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Correio Braziliense

Conheça histórias da W3, a avenida das boas lembranças da capital federal

Diferente do cenário atual, a rua foi palco de grandes eventos que marcaram a memória dos brasilienses


postado em 28/02/2020 06:00 / atualizado em 28/02/2020 17:20

A W3 era agitada e também foi palco de vários carnavais: a cidade parava para assistir aos desfiles das escolas de samba(foto: Arquivo CB/D.A Press)
A W3 era agitada e também foi palco de vários carnavais: a cidade parava para assistir aos desfiles das escolas de samba (foto: Arquivo CB/D.A Press)
Caminhar pela W3 Sul resgata a memória afetiva de quem vive Brasília há mais tempo. Hoje, o cenário é preocupante e deixa saudades. O movimento da avenida resume-se ao horário comercial das lojas que ainda sobrevivem ali. Aos fins de semana, sobram calçadas vazias e vagas de estacionamento. À noite, as quadras permanecem desertas e silenciosas. Imagens muito diferentes das que se via há 30 anos. Até os anos 1980, ali pulsava o coração da capital federal.

Nem todos sabem, mas a rua foi palco de carnavais e manifestações. Em julho de 1971, até Pelé desfilou em carro aberto por lá. No mesmo ano, Brasília parou para ver a carreata de candidatas ao Miss Brasília, sentadas nos capôs de automóveis, acompanhadas de batedores da Polícia Militar.
 
(foto: Arquivo CB/D.A Press)
(foto: Arquivo CB/D.A Press)
 

Hoje, no entanto, a decadência da via prejudica os negócios, como afirma o empresário Hely Walter Couto, 94 anos, dono da Pioneira da Borracha. O mineiro inaugurou o estabelecimento há 60 anos, segunda loja da rede. A primeira funcionava um ano antes, na Cidade Livre, antigo nome do Núcleo Bandeirante. Ele conta que veio a Brasília a convite de um amigo.

Aqui, começou a trabalhar e crescer o empreendimento. “No início, essa era a única avenida que existia. O resto estava construindo. Ficou uma rua cheia de loja bonita e movimentada. Carnavais e todas as festas aconteciam aqui”, descreve. “Juscelino Kubitschek vinha muitas vezes para visitar. Ele descia do carro e abraçava o pessoal que estivesse passando por perto.”
 
A avenida preserva um pouco da identidade dos tempos em que era o principal polo comercial da capital(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
A avenida preserva um pouco da identidade dos tempos em que era o principal polo comercial da capital (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
 

Para Hely, hoje o abandono é claro. “Fiquei aqui porque os prédios em que estou fui eu que construí. São meus, então não pago aluguel. Os outros tinham de pagar, não conseguiam mais arcar com os custos dos funcionários e se foram.” Decepcionado, ele lamenta a falta de consumidores. “Os negócios estão péssimos. As praças estão abandonadas. Se revitalizassem, aqui poderia ser ponto de encontro para dar nova vida à W3.”
 
Hely Walter Couto:
Hely Walter Couto: "No início, essa era a única avenida que existia. O resto estava construindo. Ficou uma rua cheia de loja bonita e movimentada" (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
 

Point da cidade

Comerciantes sobreviventes dos tempos áureos guardam as memórias com carinho. É o caso do empresário Erivaldo Macena de Abreu, 52 anos. A loja de aluguel de roupas que um dia recebeu ministros, deputados e senadores, hoje não atrai tanto movimento. O estabelecimento foi inaugurado em 1962, na quadra 509, com o nome Kassabian, primeira do ramo no DF. Apenas em 1985, Erivaldo começou a trabalhar ali. “Na época, tinha 17 anos e cuidava da limpeza. Fui crescendo, passei a ser gerente e acabei comprando do dono”, declara.

Nostálgico, ele recorda da avenida sempre lotada. “A W3 era como um shopping. Aos sábados, as pessoas vinham só para passear aqui. Era um ponto de encontro. Tomavam sorvete, e compravam. Esse era o point. A gente pegou a época de ouro.” Durante o mandato presidencial de José Sarney, Erivaldo chegou a atendê-lo. “Sou de criação humilde, sempre tratei como igual. Hoje penso que deveria ter feito fotos com eles (as autoridades). Era tanta gente que não caberia em uma parede”, brinca.

Erivaldo manteve o nome original até 2015, quando o lugar passou a se chamar Sonho Real. Ele explica que a clientela fiel ajudou o lugar a se manter funcionando. “Atendi o cara que casou, depois o filho dele, e hoje recebo o neto”, afirma. “Mas, para sobreviver, tivemos que pensar em alternativas e passamos a oferecer consertos. Se fosse só de aluguel, não bastaria.” Hoje, ele lamenta o descaso com o lugar. “Os estacionamentos são no meio da rua, as calçadas não estão niveladas. Falta manutenção na quadra. Além disso, com os shoppings, as pessoas preferem fazer tudo por lá.”

Quem viu bem o tempo passar pela rua é o empresário Simon Pitel, 83 anos, dono do restaurante Roma. Em 1964, o belga comprou o estabelecimento de um italiano que já não tinha mais interesse no comércio. “Eu nunca tinha trabalhado em restaurante. Não entendia nada. Os seis primeiros meses foram difíceis, mas depois de um tempo fui aprendendo e estou assim até hoje. Tem dado certo”, declara.
 
Simon Pitel com a filha Ângela: o empresário atribui a resistência e sucesso do restaurante à clientela fiel(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Simon Pitel com a filha Ângela: o empresário atribui a resistência e sucesso do restaurante à clientela fiel (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
 

Ele conta que nas diversas mesas, serviu senadores, embaixadores e deputados. A classe artística também degusta do menu até hoje. “Eles terminavam seus shows e vinham para cá. Lembro-me do Cauby Peixoto, Ângela Maria, e Moacyr Franco. Mas não tirei foto com eles. Nunca prestigiei cliente famoso, porque no final a nota de R$ 50 é a mesma para todo mundo.”

Simon atribui a resistência e sucesso do restaurante à clientela.  “Não está mais tão bom. Nem abrimos mais o salão no andar de cima”, lamenta. A tradição, no entanto, deve permanecer colorindo a W3. A filha de Simon, Ângela Pitel, 37 anos, está à frente dos negócios junto ao pai e promete seguir com o Roma. “No que depender de mim, vamos ter até filiais”, declara. Ela cresceu no restaurante. “Eu falo que esse é o meu irmão mais velho.”

Memória

O Correio presente
 
Em 1968, a então repórter do Correio Maria Valdira traçou um perfil da via mais famosa de Brasília. Na reportagem ela destaca a ebulição do local. “Com a transferência definitiva da capital, as atividades comerciais, bancárias, etc. transferiram-se do Núcleo Bandeirante para a Avenida W3, que passou a constituir o coração comercial da cidade.” Na matéria intitulada “Uma rua chamada W-3”, a jornalista ressalta que se especulava sobre o futuro, quando, após a construção do Setor Comercial Sul, a avenida passaria a ser como qualquer outra. “Entretanto, essa ideia não tem aceitação no meio do brasiliense, que já se acostumou com a estrutura rebelde da sua W3.”

Obras de revitalização
 
Em janeiro deste ano, o GDF concluiu as obras de revitalização das quadras 511 e 512. Lá, calçadas foram refeitas e pisos táteis instalados. A iluminação da rua agora é feita com luzes de LED. O investimento foi de R$ 1,8 milhão. A próxima etapa,consiste na revitalização das quadras 509/510 e 513/514 da Asa Sul. A previsão é de que as obras comecem no primeiro trimestre deste ano. A Secretaria de Obras afirmou que está em desenvolvimento os projetos das demais quadras da W3 Sul e de toda a W3 Norte.

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