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Correio Braziliense

UnB outra vez tomada de assalto


postado em 28/02/2020 06:00 / atualizado em 25/02/2020 19:20

Jato d'água é usado pela polícia para conter manifestantes estudantis(foto: Arquivo/CB/D.A Press)
Jato d'água é usado pela polícia para conter manifestantes estudantis (foto: Arquivo/CB/D.A Press)
 Esta matéria foi publicada originalmente na edição de 30 de agosto de 1968 do Correio. Sua republicação faz parte do projeto Brasília Sexagenária, que até 21 de abril de 2020 trará, diariamente, reportagens e fotos marcantes da história da capital. Acompanhe a série no site especial e no nosso Instagram

 

A Universidade de Brasília foi invadida, na manhã de ontem, por tropas da Polícia Militar do DF, Polícia Civil, Polícia Federal, Polícia do Exército e agentes à paisana do DOPS que, utilizando bombas de gás lacrimogêneo, metralhadoras, bazucas, revólveres e cassetetes cercaram o “campus” universitário e retiraram das salas de aulas todos os professores e alunos, sendo êstes levados de mãos levantadas, a quadra de esportes da UnB para se submeterem a triagem. 

 

Utilizando cêrca de 50 viaturas e choques policiais, as tropas penetraram na Universidade exatamente às 10 horas, ao mesmo tempo em que bloqueavam todas as suas vias de acesso, impedindo a entrada e saída dos estudantes, que correram para todos os os lados, quando foram surpreendidos, durante as aulas, pela invasão. 

 

Não se sabe ao certo o número de estudantes presos, mas entre êles está o Presidente da Federação dos Estudantes da Universidade de Brasília, Honestino Monteiro Guimarães que, juntamente com mais outros estudantes, estão com prisão preventiva decretada pela Auditoria da 4a. Região Militar.

 

Imediatamente após a invasão da UnB por todo o dispositivo policial do Distrito Federal, cêrca de 15 parlamentares, entre senadores e deputados, se dirigiram ao recinto da Universidade, protestando contra o ato, mas a maioria dêles foi proteger seus próprios filhos, que seriam submetidos à triagem da polícia. 

 

(foto: Arquivo/CB/D.A Press)
(foto: Arquivo/CB/D.A Press)
 

 

Reitor

O General Dionísio, comandante das operações policiais, diante dos protestos dos deputados e senadores, que tentaram impedir fôssem cêrca de 500 alunos de Medicina, Engenharia e do Instituto Central de Ciências cercados na quadra de resportes, reuniu os parlamentares no interior de um veículo da Câmara, explicando que o Reitor Caio Benjamin Dias teve ciência de que as autoridades iriam prender os líderes estudantis que estão com prisão preventiva decretada. O Reitor da UnB viajou ontem para a Guanabara. 

 

O general informou ainda aos parlamentares que o motivo da medida tomada pelas autoridades policiais foi agravado, por que o Coordenador do Instituto Central de Artes mandou imprimir, na Gráfica da UnB, panfletos concitando os estudantes a reagirem, e ainda porque os universitários fizeram reunião sexta-feira última, no auditório Dois Candangos, com a presença do Presidente da UNE, Luís Travassos, ocasião em que os universitários pronunciaram vários “discursos subversivos”.

 

Início

De revólveres em punho, em três viaturas, agentes do DOPS penetraram no recinto do “campus”, em frente à Reitoria, prendendo todos os que se encontravam no interior da sede da Federação dos Estudantes da Universidade de Brasília, inclusive seu presidente Honestino Guimarães, que, aos gritos de socorro, despertou a atenção dos demais estudantes. 

 

Levando os estudantes para dentro das viaturas, os agentes à paisana do DOPS soltaram bombas de gás lacrimogêneo e fugiram. Entretanto, um grupo de estudantes conseguiu reter uma viatura que foi tombada e incendiada. 

 

A esta altura, a polícia retirou das salas de aulas todos os estudantes, que saíram correndo e chorando em virtude dos efeitos provocados pelas bombas de gás lacrimogêneo.  

 

Todos os alunos foram retirados das salas de aula, comboiados com metralhadoras apontadas em sua direção, mãos trançadas à cabeça, e encaminhados a um campo de concentração improvisando na quadra de esportes. Todos eram considerados culpados. (foto: Arquivo/CB/D.A Press)
Todos os alunos foram retirados das salas de aula, comboiados com metralhadoras apontadas em sua direção, mãos trançadas à cabeça, e encaminhados a um campo de concentração improvisando na quadra de esportes. Todos eram considerados culpados. (foto: Arquivo/CB/D.A Press)
 

 

Os alunos da Faculdade de Ciências Médicas, Biologia, Engenharia, Geologia e todos que se encontravam assistindo às aulas, de onde foram retirados e levados, com as mãos na cabeça, em fila indiana, para a quadra de esportes da UnB. 

 

Tumulto

Os estudantes presos eram conduzidos para caminhões da Novacap e viaturas policiais. O deputado Santilho Sobrinho, entretanto, reagiu à prisão de seu filho, estudante Marcus Santilho, conseguindo retira-lo das mãos dos policiais. Entretanto, tanto o parlamentar como o estudante foram agredidos a cassetete, provocando protestos dos demais parlamentares presentes. 

 

Após a sugestão do deputado Ellas Carmo ao general Dionísio, comandante das operações, ficou decidida, na reunião mantida, entre aquela autoridade e os deputados que só seriam presos os estudantes que tivessem mandado de prisão preventiva decretada. 

 

Entretanto, vários estudantes foram acometidos de impacto emocional, sendo grande o número de moças acometidas de acessos de chôro, enquanto seus companheiros eram levados às viaturas. 

 

Evacuada 

Às 12,30 a situação da Universidade de Brasília permanecia tensa, pois os funcionários e professores que se retiraram do interior dos blocos por força da fumaça das bombas de gás, permaneciam no “campus”, enquanto a polícia promovia a triagem dos 500 estudantes do Instituto Central de Ciências, que foram colocados na quadra de esportes, e cercados sob a mira das metralhadoras e baionetas. 

 

Os parlamentares presentes da Universidade de Brasília, quando dos acontecimentos de ontem, informaram que vão convocar uma Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar a invasão da UnB. Entre êles: o líder Martins Rodrigues, Santilho Sobrinho, Argemirode Figueiredo, David Lerer, Mários Covas, Elias Carmo, Doan Vieira, Djalma Falcão e Aurélio Viana.

 

Todos os alunos foram retirados das salas de aula, comboiados com metralhadoras apontadas em sua direção, mãos trançadas à cabeça, e encaminhados a um campo de concentração improvisando na quadra de esportes. Todos eram considerados culpados. (foto: Arquivo/CB/D.A Press)
Todos os alunos foram retirados das salas de aula, comboiados com metralhadoras apontadas em sua direção, mãos trançadas à cabeça, e encaminhados a um campo de concentração improvisando na quadra de esportes. Todos eram considerados culpados. (foto: Arquivo/CB/D.A Press)
 

 

Após os entendimentos mantidos com o general Dionísio, comandante das operações, ficou decidido que os parlamentares não se oporiam à prisão dos que tivessem prisão preventiva, sem prejuízo do inquérito que será instaurado para apurar os autores do incêndio da viatura policial. Desta maneira, os demais universitários seriam evacuados do “campus” universitário. 

 

Presos

Das operações policiais, de que participou o Coronel Alzir Nunes Gay, Comandante da Polícia Militar do DF, resultaram feridos seis universitários, que estão internados no Pronto-Socorro do HDB. O Serviço de Relações Públicas do 10. HDB forneceu boletim médico sobre o estado dos estudantes, dos quais foram submetidos à cirurgia. 

 

O deputado Santilho Sobrinho exibia para a imprensa os ferimentos causados em seu filho Marcus Santilho, enquanto êle próprio apresentava escoriações no braço, oriundos de cassetete da polícia. 

 

Os alunos da Faculdade de Ciências Médicas lamentavam, quase chorando, o fato de terem os policiais danificado o laboratório de pesquisas recentemente adquirido, por vultosa soma, pela Universidade de Brasília. 

 

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