Cidades

Construção coletiva

Correio Braziliense
Correio Braziliense
postado em 16/03/2020 06:09
A necessidade da construção de uma nova visão dos relacionamentos é destacada pela jurista Ela Wiecko. ;É preciso trabalhar a quebra desse ódio contra o gênero feminino. Isso tanto com os homens quanto com as mulheres. É preciso enxergar uma nova masculinidade, que não tenha como referência as mulheres como um objeto de posse. Temos que mostrar o quão importante é reconstruir essas relações entre homens e mulheres no dia a dia;, reforça.

;Se um relacionamento abusivo acaba e cada um segue a sua vida, vemos que a tendência de repetição do ciclo existe. A mulher pode, sim, cair em outra relação abusiva e os homens continuam com o mesmo comportamento com as novas companheiras. Então, precisamos ter mais programas do governo para atendimento nesse sentido de conscientização de todas as partes envolvidas na violência;, completa.

Enfrentamento

Denunciar os casos de violência domésticas é uma das ações importantes para quebrar o ciclo de agressões, conforme ressalta Ben-Hur Viza, juiz titular do Juizado de Violência contra a Mulher do Núcleo Bandeirante e coordenador do Núcleo Judiciário da Mulher (NJM). ;Os dados indicam que as mulheres não morrem porque tiveram a medida protetiva indeferida ou porque denunciaram a situação de violência. Isso pode ocorrer? Sim. Mas o grande foco deve ser em como fazer com que uma situação de violência chegue às autoridades. Se a vítima não registra, não há como protegê-la e orientá-la;, detalha.

O magistrado concorda se tratar de uma problemática cultural: ;Define-se que, para a mulher ser respeitada, precisa ter a imagem masculina. De um certo modo, atitudes como esta legitimam a violência;. Acredita, no entanto, haver avanços nesse sentido. ;Um dos fatos que apontam este progresso é o número de ocorrências de agressões familiares que são abertas pelos vizinhos. E é esse o nosso papel: comunicar as violências à polícia, para que não evoluam para um feminicídio;, alerta.

Para a mudança a longo prazo, Ben-Hur destaca a necessidade de se tratar a violência doméstica e familiar dentro do âmbito escolar, e cita o projeto Maria da Penha Vai à Escola: Educar para prevenir e coibir a violência contra a mulher. ;Hoje, esse trabalho leva o conhecimento da lei para crianças e adolescentes que também são vítimas de violência;, diz.

Além da educação, Maria Carolina Ferracini aponta outros elementos que devem ser mudados. ;É preciso implementar políticas públicas eficazes e suficientemente financiadas, pois é necessário mudar urgentemente o foco da punição para a prevenção;, afirma. ;Apesar de ser importante garantir às vítimas o direito à justiça e à memória, antes de mais nada é fundamental que as mulheres vivam. Para isso, será necessário que os serviços de acolhimento estejam verdadeiramente prontos para recebê-las, sem discriminação racial e sem estereótipos de gênero.;

Esse trabalho, reforça a especialista, não pode se limitar às delegacias. Deve ocorrer também na saúde, na assistência social e nas casas-abrigo. ;Aqui no Brasil temos observado indícios de que as políticas de enfrentamento à violência e amparo de mulheres vítimas são menos acessíveis às mulheres negras, indígenas e rurais.;

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