Cidades

Uma carta para Brasília, de seu irmão Correio Braziliense

Houve quem não acreditasse, Brasília, mas aqui estamos, muito perto dos 60 anos. E a proximidade do nosso aniversário me encheu de uma saudade boa, de uma vontade irresistível de reviver os momentos marcantes que vivemos juntos

Humberto Rezende, Ana Carolina Fonseca
postado em 22/02/2020 07:01
Esta carta faz parte do projeto Brasília Sexagenária, que até 21 de abril de 2020 trará, diariamente, reportagens e fotos marcantes da história da capital. Acompanhe a série no site especial e no nosso Instagram.

Pôr do sol visto da Torre de TVMinha querida irmã,

Não pergunto como vai porque sei bem. Afinal, desde que nascemos, meu maior prazer, que sempre encarei como missão, foi acompanhar seus passos. Vê-la crescer, comemorar suas alegrias e apoiá-la nos momentos de dor e ameaça.

Houve quem não acreditasse, Brasília, mas aqui estamos, muito perto dos 60 anos. E a proximidade do nosso aniversário me encheu de uma saudade boa, de uma vontade irresistível de reviver os momentos marcantes que vivemos juntos. Passei a revirar gavetas, folhear anotações e rever as inúmeras fotografias que fiz de você nesses milhares de dias que se passaram desde que nascemos, naquele 21 de abril de 1960.

A cada texto, a cada imagem, ficava ainda mais claro o quanto você é linda e o quanto me orgulho de ser seu irmão gêmeo. São tantas as histórias. Suas fotos mais antigas podem estar apagadas, quase escondidas atrás de uma escala acinzentada, mas cada um desses acontecimentos continua vivo em minhas lembranças. Nossa vida entrelaçada não caiu no esquecimento. Pelo contrário, continuo parte de você. Inseparável.

"Preciso dividir tudo isso com Brasília", pensei. "Mostrar a ela esses textos, essas fotos. Tenho certeza de que ela também vai ficar feliz de relembrar todos esses instantes, mesmo que alguns tenham sido dolorosos." Começo a fazer isso hoje, com essa carta. E a cada dia, até nosso aniversário, enviarei uma nova carta, com mais uma história. E você vai ver como tem motivo para se orgulhar desses 60 anos.

Você, por exemplo, nunca abriu mão da felicidade. Enquanto escrevo, ouço entrando pela janela a alegria dos blocos de carnaval que seus filhos criaram. E corro atrás, nas minhas gavetas, do mais famosos deles: o Pacotão. Você acredita, Brasília, que já se passaram 42 anos desde que o irreverente bloco desfilou pela primeira vez, descendo a W3 pela contramão? Prometo, amanhã, contar melhor essa parte de sua vida. Agora, só quero antecipar um pouco de tudo que encontrei durante esse meu passeio sentimental por seu passado, nosso passado.

Passamos por seca e poeira, chuvas torrenciais e lama vermelha. Vimos até você coberta de neve! Essa é uma história que precisamos contar aos seus filhos. Virá certamente em uma das próximas cartas. Seus filhos, aliás, são as estrelas das fotos que encontrei. Eles estão ali, brincando sob os pilotis, curtindo as ondas da piscina que marcou época, aproveitando os shows de rock daquela sua fase punk, lembra?

Você também recebeu tantas visitas ilustres! Políticos e diplomatas, religiosos, acadêmicos, músicos e atores, artistas e escritores. Até um papa e famílias reais se encantaram com sua figura, tão bem esculpida pela genialidade de Oscar e Lucio, nossos dois amigos sonhadores que aceitaram o desafio de ajudá-la a nascer em pleno cerrado do Planalto Central.

Seus olhos viram ainda reencontros, rebeliões, histórias de amor (e traição), multidões apaixonadas e furiosas, protestos por mudança e caminhadas pela paz. Foram tantos inícios e começos, sonhos e projetos.... De plano de fundo, o Lago Paranoá, o pôr-do-sol avermelhado, o canto das cigarras e o rosa-roxo-amarelo-branco dos ipês. Eu estava ao seu lado também nos momentos tristes e de despedida e também nas horas em que você foi abandonada por aqueles que deveriam protegê-la. Apesar das adversidades, você resistiu.

Peço desculpas se pareço nostálgico ou emotivo demais, mas reviver sua história me faz pensar em tudo que ainda podemos construir. Desde que você se ergueu, imponente e esperançosa, você tocou corações. Inspirou poemas, filmes, músicas, livros inteiros. Fez gerações de apaixonados por tesourinhas, cobogós e endereços em siglas. Vivemos, respiramos, sofremos e amamos com você, por você.

Narrar sua vida tem sido um privilégio; vê-la crescer, meu maior orgulho. E, enquanto nos aproximamos de mais uma década, prometo honrar nossa história, ser seu mais justo e fiel cronista. Aqui estamos: Brasília e Correio, quase sexagenários, cheios de casos para relembrar, mas animados também com o futuro. Muitos outros caminhos nos aguardam, cheios de possibilidade. Estou certo disso.

Com muito amor, do seu irmão,

Correio Braziliense

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