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Correio Braziliense

Vila Planalto guarda mais de 60 anos de memórias da capital

Localizada a poucos quilômetros da Esplanada dos Ministérios, a região guarda edificações históricas da época da construção de Brasília. Memória é resgatada em mais uma matéria da série Brasília sexagenária


postado em 29/02/2020 07:00 / atualizado em 29/02/2020 01:02

Por muitos anos, as edificações de madeira ''rivalizaram'' com os prédios públicos da Esplanada dos Ministérios: atualmente, a maioria dos imóveis da Vila Planalto é de alvenaria (foto: Juvenal Shintaku/CB/D.A Press)
Por muitos anos, as edificações de madeira ''rivalizaram'' com os prédios públicos da Esplanada dos Ministérios: atualmente, a maioria dos imóveis da Vila Planalto é de alvenaria (foto: Juvenal Shintaku/CB/D.A Press)
Enquanto a nova capital do Brasil tomava forma, uma cidade surgia a poucos metros da Esplanada dos Ministérios. Os primeiros barracões foram erguidos em 1956, com a instalação dos acampamentos das construtoras Pacheco Fernandes e Rabelo, segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), onde se encontra a Vila Planalto. As casas de alvenaria ganharam espaço, mas há aquelas que lutam contra o tempo e mantêm as características originais. Em meio ao perímetro tombado pelo Iphan, a Vila Planalto guarda construções de mais de 60 anos e muitas memórias.

As casas eram construídas de forma simples, pois deveriam ser derrubadas depois da inauguração de Brasília. “Foram inúmeros acampamentos levantados à época da construção e alguns, no projeto, acabaram ficando dentro do Lago Paranoá. Por sorte, a Vila Planalto não foi um deles, talvez por ter uma mobilização dos moradores e por ter funcionários do alto escalão morando lá”, detalha Frederico de Holanda, professor emérito de arquitetura da Universidade de Brasília (UnB). O especialista destaca que as construções de madeira trazem características da arquitetura moderna clássica brasileira. “São volumes trapezoidais, muito limpos e simples”, descreve. 

A chef de cozinha Helena Maria Alves, 64 anos, mora em um dos poucos imóveis com características originais. A goiana chegou a Brasília com os quatro filhos em 1985, quando passou a morar na residência. “Na época em que o povo estava derrubando as casas de madeira, a gente nem tinha condições financeiras para construir uma de alvenaria. Com o tempo, fomos aprendendo a amar a casa da forma como ela é”, conta.
 
A chef Helena Maria mora com a família em uma das casas de madeira que restaram: ''Eu sou apaixonada''(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
A chef Helena Maria mora com a família em uma das casas de madeira que restaram: ''Eu sou apaixonada'' (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
 

A estrutura fica no acampamento EBE e servia de abrigo para os engenheiros da construção. As vizinhas, que antigamente eram iguais à de Helena, não existem mais. Elas foram derrubadas e erguidas com outros materiais. “Seria muito bom se mais gente mantivesse a casa de madeira. Eu sou apaixonada por ela. Para mim, isso é um tesouro”, admite.

Igreja pioneira

Erguida em 1959, a Paróquia Nossa Senhora do Rosário de Pompeia, também conhecida como Igrejinha da Vila Planalto, é outra construção antiga da região. Ela é considerada Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e foi uma das obras iniciais realizadas pelos pioneiros dos acampamentos que deram origem à Vila Planalto. A capela chegou a sediar a Catedral Metropolitana de Brasília até 1970, ano da inauguração da matriz, na Esplanada dos Ministérios.

A igreja foi construída inteiramente de madeira, tem nave única e campanário no canto da fachada. É um dos principais pontos turísticos da cidade. A cozinheira Maria de Jesus Oliveira da Costa, 66, a Tia Zélia, mora na Vila desde 1966 e vai, pelo menos, duas vezes por semana ao templo. “É um lugar onde nos sentimos em casa. Aconchegante. Quem chega à cidade, dá de cara com a igreja. Um lugar lindo, que transmite paz”, declarou.
 
Para Tia Zélia, famosa cozinheira da Vila Planalto, a Igrejinha reforça a importância da região para a capital (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Para Tia Zélia, famosa cozinheira da Vila Planalto, a Igrejinha reforça a importância da região para a capital (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
 

Hoje, quem passa em frente à igreja e não conhece a história da Vila Planalto nem imagina que, há 20 anos, um incidente quase acabou com o monumento histórico. Um incêndio o destruiu. Ao lembrar da cena, Tia Zélia se emociona. “Foi triste e muito doído. Um sentimento de perda mesmo. Ver aquela imagem, tudo se acabando em fogo, os bombeiros tentando apagar. Só não chorei, porque não sou de chorar, mas a sensação foi horrível”, relembra. A reinauguração da igrejinha ocorreu em 2007, com as mesmas características do projeto original.

Para saber mais

Incêndio na Igrejinha
Na madrugada de 5 de março de 2000, por volta da 1h45, um incêndio destruiu a Igreja Nossa Senhora do Rosário de Pompeia. O Corpo de Bombeiros foi acionado, mas, quando chegou, não era mais possível conter as chamas. Dias depois, foi instaurado um inquérito para apurar o caso, na 2ª Delegacia de Polícia (Asa Norte). À época, havia denúncias de que o incêndio teria sido criminoso. Resquícios de gasolina foram encontrados próximo ao local, reforçando as suspeitas. No entanto, sem conclusão, o inquérito foi arquivado no ano seguinte.

Memória

Massacre da Pacheco Fernandes
O episódio conhecido como o Massacre da Pacheco Fernandes gera dúvidas até hoje. Em 1959, houve uma confusão no canteiro da construtora, onde hoje fica a Vila Planalto. Alguns informam apenas uma morte, enquanto supostas testemunhas denunciam um massacre. O inquérito policial aponta que 27 soldados da antiga Guarda Especial de Brasília (GEB) atiraram contra os operários, após uma revolta. Oficialmente, a ação teria deixado um morto e alguns feridos.

Carta para José Sarney 

Entre 1980 e 1987, houve pressão do governo para derrubar a Vila Planalto, segundo o arquiteto Frederico de Holanda. Esse movimento ficou na memória da escritora e moradora Leiliane Rebouças, 44 anos. “Os fiscais ficavam circulando pela vila. A gente vivia com medo. Eles entregavam cartas com um bilhete pedindo para deixar a casa em 24 horas”, relata. Aos 10 anos, Leiliane acompanhava a mãe nas reuniões da comunidade pela manutenção dos lotes. “Eu dei a ideia de a gente conversar com o presidente (José Sarney) e todo mundo me achou louca. A gente não conseguia falar nem com o governador, imagina com o presidente”, comenta.

 

Com o apoio de amigos, convenceu a mãe a levá-la a uma cerimônia na Praça dos Três Poderes. “No dia, fiquei sentada no pé da minha mãe. Combinamos que, quando o presidente estivesse no meio da rampa, ela me daria um empurrãozinho. Na hora, eu passei por baixo das pernas de um segurança e saí correndo. Quando cheguei ao carro, fui interceptada. Depois, o Sarney mandou me chamar, e eu entreguei uma carta para ele”, revela.


A carta foi respondida cerca de 15 dias depois, segundo Leiliane. O assunto foi encaminhado ao governador, e Leiliane chegou a ser chamada ao Palácio do Buriti, onde recebeu a informação de que havia um projeto para o tombamento da cidade. Em 1987, Brasília recebeu o título, e a Vila ficou dentro do perímetro.

Abandono

Enquanto algumas casas encantam pelo colorido e pelo resgate da memória da construção da capital brasileira, outras estão abandonadas. No Conjunto Fazendinha, onde as residências têm até hoje os formatos originais, muitos imóveis estão esquecidos. A Secretaria de Cultura e Economia Criativa informou que o Acampamento Pacheco, onde está o Conjunto Fazendinha, tem um importante acervo, que deve ser cuidado e preservado. De acordo com a pasta, foram iniciadas conversas com a Secretaria de Cidades para a realização de intervenções no local, como limpeza, urbanização e sinalização. Após a conclusão dos trabalhos, a equipe técnica da pasta iniciará a avaliação do processo de tombamento da área. 

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