Cidades

Pais resgatam brincadeiras de rua para afastar filhos de games e celulares

Em meio a avanços tecnológicos, pais incentivam filhos a praticar passatempos populares ao ar livre, como alternativa aos celulares, computadores, tablets e televisão

Ana Maria da Silva*
postado em 25/02/2020 06:00
Pais também são estimulados pelo projeto Curumim Cultural, em Samambaia. Iniciativa  visa ao resgate de brincadeiras tradicionaisQuem tem mais de 40 ou 50 anos lembra como era juntar a turma de amigos para pular amarelinha, andar de carrinho de rolimã, brincar de pega-pega, jogar pião ou queimada. São brincadeiras que fazem parte do imaginário de muitos adultos, mas que hoje raramente são vistas nas ruas. Em tempo de modernidade e avanços tecnológicos, as conhecidas telas de celulares, computadores, tablets e televisão substituem os passatempos antigos. No entanto, são cada vez mais frequentes os exemplos de pais que incentivam os filhos a brincarem ao ar livre.

É o caso da professora Ana Beatriz Magalhães, 27 anos, que motiva diferentes brincadeiras com os filhos e evita o uso da televisão. Mãe do Samuel, 4, e Ricardo, 2, ela conta que optou por restringir a tecnologia no lar. ;Nos primeiros dois anos de vida do meu segundo filho, ainda deixávamos a TV ligada enquanto brincávamos com o mais velho. Mas resolvemos cortá-la de vez. Só ligamos e acessamos eletrônicos quando as crianças estão dormindo;. Ela explica que a mudança de hábito foi dífícil e lenta. ;Mas, após um tempo, percebemos o quão ruim era o tempo gasto na frente da tela;, conta.

Pinturas, massas de modelar, pique-esconde e bola são algumas das atividades que fazem parte da rotina dos pequenos e ajudam no desenvolvimento da criatividade. ;Busco incentivá-los a brincarem juntos, criando novos jogos. Quando um adulto não pode estar presente, ensino o respeito que devem ter um com o outro. A ausência dos pais não os deixa sem ter o que fazer, pelo contrário, inventam mais coisas para fazerem juntos;, frisa Ana Beatriz. Ela explica que o fato de morarem em apartamento não atrapalha o divertimento. ;Eles descem todos os dias para brincar na quadra ou embaixo do prédio. Não há necessidade de ir para uma casa;, complementa.

De acordo com a professora, os passatempos são os momentos de maior aprendizagem e desenvolvimento na fase inicial da criança. ;Para nós, pais, ensinar brincando é muito melhor do que falar e decorar fatos e coisas. A interação entre os irmãos e primos é sensacional, e não precisamos interferir toda hora na relação entre eles;, ressalta. Ana acrescenta que, além da relação entre os filhos, a retirada das tecnologias influenciou em seus papéis como pais. ;Acho que a tela nos tira a obrigação de sermos pais. Ao retomar a nossa vocação, notamos o quão importante é cuidar, de fato, dos bens concedidos por Deus para nós. Pede esforço, dedicação, atenção e amor. Ao final do dia, estamos exaustos, porém, felizes. Uma felicidade que só quem ama de verdade consegue vivenciar;, acredita.

Nostalgia

Pai da Sofia, 9, e Ulisses, 4, o gerente de projetos sociais Bruno Lopes, 34, conta que promove atividades diversas com os filhos. As brincadeiras mais frequentes entre eles chegam a ser nostálgicas para alguns: carrinho de rolimã, jogo da velha, balanço e bambolê. ;O ar livre e materiais reaproveitados sempre fazem parte de nosso brincar. Em tempos de chuva, o jogo simbólico, ou o faz de conta, e a contação de histórias são nossas brincadeiras;, relata. Ele diz que ensina para as crianças, através dos jogos, maneiras de lidar com problemas. ;Não é na força, não é na violência. Demonstro que não adianta apertar com força os encaixes do quebra-cabeças. O problema só vai ser resolvido se as cores e as linhas se encaixarem;, salienta.

Por compreender que os brinquedos populares e as brincadeiras tradicionais têm um papel fundamental na saúde física e mental e no desenvolvimento de habilidades dos filhos, Bruno restringe o uso de objetos digitais. ;Quando as crianças saem do seu lar para brincar, de imediato podemos associar a um afastamento do sedentarismo. Na rua, ela vai ter contato com outras crianças, vai precisar conversar, negociar, e lidar com a perda;, realça. O gerente explica que entre as principais mudanças no desenvolvimento dos pequenos, estão as habilidades de manipulação de objetos e autonomia para resolver problemas. ;Eles também têm ótimos resultados em socialização, em qualquer ambiente em que chegam, cada um com sua particularidade;, completa Bruno.

Curumim Cultural

Todas as atividades realizadas pelos filhos Sofia e Ulisses são consequência do Curumim Cultural (Comum Idade Cultural), projeto de Bruno, que visa ao resgate de brinquedos populares, brincadeiras tradicionais e jogos de rua. A iniciativa começou em 2015, quando o morador de Samambaia percebeu que as crianças da região não tinham o costume de se divertir ao ar livre. ;Passei a brincar na rua para influenciar meus filhos, e logo depois motivei os pequenos moradores da minha quadra;, lembra. Aos poucos, Bruno incrementou outros jogos, brinquedos e brincadeiras, até a ideia se transformar em projeto.

Além de influenciar a vida dos pequenos moradores, os pais também foram estimulados pelo projeto. ;Eles amam a proposta de reviver momentos da infância deles em comunhão com suas crianças;, observa o responsável pelo Curumim Cultural. A proposta também foi levada às escolas. ;Lá, gestores e professores são provocados a atuar no brincar de forma mais atenta e consubstanciada, aumentam-se as pesquisas, os estudos e a atuação no lúdico. E, em outro ponto, escolas específicas também reforçam os laços entre instituição de ensino, família e comunidade;, reforça.

Vencedor do prêmio Viva Voluntário, em 2018, o Curumim Cultural atua com diferentes organizações e ações. O perfil dos participantes é livre. ;Costumo contar que Ulisses andou com seis meses de gestação, ou seja, ainda no ventre de sua mãe, e comigo em um carrinho de rolimã;, brinca Bruno. Os brinquedos e brincadeiras são para todas as idades, e, para participar, é preciso estar atento à agenda do programa nas redes sociais.

*Estagiária sob a supervisão de Adson Boaventura

Curumim Cultural

Além de serviços como animação de festas, ruas de arte e lazer, gincanas e oficinas, o Curumim Cultural promove venda e locação de brinquedos populares e jogos.

Para mais informações:
(61) 98627-7606
curumimcultural@gmail.com
@curumimcultural

Recomendações ao uso de telas

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em momentos de inatividade, recomenda-se que os pais ou responsáveis leiam ou contem histórias.

Crianças com menos de um ano:
  • Devem estar fisicamente ativas várias vezes ao dia, de várias maneiras, particularmente por meio de brincadeiras interativas no chão.
  • Não se recomenda que passem tempo diante de telas de dispositivos eletrônicos.

Com um a dois anos de idade:
  • Passar ao menos três horas em uma variedade de atividades físicas em qualquer intensidade.
  • Para crianças de um ano de idade, não se recomenda nenhum período de tempo em frente a uma tela. Para aquelas com dois anos de idade, o tempo não deve ser superior a uma hora.

Com três a quatro anos de idade:
  • Devem gastar ao menos três horas em vários tipos de atividades físicas, em qualquer intensidade.
  • O tempo dedicado a atividades sedentárias em frente às telas não deve exceder uma hora.

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