Cidades

Com o sabor de Brasília: conheça estabelecimentos que não saem de moda

Há locais que trazem memórias afetivas e, na capital, não é diferente. A série Brasília sexagenária mostra estabelecimentos abertos desde a inauguração e que fazem sucesso até hoje

Caroline Cintra, Juliana Andrade
postado em 11/03/2020 06:00
homem senhor com mulataAs receitas são as mesmas, o gosto é igual e o ponto de venda sempre no mesmo endereço. O crescimento da cidade não impediu que restaurantes e lanchonetes resistam ao tempo e continuassem a fazer a história. No cardápio, trazem memórias, dedicação e tradição. Na reportagem destam quarta-feira (11/3) da série Brasília sexagenária, o Correio conta a trajetória de comércios que inauguraram junto à nova capital ou até mesmo antes dela.

Em uma casa modesta, ao lado da Barragem do Paranoá, Fábio Martins, 44 anos, continua o legado do pai. Apaixonado por culinária, Gomes Calixto dos Santos abriu ali a Churrascaria Paranoá. Inaugurado em fevereiro de 1956, o estabelecimento funcionava como refeitório para os milhares de operários da construção da nova capital do país.
Enildo Veríssimo (acima) continua tocando a Pizzaria Dom Bosco mesmo após a morte do irmão e sócio, Hely (E)

Era ele quem colocava a mão na massa e criava os temperos da galinha caipira, o churrasco misto e as carnes de cordeiro, de jacaré e de rã, pratos tradicionais desde o início da casa e que atrai fãs até hoje. ;Antigamente, os donos de restaurantes ficavam sempre no caixa. Meu pai, não. Fazia questão de encostar a barriga no fogão e cozinhar;, conta.

Fábio começou a ajudar no local aos 7 anos, como faxineiro. Era responsável por deixar os banheiros e o chão limpos. ;Passava aquela cera vermelha, com os joelhos no chão. Meu pai fazia questão de manter tudo organizado. Afinal, a gente recebia de 2 mil a 5 mil pessoas por dia aqui;, lembra. Na adolescência, acompanhava os passos do pai no negócio da família. Aprendeu o que sabe sobre gastronomia com ele.

Passados 64 anos, a churrascaria mantém o mesmo formato, toda de madeira, e a tradição e os desafios são mantidos pelas gerações. ;Não dependemos de ninguém. Sou eu e a minha família. Assim como eu assistia meu pai, meus quatro filhos fazem o mesmo comigo. Por mim, eles seguiriam o legado, mas vou deixar cada um escolher o próprio caminho. Fico aqui até minha última gota, como meu pai fez;, disse.

Calixto morreu em 2011, após sofrer um acidente vascular cerebral (AVC). Ele conseguiu acompanhar os passos do filho à frente do negócio. ;É um bem que quero manter. Muitas pessoas reconhecem como um bem de Brasília, e isso nos enche de orgulho;, completa.

Tradição


;Uma dupla e um mate, por favor!”. A pizza vem na mão mesmo, em um guardanapo, para comer rápido, ali, em pé, em frente ao balcão. O atendimento é assim há 60 anos na Pizzaria Dom Bosco, na 107 Sul, rua da Igrejinha Nossa Senhora de Fátima. Enildo Veríssimo, 74, proprietário do comércio, garante que o sabor é o mesmo, desde 1960. A receita, ele aprendeu em Minas Gerais. ;Eu trabalhava em uma pizzaria em Araxá e aprendi a fazer a massa lá, com um italiano;, lembra. O aprendizado caiu como uma luva ao chegar a Brasília, à procura de um emprego.

Ele veio com o irmão Hely Veríssimo, que morreu em 2014, após um infarto. ;O pessoal ia montando as coisas para vender. À época, o governo deixava você abrir o comércio e só depois arrumava a documentação, porque, se eles dificultassem, o pessoal ia embora;, diz. ;O povo colocava o nome de Dom Bosco em tudo na época;, comenta Enildo.

O comércio é o único que permaneceu desde o início de Brasília na quadra, segundo o empresário, mantendo sempre o mesmo padrão. ;É a mesma receita, atendimento e qualidade. Estamos na oitava geração de clientes. Tem gente que vem de manhã, à tarde e à noite;, comenta.
A aposentada Ana Lúcia Leite, 63, é uma das clientes fiéis. A mineira chegou a Brasília antes da inauguração da cidade, em 1959, quando tinha 2 anos, e ia sempre com os pais. Mas passou a frequentar mais vezes na adolescência. O pedido era sempre o mesmo: a tradicional pizza de muçarela, com muito molho, e uma caçulinha, refrigerante pequeno.

Hoje, mesmo morando um pouco mais distante, no Lago Norte, a tradição continua. ;Venho eu, meus filhos e netos. Todo mundo gosta. O pedido continua o mesmo. Não tem como mudar;, brinca Ana Lúcia. ;Ainda é a mesma pizza da minha adolescência. Isso é uma raridade em Brasília. É um dos poucos lugares que consegue se manter. Tornou-se algo fraterno;, completa.

Além do ponto na rua da Igrejinha, a pizzaria Dom Bosco abriu outras quatro lojas. Elas são comandadas pelos filhos e por sobrinhos de Seu Enildo. ;É um privilégio muito grande. A gente fica orgulhoso. Espero que a pizzaria continue firme por muitos anos;, destaca.

Reconhecimento


Para o professor emérito do Departamento de Arquitetura da Universidade de Brasília (UnB) José Carlos Coutinho, estabelecimentos como a Churrascaria Paranoá e a Pizzaria Dom Bosco deveriam entrar no roteiro dos turistas. ;Geralmente, eles vêm para ver os monumentos da cidade, que realmente são grandes atrações e devem ser vistos. Mas esses restaurantes escrevem a história da nova capital. Se quer saber da história de Brasília, tem que visitar esses lugares também;, sugere.

O especialista chegou a Brasília em 1968 e lista outros restaurantes que se tornaram pontos de encontro, como João do Frango, Xangô, Cantina Amaral, e tantos mais, dentro ou fora do Plano Piloto. ;Na Asa Sul, por exemplo, era só poeirão, sem pavimentação, e os programas exóticos eram sempre para comer. A rua da Igrejinha era considerada o shopping de hoje. Era o miolo da cidade e, aos poucos, foi se expandindo;, lembra o professor.

Um dos primeiros pontos que ele visitou em Brasília foi a Churrascaria Paranoá. ;Deveria ser até tombado. Não pela qualidade artística, mas histórica. Ou, pelo menos, assinalar uma placa que lembrasse mais a existência dela. Além de ser um estabelecimento junto ao acampamento do Paranoá, que acolheu os operários, é um lugar histórico;, afirma Coutinho.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação