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Correio Braziliense

Selvageria contra o índio envergonha todo o país

O cacique Galdino Jesus dos Santos tem escassas chances de sobrevivência. Ele foi queimado vivo enquanto dormia


postado em 02/03/2020 06:00 / atualizado em 25/02/2020 21:45

Com queimaduras em 95% do corpo, o índio pataxó está internado e tem poucas chances de sobreviver (foto: Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press)
Com queimaduras em 95% do corpo, o índio pataxó está internado e tem poucas chances de sobreviver (foto: Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press)
Esta matéria foi publicada originalmente na edição de 21 de abril de 1997 do Correio. Sua republicação faz parte do projeto Brasília Sexagenária, que até 21 de abril de 2020 trará, diariamente, reportagens e fotos marcantes da história da capital. Acompanhe a série no site especial e no nosso Instagram

Um dia depois do Dia do Índio, 19 de abril, comemorado com protestos pelos 320 mil índios do país, cinco rapazes de classe média, do Plano Piloto de Brasília, jogaram combustível e incendiaram o índio pataxó Galdino Jesus dos Santos, na madrugada de ontem, numa parada de ônibus da 503/504 da W3-Sul, num crime que provocou comoção no país. “Estou horrorizado”, disse o presidente Fernando Henrique Cardoso. “Esse crime enoja a sociedade brasileira”, completou o ministro interino da Justiça, Milton Seligman. “A honra de Brasília está em jogo por causa desse crime hediondo”, indignou-se o governador Cristóvam Buarque. 

 

O índio Galdino dos Santos, 44 anos, na tribo Pataxó hã-hã-hãe, do sul da Bahia, deu entrada na unidade de queimados no Hospital Regional da Asa Norte com 95% do corpo consumo por queimaduras de segundo e terceiro graus. O que seria “uma brincadeira” de cinco adolescentes está consumindo, aos poucos, a vida do índio e provocando a revolta da sociedade. 

 

Por volta das 5h30 da manhã de ontem, Max Rogério Alves, 19 anos, Eron Clóvis Oliveira, 18 anos, Antônio Novely Cardoso Vilanova, 19 , e Thomas Oliveira de Almeida, 19, em companhia de um menor de 16 anos identificado apenas como Gutemberg - irmão mais novo de Thomas - voltavam de uma noite de agitos no Centro Comercial Gilberto Salomão quando resolveram estacionar o Monza preto, placa JDQ 5807, em frente à parada de ônibus para fazer o que chamaram de “brincadeira”.

 

Jogaram sobre o corpo do índio Gilson¹ uma substância inflamável, provavelmente álcool ou produto químico utilizado na limpeza de carros, ateando fogo em seguida. Ao verem que o ato assumiu proporções maiores que o esperado, quatro dos cinco rapazes fugiram do local a pé, correndo. Max Rogério permaneceu na condução do veículo. Sua atitude instintiva foi arrancar com o carro na direção em que iam seus comparsas para capturá-los. 

 

O que os acusados não previram foi a presença de testemunhas na hora do atentado. O estudante Niron Euclides Santos Magalhães, com a amiga Tatiana Basso, passava pelo local segundos após o atentado. “Vimos uma pessoa ardendo em chamas na parada de ônibus e mais à frente um carro arrancando”, conta Tatiana. “Eu segui o carro em que eles estavam até conseguir anotar a placa do veículo”, conta Niron. 

 

Enquanto Niron perseguia os acusados, outras quatro pessoas tentavam salvar o índio que agonizava em chamas no banco da parda. “Tentamos apagar o fogo do corpo da vítima com casacos e água, mas o que extinguiu as labaredas foi o extintor de incêndio do carro”, relata uma das testemunhas, Adriano Gomes Siqueira. 

 

Uma viatura da Polícia Militar que passava pelo local e transportou a vítima, ainda consciente, ao pronto-socorro do Hospital Regional da Asa Norte (HRAN). “Ele chegou aqui com 85% do corpo com queimaduras de terceiro grau e 10% de segundo. Só não tinha queimaduras nas solas dos pés e no alto da cabeça” contou a médica Maria Célia Martins Bispos, que atendeu o índio. “No final da tarde de ontem, ele respirava com ajuda de aparelhos e apresentava insuficiência renal aguda. O caso se agravou com uma insuficiência respiratória”, informou Maria Célia Bispo. “As chances de sobrevivência do índio são mínimas”, completou. 

 

(foto: Arquivo/CB/D.A Press)
(foto: Arquivo/CB/D.A Press)
 

 

Protesto

Galdino Jesus dos Santos chegou a Brasília no dia 19, sábado, acompanhado de outros oito índios da tribo. Eles vieram pedir a demissão do presidente da Funai, Júlio Gaiger. “Ele está impedindo a demarcação de nossas terras na Bahia”, acusou a auxiliar administrativa da Funai, Míriam Terena. 

 

Na noite anterior ao atentado, Galdino - que também era conselheiro e líder da comunidade tribal Pataxó hã-hã-hãe - resolveu se juntar aos outros membros de sua tribo que festejavam em uma cerimônia de comemoração ao Dia do Índio na sede da Funai.

 

Às 12h, ele deixou a festa para retornar à pensão de dona Vera Morelli, na 703, da W3 Sul, onde estava hospedado às custas da Funai. No caminho de volta, Galdino se perdeu e chegou ao dormitório apenas às 3h. “A dona da pensão o barrou na entrada e disse que passavam das 9h - hora em que as portas normalmente se fecham”, contou o primo da vítima, Gerson Pataxó. 

 

Revolta

Em frente ao HRAN, o clima era de revolta e desespero. Parentes da vítima e líderes indígenas circulavam no local em busca de informações sobre o estado de saúde do índio Galdino.

 

Cerca de 20 policiais guardavam a porta da unidade de queimados, impedindo o acesso de parentes do índio ao interior do hospital. “Vamos buscar mais pessoal na aldeia para acompanhar o caso”, ameaçava o primo da vítima Gérson Pataxó. “Queremos Justiça”, preva Justino Pataxó, pai de Galdino. 

 

O ministro interino da Justiça, Milton Seligman, foi ao hospital, por volta das 14h, para ver as condições do índio Galdino. “Esse foi um ato de vandalismo. Um crime com requintes de crueldade que nós recebemos com revolta”, resumiu o ministro. 

 

O governador do Distrito Federal Cristóvam Buarque, também esteve presente para apoiar os familiares da vítima. “Não foi apenas um atentado contra o povo de Brasília, mas sim contra a humanidade”, opinou Cristóvam, classificando de “bandidos” os rapazes responsáveis pela agressão. O governador foi enfático ao exigir a apuração e condenação dos réus. “Para salvar a honra da cidade, que está em jogo, só com punição exemplar”, pregou. 

 

Os cinco adolescentes estão sendo acusados de tentativa de homicídio. A pena nesses casos é de 12 a 30 anos de prisão. “Eles foram autuados em flagrante e estão aguardando julgamento”, informou o advogado de defesa de Eron, Thomas e do menor Gutemberg, Rommel Parreira Corrêa. 

 

Na polícia, réus confessos

A madrugada de sábado para domingo foi longa para cinco jovens de classe média da cidade. Todos moradores do Plano Piloto e sem passagem pela polícia. Mas o era apenas uma noitada acabou mal. 

 

Os amigos Max Rogério Alves, 19 anos; Eron Clóvis de Oliveira, 18 anos, Antônio Novely Cardoso Vilanova, 19 anos; Thomas Oliveira de Araújo, 19 anos, e o menor G.O.A., 16 anos, irmão de Thomas, resolveram “fazer uma brincadeira” com o índio Galdino Jesus dos Santos, 44 anos. Incendiaram-no.

 

Agora são réus confessos de tentativa de homicídio - “tentativa” se o agredido conseguir sobreviver às queimaduras, caso contrário, é homicídio qualificado. “Um crime hediondo, um ato contra a humanidade”, nas palavras do advogado Paulo Machado Guimarães, da comissão de direitos humanos da OAB-DF.

 

Até às 20 horas de ontem, os cinco amigos continuaram depondo na 1ª Delegacia de Polícia. Os próprios policiais ficaram chocados com a violência dos rapazes. “Nunca tinha visto selvageria igual”, contou um delegado presente ao depoimento. 

 

22/04/1997 - Entrevista com os Tomaz, Max e Antônio 

Estupidez Confessa

“A gente não sabia que era índio. Não fazia a menor diferença.”

 

Policial conduz acusados de incendiar o corpo do indio Pataxó, Galdino Jesus dos Santos, em ponto de ônibus (foto: Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press)
Policial conduz acusados de incendiar o corpo do indio Pataxó, Galdino Jesus dos Santos, em ponto de ônibus (foto: Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press)
 

 

Correio Braziliense - Vocês tinham a intenção de incendiar e matar uma pessoa?

Max - A gente queria só assustar. Jogamos na perna do cobertor. Mas o fogo se espalhou rápido demais. 

Tomaz - A gente nunca pensou que ia ficar um fogo desse tamanho. 


Correio - Por que vocês não socorreram? 

Tomaz - A gente ficou apavorado e correu para o carro. A gente não sabia se saía ou voltava. Mas aí, começou a aparecer um monte de carros e fomos embora. 

Antônio - Pensamos em voltar para socorrer. A gente não tinha a menor intenção de ferir ninguém. 

Tomaz - A gente não sabia o que fazer e, nessa hora, o cara anotou nossa placa. 

Max - Começou a juntar um monte de carro e aí a gente foi embora. 

 

Correio - Quem teve a idéia de tocar fogo, quem jogou o produto e quem riscou o fósforo?

Tomaz - A gente não vai declarar isso. 

 

Correio - Por que vocês escolheram logo ele? Sabiam que era índio?

Max - A gente não sabia que era índio. Não fazia a menor diferença, foi uma brincadeira que a gente pensava que fosse normal. A gente ficou sabendo que era Dia do Índio na delegacia.

 

Correio - Mas na delegacia vocês disseram que pensaram que era um mendigo. Então, com mendigo pode? 

Max - Não foi isso que a gente queria dizer. Na delegacia disseram pra gente: ‘Viu só que presente vocês deram pro índio no Dia do Índio?’ Tinha um monte de índio na delegacia. Ficamos com medo e a gente disse que não sabia que ele era índio. Ficou parecendo que a gente tinha saído para sacanear um índio porque era Dia do Índio. Mas não é verdade. 

 

Correio - Quando vocês tiveram a idéia de tocar fogo em mendigo? Já saíram do Gilberto com essa intenção?

Max - Tivemos a idéia na hora. Não foi premeditado. Nossa intenção era dar um susto. A gente não pensou em voltar. 

 

Correio - Mas, se não foi premeditado, porque vocês trocaram de carro antes e depois?

Max - Foi uma coincidência a gente fazer essa besteira no Monza. A gente se encontro no Gilberto e aí fomos no Sky’s em dois carros, no Civic e no carro do Eron. O Antônio deixou o carro dele no Gilberto, deixou o carro do Eron e depois saímos no Civic todo mundo junto. Mas era muito apertado e eu resolvi pegar o Monza. 

 

Correio - Vocês já tinham o produto especialmente para isso?

Max - Não. Era um tubo de álcool para tirar piche do carro. Já estava no carro.

Tomaz - Já falaram até em coquetel Molotov. Mas é mentira. A gente pensou que ele ia acordar, dar um pulo e sair correndo. Estão pintando a caveira da gente. 

 

Correio - Vocês já tinham feito isso ou coisa parecida antes?

Tomaz - Não. A gente nunca fez isso. Ninguém aqui nunca se meteu em briga nem em confusão. 


Correio - Mas, depois que fizeram isso, o que vocês pensaram em fazer?

Max - A gente não sabia o que fazer. Estávamos apavorados.

 

Correio - Vocês têm consciência da gravidade da situação de vocês? O que vocês pensam do futuro?

Antônio - A gente tem esperança que o juiz veja que nossa intenção não era ferir. 

Tomaz - Agora, a gente já era, não por causa de uma coisa que a gente queria fazer, mas por causa de um acidente. A gente errou, mas por um acidente o erro acabou com a vida da gente. 

 

 ¹Parece ter ocorrido uma confusão entre o nome de Galdino. O Correio Braziliense optou por divulgar a matéria assim como está no original.  

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