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Correio Braziliense

Morre um herói

Cidade comovida com a história de um gesto fatal


postado em 27/02/2020 06:00

31/08/1977: visitantes observando ariranhas no Zoológico de Brasília após a morte do Sargento Sílvio Hollenbach(foto: Tadashi Nakagomi/CB/D.A Press)
31/08/1977: visitantes observando ariranhas no Zoológico de Brasília após a morte do Sargento Sílvio Hollenbach (foto: Tadashi Nakagomi/CB/D.A Press)
 
Esta matéria foi publicada originalmente na edição de 31 de agosto de 1977 do Correio. Sua republicação faz parte do projeto Brasília Sexagenária, que até 21 de abril de 2020 trará, diariamente, reportagens e fotos marcantes da história da capital. Acompanhe a série no site especial e no nosso Instagram.  
 
Morreu, ontem, no Hospital das Forças Armadas, o Sargento do Exército Sílvio Delmar Hollenbach, que o sentimento da população de Brasília logo identificou como mártir de seu heroísmo. Seu corpo, mutilado pelas ariranhas assassinas, de cujas garras ele salvou o menor Adilson Florêncio da Costa, será transladado, hoje de manhã para Porto Alegre e, posteriormente, para Cerro Largo, onde será sepultado. Desde as 15 horas de ontem, o corpo do herói está sendo velado na capela do HFA, recebendo as últimas homenagens de parente e amigos. Uma representação do EMFA também esteve presente.

O calor excessivo desta época e o fato de uma das ariranhas estar de crias novas estão sendo indicados como as razões principais da da agressividade dos animais no nosso jardim zoológico. Técnicos do IBDF não excluem a hipótese das ariranhas não terem sido bem alimentadas no domingo, o que — se for confirmado — seria um absurdo dada a presença maciça de frequentadores desse parque nos dias feriados. A ariranha é a maior das lontras e existia em quase todos os nossos grandes rios, sendo, hoje, uma espécie quase extinta, objeto de campanhas do Governo para a sua preservação.

Por um motivo ou outro, os exemplares do nosso zoológico estão enfurecidos. Mas somente depois do episódio fatal de domingo as autoridades do parque descobriram que são perigosas. O garoto Adilson, salvo pelo Sargento Silvio está em recuperação na Casa de Saúde Santa Lúcia. Numa carta que enviou ao Diretor do HFA, onde servia Sílvio Hollenbach, o pai do menino, Ademar Florêncio da Costa, destaca o ato heróico do militar, assinalando que, não fosse a sua bravura, estaria agora chorando a morte do filho. Desconhecendo o que aconteceu com o seu salvador, Adilson quer sair do hospital  para lhe oferecer uma festa. 
 
(foto: Arquivo/CB/D.A Press)
(foto: Arquivo/CB/D.A Press)
 

Morreu o sargento-herói que salvou menino das ariranhas


O 2º sargento do Exército Sílvio Delmar Hollenbach, de 33 anos, morreu ontem, às 5 horas, na unidade de tratamento intensivo do Hospital das Forças Armadas. Ele não resistiu às infecções decorrentes de mais de 100 mordidas de ariranhas, levadas sábado, enquanto salvava o garoto Adílson Florêncio da Costa, de 13 anos, que havia caído no fosso desses animais, no Jardim Zoológico de Brasília.

Segundo ocorrência registrada no Serviço de Emergência do HFA, o sargento Sílvio deu entrada naquela unidade às 17:05 h, aproximadamente. A ocorrência narra o acontecido, segundo sua esposa, dizendo que Sílvio e sua família estavam no Jardim Zoológico quando noto um “movimento diferente” no local onde ficam as ariranhas. Um garoto estava sendo atacado e ele pulou a cerca de proteção para retirá-lo. Diz ainda a ocorrência que o paciente — Sílvio — deu entrada no “SE” apresentando sangramento em inúmeros ferimentos corto-contusos. O chefe do Serviço de Emergência, Alfredo Granemann de Moraes, destaca na ocorrência que “sem muitas palavras gostaria de deixar registrado a admiração que nos causou o gesto do paciente”.

Dados biográficos


Nome: Sílvio Delmar Hollenbach; nascido a 31 de dezembro de 1943, em Cerro Largo, Rio Grande do Sul; filho de Otto Hollenbach; e Cecília Schneider Hollenbach; esposa: Eni Terezinha Martins Hollenbach; filhos: Sílvio Delmar Hollenbach Júnior, nascido em Porto Alegre, a 14 de maio de 1970; Paulo Henrique Hollenbach, nascido em Porto Alegre, a 8 de julho de 1971; Bárbara Cristina, nascida em Porto Alegre, a 3 de outubro de 1973; e Débora Cristina Hollenbach, nascida em Brasília, a 7 de julho de 1976.

O sargento Sílvio Hollenbach, que cursava Engenharia Agronômica, na Universidade de Brasília, entrou no Exército, em 15 de maio de 1962, sendo promovido a cabo no dia 28 de novembro de 1963. Como cursava a escola de sargentos, neste mesmo dia, Sílvio foi promovido a 3º Sargento e, no dia 30 de abril de 1970, ganhou nova promoção, desta vez, a 2º Sargento. Quando completou 10 anos de carreira, a 15 de maio de 1972, Sílvio foi condecorado com a medalha de bronze do Exército Brasileiro e atualmente servia no Serviço de Arquivo Médico e Estatística.
 
 
(foto: Arquivo/CB/D.A Press)
(foto: Arquivo/CB/D.A Press)
 

Familiares


Nenhum dos familiares do militar teve condições de falar com a imprensa, tendo em vista o desesperado estado de nervos em que se encontravam. Todos tiveram que ser medicados no Serviço de Emergência do Hospital das Forças Armadas.

O sepultamento do 2º Sargento Sílvio Hollenbach será realizado, amanhã, na cidade gaúcha de Cerro Largo, sua terra natal. O seu traslado para Porto Alegre estava marcado para o primeiro vôo de hoje da Transbrasil, por conta do Serviço Social do Exército.

Atendimento


“Nós perdemos essa batalha”, disse o médico José Carlos Daher, chefe do Serviço de Cirurgia Plástica do HFA, ao lastimar a morte do sargento Hollenbach. Explicou que o estado do paciente agravou-se justamente 24 horas após o fato, quando a medicina e o organismo humano lutam para superar as bactérias.

Acrescentou que a piora do estado do paciente foi muita rápida, e nem mesmo todo o esforço médico, utilizando aparelhagens das mais sofisticadas do continente, foi suficiente para salvar a vida de um herói. José Daher disse ainda que a principal causa da morte do sargento foi a infecção transmitida pelos animais, agravada pelas centenas de ferimentos.

Colegas


Todos os amigos do 2º Sargento Sílvio Hollenbach foram unânimes em elogiar o gesto heróico do militar, destacando ainda o seu bom relacionamento dentro do Hospital, onde prestava o serviço. 

O fato mais comentado pelos amigos de Sílvio, é falta de segurança oferecida pelo Jardim Zoológico de Brasília. Consideram que o fato da criança ter sido peralta, em subir no alambrado e conseqüentemente ter caído no meio das feras, é irrelevante, já que nas proximidades deveria haver guardas para atender a qualquer eventualidade.

Adilson está bem e queria oferecer festa ao salvador


No Hospital Santa Lúcia passa bem o menor Adilson Florêncio da Costa, que deveria ter alta ontem, mas que foi retardada pelos médicos que o assistem tendo em vista o perigo da infecção, como aconteceu com o sargento Sílvio.

Os médicos do Hospital Santa Lúcia solicitaram ontem mesmo ao Dr. José Carlos Daher, do HFA, o quadro clínico apresentado pelo sargento, evolução e dados laboratoriais, com o objetivo de examiná-los e formar resistência em caso de agravamento do estado de saúde do menor Adilson. 

Festa 


O garoto Adilson Florêncio da Costa ainda não sabe e nem será cientificado, pelo menos agora, da morte do sargento Sílvio Hollenbach, a quem deve a vida. Adilson só pensa em sair do hospital e oferecer uma festa, em sua casa, ao seu salvador.

Seus pais, Ademar Florêncio da Costa e Delminda Cassimiro da Costa, estão providenciando uma viagem para fora de Brasília, tão logo Adilson receba alta, com o objetivo de afastá-lo dos comentários do episódio que culminou com a morte do sargento, de quem o garoto não esquece um só momento.

Ademar Florêncio da Costa, pai de Adilson, enviou ao General Otávio Mendes de Oliveira, diretor do Hospital das Forças Armadas, carta datada de 29.8.77, quando o sargento ainda vivia, elogiando e agradecendo a atitude do militar que salvou seu filho. A direção da Empresa Brasileira de Correios Telégrafos, onde Ademar trabalha, também está preparando o texto de uma carta com o mesmo objetivo, que será enviada ao General Otávio Mendes de Oliveira.

No velório muitos consagram Sílvio como um herói


Parentes, amigos e colegas de trabalho do Sargento Sílvio Hollenbach desde às quinze horas de ontem começaram a chegar à Capela do Hospital das Forças Armadas onde o corpo foi velado. Desde o início da tarde começaram a chegar também muitas coroas de flores, entre elas a do EMFA e a do HFA com a inscrição: “O respeito e a gratidão do HFA a seu herói Sargento Sílvio. O corpo seguirá hoje às sete horas e trinta minutos, em vôo da Transbrasil, para Porto Alegre, onde será enterrado.

Todos os familiares do Sargento encontravam-se ontem na capela do Hospital: a esposa Eny Hollenbach, os filhos Sílvio Júnior, Paulo, Bárbara, Débora e as irmãs Vera e Cecília Hollenbach. Bastante abalados, os familiares recebiam os cumprimentos dos amigos que foram prestar sua última homenagem ao Sargento. Encontrava-se também no HFA, na tarde de ontem, uma representação do Estado-Maior das Forças Armadas constituída pelo seu Chefe de Gabinete, Coronel Antônio Padilha, Major Vitor Sabóia, Capitão Augusto Abreu e Major Mário José. Também em homenagem ao Sargento Sílvio Hollenbach, um grupo de carteiros da ECT encontrava-se presente por ser o pai do garoto Adilson Florêncio da Costa um funcionário daquele órgão.

Durou cerca de três horas a preparação do corpo do Sargento Sílvio Hollenbach para que ele seja transladado até Porto Alegre. O embalsamento foi realizado por uma equipe médica do HFA, através de seu Departamento de Anatomia Patológica. Uma das homenagens prestadas pelo EMFA foi a colocação de guardas, dois de cada vez, do Exército, Marinha e Aeronáutica, representando as três Armas.

Segundo informou a Assessoria de Relações Públicas do HFA não foram anunciadas ainda pelo Ministério do Exército as solenidades que serão realizadas em homenagem ao Sargento, aqui na ocasião de seu embarque e em Porto Alegre. Outras fontes informaram que está sendo feito um apelo ao Ministério do Exército no sentido de que concedam uma promoção póstuma ao bravo Sargento: “O seu ato, por si só dispensa qualquer dispositivo que regule a aplicação de promoções”.

Para o Zoológico, as ariranhas não são perigosas


“A função do Zoológico é dar ao público uma mostra de animais em bom estado de higidez com a função educativa, científica e recreativa”, segundo afirmação de seu diretor, Fernando Leira Teixeira.
 
(foto: Tadashi Nakagomi/CB/D.A Press)
(foto: Tadashi Nakagomi/CB/D.A Press)
 

O problema de segurança do Zoológico pode ser colocado em dois níveis segundo Teixeira. “Os animais que oferecem maiores riscos são colocados sob a vigia de um guarda. Neste caso se enquadrariam o chimpanzé, a onça, o urso pardo e o leão. Por outro lado, animais que não oferecem perigo, como é o caso das ariranhas, são vigiados rotativamente, isto é, o guarda das ariranhas protege vários animais ao mesmo tempo”.

“Com relação ao caso, lamentável, do sargento Sílvio”, continuou Teixeira, “o que ocorreu, é que o menino caiu ao andar equilibrando na grade que divide o viveiro das ariranhas. Quando ele perdeu o equilíbrio, a gritaria chamou a atenção do sargento, que correu e pulou dentro do viveiro, caindo dentro da água das ariranhas, onde elas têm grande agilidade. A impossibilidade dele chegar à terra foi fatal, mas o que mais chocou foi a passividade das pessoas, que assistiam o ataque dos animais”.

Joel da Mata é um tratador do Zoo, e naquele dia estava de plantão na administração do parque que fica a cerca de 800 metros do viveiro das ariranhas. “Foram lá e me avisaram o que ocorria. Subi no carro e fui a toda velocidade. Lá chegando, pulei dentro do viveiro, e comecei a gritar, pedindo que alguém jogasse um pedaço de pau para enfrentar os animais, mas ninguém ligava, até que depois de algum tempo apareceu um pedaço de pau e eu pude tirar os bichos de cima do sargento”.

Reportagem de Alexandre Cavalcanti, Maria das Graças Adjuto, Sílvio de Souza (repórteres), Tadashi Nakagomi e Marcos de Oliveira (fotógrafos). 

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