiro pedreiro que chegou para construir a sede do Correio Braziliense. No meio do nada, ele viveu uma saga de 100 dias de trabalho exaustivo, suor, frio, chuva, geada e saudade da família que ficara para trás


postado em 16/02/2020 08:00

Elegante, de chapéu e bota, o funcionário de crachá número 44 voltou ao lugar onde viu tudo começar, em janeiro de 1960. Nos anos 1980, com a sua Maria José, na casa em que moraram dentro do jornal (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Elegante, de chapéu e bota, o funcionário de crachá número 44 voltou ao lugar onde viu tudo começar, em janeiro de 1960. Nos anos 1980, com a sua Maria José, na casa em que moraram dentro do jornal (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Sem imaginar, da aposta entre um presidente Bossa-Nova e um poderoso dono de um conglomerado de jornais e rádios de um Brasil do fim dos anos 1950, começava a ser escrita a história de um homem completamente anônimo, sem faixa, sem poder, sem nada. A aposta era esta: se Juscelino Kubitschek transferisse a capital do país para o Planalto Central, Assis Chateaubriand, fundador dos Diários Associados, inauguraria um jornal e uma TV nesse novo lugar. Um lugar que, em meados dos anos 1950, não passava de uma miragem.

Lá em Belo Horizonte, um mineirinho de Conceição do Mato Dentro, partiu para Brasília. Ele e mais outros poucos operários. Recém-casado, contava 25 anos, e deixou o trabalho na extinta TV Itacolomi (do grupo dos Diários Associados) para chegar à futura capital. A mulher ficou em Belo Horizonte. Ele partiu. Era 29 de dezembro de 1959, três dias antes do ano que seria o marco para mudança do próprio país. Zé João, como passou a ser chamado, tinha uma missão: ajudar a construir a sede de um novo jornal. E lá veio ele, pelejando quatro dias, na boleia de um caminhão, entre a capital mineira e o meio do nada. Era preciso desbravar a mata para que os jipes e caminhões passassem.

Era preciso coragem para começar do nada. Além das seriemas, das onças, dos veados e do cerrado sem-fim, só havia sonho. José João, o candango desconhecido, veio. Ele sabia que só teria emprego aqui por 100 dias. Sem imaginar, ele começava a escrever a melhor história da sua vida. A que justificou toda a sua trajetória. A que o faz chorar, como menino, quando começa contar. E, ainda sem imaginar, José João nem adivinharia que ia ficar para sempre por aqui.

Na tarde chuvosa da última terça-feira, o Correio Braziliense foi à casa de José João, no Riacho Fundo. Logo na entrada da casa de dois pavimentos, ainda na garagem, numa prateleira de madeira, as imagens de três Nossas Senhoras. O principal operário da obra veio até o portão. Passos lentos, mas ainda firmes, aos 85 anos, José João é o contador da saga dessa obra. Na verdade, mais do que uma obra. Uma odisseia de 100 dias,  quando tudo era improvável.

E pequenos feitos, no começo, eram comemorados como provas de resistência. Como tomar café, junto aos outros operários, companheiros de luta e de suor, quando a primeira parede ficou pronta. A primeira parede que as chuvas daquele rigoroso janeiro de 1960 deixaram ficar em pé. “A gente construía, vinha a chuva e derrubava tudo. A primeira parede em pé foi motivo de muita alegria.”

Um caminhão trazia o material de Belo Horizonte —- todo o maquinário —- pela estrada inacabada. Cimento, tijolos, fiação e massa eram comprados na Cidade Livre, Núcleo Bandeirante. E assim, dia após dia, a obra tomava forma. “Faltava tudo. Até água, para beber e para a construção. Todos os operários moravam em alojamentos dentro da obra. A gente pegava água numa fonte perto daqui e trazia num caminhão. Foi uma luta, meu filho. Mas o doutor Edilson Cid Varela, o doutor Ari Cunha, o engenheiro Antônio Honório e o Jairo Valadares, o gerente da construção, estavam sempre atentos.”


Água de beber

Ari Cunha, na sua Coluna Visto, Lido e Ouvido, em 21 de abril de 1976, escreveu: “Desde o primeiro tijolo, aqui estivera o José João, até hoje nosso companheiro. Era ele que acompanhava tudo da obra”. Na sua casa no Riacho Fundo, o principal operário desse assombro de construir um jornal no meio do nada relembrou aqueles dias: ”Eu descobri uma fonte de água potável bem perto do jornal, coloquei um cano e a gente puxava água. Era a água que matava a nossa sede, quando tudo faltava”.

Construir um jornal exige gente. Era preciso operários para que a obra ficasse pronta até o dia da inauguração da nova capital. “As necessidades de urgência praticamente nos fizeram dobrar, a cada mês, o número de operários. Em fins de janeiro tínhamos 100 candangos; em meados de fevereiro, 200 e em março, mais de 300. Até 21 de abril chegamos a contar com mais de 500 candangos, vivendo na obra e trabalhando de 16 a 18 horas por dia. Os suprimentos acompanharam o ritmo da construção: 4 milhões (de cruzeiros novos) em março; 9 milhões, em abril, e, finalmente, 2,6 bilhões, em maio, para saldar os compromissos finais”, revelou o jornalista Edilson Cid Varela, numa entrevista ao Correio Braziliense, cujo título foi O nascimento de um jornal predestinado, em 21 de abril de 1976, quando a cidade completava 16 anos.

Indiferente a cifras, valores, empréstimos, José João, o mestre de obras, comandava os seus operários com olhos de lince. Era o seu ofício. “Além da obra, eu tomava conta dos acampamentos. Era muito novo, mas tinha muita responsabilidade. Era preciso ter.”

José João contou a aventura de construir a sede do principal jornal da nova capital como se contasse capítulos da própria vida. “Minha história se mistura com a história do Correio.” E pediu desculpas por não esconder as lágrimas. “Você me desculpa, meu filho, mas é porque tudo de bom na minha vida eu vivi ali. É a história de toda a minha permanência em Brasília. É a minha casa. Eu vim emprestado do grupo dos Diários Associados, em Minas Gerais, para ajudar na construção do jornal e da TV. Depois dos três meses, eu teria que voltar. Nunca mais voltei.”

"Daqui não passa"
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

As lembranças povoam a cabeça lúcida de José João. Ele se lembra de uma visita que Juscelino Kubitschek fez com as filhas à obra. “Era muito distinto. Muito educado. Presidente como Juscelino nunca mais vai ter.” E lembra que, aos domingos, na sua rápida folga, ia caçar pelo cerrado sem-fim do Planalto Central. “Era o que tinha pra gente fazer”, conta. E reflete, ainda com os olhos umedecidos: “Era chuva dia e noite, frio, geada, sofrimento e amor, tudo junto. Foi uma afronta fazer isso daquele jeito. Mas eu nunca pensei em desistir.”

Atento a tudo e preocupado com a segurança da obra, José João era rigoroso. Numa dessas vezes, faltando um pouco mais de mês para o prazo acabar, 21 de abril, Assis Chateaubriand veio ver de perto a construção do seu jornal. Ao chegar, já em cadeira de rodas, o segurança quis levar o patrão até uma das áreas ainda inacabada, cheia de estacas. “Eu disse: ‘Não vai passar. Aqui, não. Pela segurança dele. Vai que uma estaca dessa cai na cabeça dele’. O segurança voltou de onde eu tinha parado.” Hoje, 60 anos depois, o mestre de obras contou, ainda certo da decisão: “Eu disse: ‘O jornal é dele, mas a obra é minha’. O segurança não passou com o doutor Assis”.

Depois da inauguração do Correio Braziliense e da TV Brasília, o acampamento foi desfeito. Operários procuraram outras obras na cidade que começava. Brasília era um canteiro de obras por toda parte. Era barro vermelho e construção. José João ficou. Morou 15 anos num barraco de tábua dentro do próprio jornal. Ali, trouxe a sua mulher, Maria José, com quem havia se casado ainda em Belo Horizonte, antes mesmo de vir para a saga da construção das obras dos Diários Associados. E adotou Marcos, no dia em que nasceu, o único filho que teve. “Ele nasceu no Hospital de Base. Trouxemos o Marcos pra casa no mesmo dia.”

Ali, dentro da própria sede do jornal, José João morou mais 14 anos. Desta vez, numa espécie de apartamento com dois quartos, no prédio original, onde hoje é parte do refeitório dos funcionários dos serviços gerais. “Foram 29 anos ali dentro. Todas as minhas lembranças tão lá”, diz, olhando para fotos antigas dentro de um álbum que ele guarda como seu melhor tesouro.

De volta ao começo

Na última quarta-feira, José João retornou ao lugar onde começou, há 60 anos toda a sua história na terra de JK. Dirigindo o seu próprio carrro, uma Hyundai Tucson, com direção hidráulica, e chegou à sede do prédio principal às 10h. O mestre de obras, que estudou só até o quarto ano primário, foi saudado, por um velho companheiro de trabalho, como “engenheiro”. Amilton Alves de Souza, de 73 anos, que chegou anos depois da inauguração do jornal, ainda foi subordinado a José João. Auxiliar de serviços gerais, o abraço dos dois comoveu quem viu. “Ele é um filho pra mim. É como se eu estivesse reencontrando um filho que deixei de ver por muito tempo.”

O baiano Amilton — que nunca foi chamado de Amilton, mas de Dodô, apelido de infância ainda na Bahia — escutou o mineiro José João falar. Emocionou-se como filho ouve pai falar. “Ele faz muita falta aqui. Foi um chefe muito humano. Sabia ouvir a gente”, conta, sem disfarçar os olhos marejados. Os dois cochicharam como meninos de escola. “Meu Deus, Dodô, eu nem pensei que você ainda estivesse trabalhando por aqui. E vivo”, brincou o “engenheiro”, que foi eleito pelo homem que conserta vazamentos dos banheiros do jornal. Dodô devolveu: “Tô vivinho, vivinho”. José João diz que, agora, os dois nunca mais vão se perder. Trocam telefones: “Você vai comer galinha caipira lá na minha terrinha, lá no Girassol”. Dodô agradeceu: “Sim, é bem pertinho da minha casa. Moro em Águas Lindas”. E se abraçaram mais uma vez.

E a “excursão” pelo lugar que conhece melhor do que todos que estão nele agora não parou. Foi recebido por diretores da empresa, no terceiro andar. Ganhou presentes. Esteve na redação. Foi abraçado por todos que viu pelo caminho. Havia deferência em cada gesto. Das salas dos homens de terno, José João foi ao começo de tudo. Parte do que foi sua casa por 14 anos, sua última casa, hoje é refeitório dos funcionários da limpeza. Ali foi outra festa, mesmo que ninguém o conhecesse, exceto Dodô, que o acompanhou por toda a visita. Ali, exatamente ali, a comida da sua Maria José exalava. De repente, no hoje depósito de papel, ele parou e disse, como se visse nitidamente um retrato à sua frente: “Aqui tinha um pé de laranja e outro de limão”.

A última missão
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

Depois de morar por quase três décadas dentro do próprio Correio, José João foi para o Cruzeiro Velho, sua primeira casa de verdade. Casa grande, com jardim bem cuidado pela sua Maria José, que morreu há três anos. E seguiu trabalhando no jornal, agora como encarregado-geral, para sua última missão: a construção do parque gráfico.

E foi lá, no fim da manhã da última quarta-feira, a última parada no passeio de volta. José João comandou toda a construção do lugar. Conheceu alguns funcionários. Desceu gente até do Marketing Digital para conhecê-lo. Daniela Soraia Brito, de 34 anos, e Akemi Akaoka, 31, emocionaram-se ao vê-lo de perto. “É uma honra saber dessas histórias”, disse Daniela.

Há mais de 10 anos, José João vendeu a casa no Cruzeiro Velho e foi morar no Riacho Fundo. Sua Maria José, a mulher com quem viveu por mais de 60 anos, morreu há três. “No fim da vida, ela nem sabia mais quem eu era. Me chamava de pai. Morreu nos meus braços”, contou, chorando. Há cinco meses, perdeu também o único filho, Marcos, aos 52 anos. “Ele teve complicações do diabetes.”

Católico, devoto de Nossa Senhora, José João ficou sozinho. Veio a solidão. Uma antiga conhecida, ministra da eucaristia, passou a conversar com ele. Passaram a ir juntos à igreja. Na carência de ambos, veio o amor. José João casou-se, há dois anos, com a piauiense Rita Maria da Conceição, 61, separada, seis filhos adultos e 13 netos. “De repente, minha vida ganhou sentido”, disse ele. “Eu enfrentei, no ano passado, um câncer de estômago. Ele me acompanhou a todas as consultas, na cirurgia e durante o tratamento. É o meu companheiro”, emocionou-se ela.  Ele a abraçou. Diabético (toma três insulinas por dia), ela cuida com extremo zelo da alimentação dele. Um cuida do outro. Um protege o outro. Moram sozinhos, no Riacho Fundo. “Ganhei filhos e netos. No almoço do domingo, a casa fica cheia”, comemorou.

“Viver mais dez anos”

No fim da visita, depois de todos os abraços, de voltar aos lugares, de sentir cheiros que ainda permanecem na sua memória, José João disse, segurando o braço de Rita Maria: “Agora, eu posso morrer. E morro feliz”. Rita o repreendeu: “Não diga isso, meu amor. Morrer, não. Agora, você vai viver ainda mais”. José João riu. E refez a frase: “A felicidade que tô agora, depois  dessa visita, vai me fazer viver mais 10 anos”.

Hoje, aos “85 anos e meio”, o mineirinho que chegou aqui quando só havia mato, veados, onças e seriemas, conta a história da sua vida como se contasse um filme. Um filme bom. José João desmatou, desbravou, caçou aos domingos, quando nada havia. Ergueu paredes, liderou um monte de gente que veio de longe, como ele. Uma gente que deixou família e trouxe, além de uma trouxa de roupa, muita saudade.

José João escreveu, mesmo que nem soubesse exatamente àquela época, a história de um jornal e da própria capital que se iniciava. O único jornal no mundo que nasceu no mesmo dia do nascimento de uma cidade. José João estava aqui. Viu tudo. Foi à Esplanada, segurando seu chapéu surrado. Não ficou em camarote. Não recebeu homenagens. Juntou-se aos milhares de peões de obra que se acotovelaram para ver a cidade nascer. Tudo era um assombro.

Naquele distante 21 de abril de 1960, José João ganhou, como presente dos peões, uma cachaça. Guarda até hoje, sem abrir, intacta, como prova de uma saga. Com a sua quarta série primária, ele leu, ainda naquele dia, a primeira manchete do jornal no qual deixou o seu suor impregnado. Sentiu-se importante. Era parte, também, da sua própria história. E lá estava escrito: “Brasil, capital Brasília.”


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